Desabafo do Mal Empregue

É com o coração pesado que encaro mais uns minutos de pesquisa on-line. Procurar trabalho equivale a colocar em perspectiva toda a nossa vida, encarando a realidade das nossas escolhas. E ponderar o peso dessas escolhas, que influenciaram o caminho que segui, não é nenhuma história de alegrias e vitórias. Antes uma de escolhas entre males menores e maiores.

Serão centenas, talvez milhares que dedicam parte do seu tempo a esta tarefa, que em 90% dos casos, é inglória. Somos muitos os que procuram, que encaram as escolhas da vida enquanto pesquisam entre anúncios mais ou menos fiáveis, entre ofertas mais ou menos boas, entre escolhas mais ou menos degradantes.

É deprimente o tempo que passamos a conjecturar: e se tentasse este? E se não me contactam? E se me contactam? E se mudo para pior? E se não mudo e me arrependo? E se tivesse escolhido um curso diferente? Uma vida diferente? E se tivesse gostos diferentes? Competências diferentes?

A sociedade impõe a regra. A sobrevivência aperfeiçoa o método. Todos aqueles que, por nascimento ou por escolha, não gozam das facilidades de uma avultada conta bancária, são obrigados a debaterem-se com a próxima escolha. A impossibilidade da possibilidade.

E no decorrer das mãos cheias de minutos que passam, encaramos algumas realidades sobre nós mesmos, e sobre os outros. Tudo o que quero é encontrar um trabalho onde possa ser feliz, algo que me agrade fazer, construir, encaixar na minha existência. É tudo o que qualquer pessoa deseja, a possibilidade de amar o que se faz. E é ou não o mais difícil de conseguir?

Aperfeiçoar a nossa capacidade de encaixe trouxe a muitos a fortitude de estômago necessária para se submeter. Dia após dia, hora após hora, minuto após minuto, respirar fundo e pensar que falta exactamente uma mão cheia de minutos até o tempo ser só meu, até poder ir fazer algo que realmente gosto, até poder chorar em paz ou fingir que o dia seguinte não se aproxima a uma velocidade exasperante.

E enquanto procuro o que fazer, na ânsia de deixar para trás algo que já não me completa, ou anima, ou estimula, concluo: tudo o que há por aí? É mais do mesmo! Mais horas de encaixe, de adaptação, de dissimulação. Mais tempo perdido, a fazer algo que não se suporta, não se entende, e que, em última instância, nos aniquila o espírito!

Qualquer pessoa que tenha procurado mudar de vida poderá relacionar-se com isto. Qualquer um que, ainda acredite que esta é a melhor forma de sobreviver, não o fará. Tudo se resume ao ponto em que nos encontramos na linha da nossa vida. Se eu acreditasse que os fins justificam os meios, nunca teria vivido através da crença de que o desempenho iria sobrepor-se a tudo.

A única máxima que prevalece neste mundo: O dinheiro é tudo! Acima da sanidade mental. Acima da Natureza! Acima do Amor! Acima da paz! E bem acima do Indivíduo!

E se continuamos a viver pelo peso da próxima nota, nunca seremos mais do que um objecto infinitamente passado de mão em mão, sem qualquer identidade, profundidade emocional ou valor intrínseco. Seremos sim, aquilo que é entregue, sem qualquer esforço, em troca de algo inatingível.

Usando a palavra do dia: Seremos perfunctórios!

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