A Ideia por trás da História

Percepção”, o meu primeiro manuscrito, nasceu num período conturbado. Excesso de trabalho, num ambiente péssimo, juntando uma família exigente, um marido ocupado e uma casa por minha conta, tinha aqui a mistura ideal que motivou a Mudança.

As minhas horas livres eram passadas a vegetar, sentada no sofá da sala, na frente do televisor e com um computador portátil ao colo. Mas como diz a música “eu não sou audiência para a solidão”, e um filme de Domingo à tarde veio despertar em mim a vontade de ler o livro por trás daquela película tão estranha e cativante.

O livro encontrava-se arrumado na minha biblioteca pessoal, havia sido oferecido por uma amiga, no meu aniversário. As palavras dela foram “Eu estou a gostar imenso, e sei que vais gostar.” Numa semana li os quatro livros que compunham a série. Nos meses seguintes reli-os uma quantidade de vezes que não sei precisar. E aí o bichinho instalou-se na sua nova casa.

Comecei por expandir os meus interesses, fui à procura de outros livros que se alojassem em mim com a mesma força que aqueles o tinham feito. Até hoje não consegui duplicar a experiência em intensidade, mas consegui reunir forças e ideias suficientes que inspirassem o meu próprio conjunto de páginas.

Assim que comecei a escrever sobre uma ideia que me acompanhava há vários anos, descobri que sabia que o mais difícil estava feito. A ideia.

Claro que ter uma ideia não é sinónimo de sucesso, mas é parte determinante de qualquer início. saber sobre o que se quer escrever, descobrir uma ideia capaz de sustentar a execução dum livro, um tema, ou uma história pode ser um processo agonizante. Mas também aqui, tal como em tudo na minha vida, eu prefiro esperar que as coisas enveredem pelo seu percurso natural. Não podemos forçar nada para o qual não estejamos preparados, ou pelo menos não devíamos fazê-lo. Isto não significa ficar parado à espera que as coisas nos atinjam na cabeça. Significa que, quando o tempo é certo, tudo se alinha para a concretização.

Se há três anos me dissessem que eu estaria aqui a escrever isto, e que teria três manuscritos orgulhosamente arrumados na minha gaveta virtual, eu não acreditaria. Simplesmente porque, naquela altura, as mudanças não se haviam operado em mim.

E assim que pousei as mãos no meu teclado, sobre um novinho documento de word, as palavras começaram a fluir. Primeiro a custo, sem saber bem como articular as frases e sem grandes esperanças daquilo ficar alguma coisa de jeito, e depois mais facilmente. Escrever sempre significara alívio, e naquele momento isso repetiu-se, indubitavelmente.

A ideia perseguia-me há alguns anos, a noção de que, há pessoas que sabem como os outros se sentem só porque estão perto, de que não é preciso falar, perguntar ou massacrar. Que percepcionam o que se passa, que sabem sempre o que dizer, e que nos desarmam com uma facilidade incrível. Que nos conhecem sem terem como…

A ideia de haver alguém que soubesse como os outros se sentem, sem ser preciso comunicar verbalmente, era para mim estimulante (uma espécie de metáfora para os meus tempos conturbados). A isso juntei um cenário que adoro, Londres, uma história de amor e duas lutas desesperadas – a luta interna da personagem principal e a luta contra aqueles que desejavam subjugá-la.

Um livro é, de alguma forma, uma visão sobre a vida. É a nossa visão da vida, é aquilo que amamos, odiamos ou simplesmente notamos no dia-a-dia. É aquilo que nos inspira, que nos arranca palavras e ideias, que nos transporta para um outro lugar. A nossa ideia é, e deverá sempre ser, aquilo que nos move.

Brainstorming de ideias pode ser muito útil, mas se sentirmos que uma ideia é A IDEIA, deverá ser essa à qual daremos permissão para nos levar para bem longe. Coisas excessivamente planeadas, debatidas, ponderadas e analisadas, podem não ser nada apesar de, aparentemente, terem tudo para vencer.

A IDEIA é o alvo. Pode ser uma ideia simples, complicada, concisa ou dispersa. Pode ser uma ideia baseada em algo, inspirada em alguém, em si mesmo ou em nada que se conheça pessoalmente. O que é importante, e que devemos reter é que é a minha ideia, é aquela com a qual eu me sinto confortável, é imaginada por mim e só eu a poderei concluir.

Nada de crucificar o que surje naturalmente. Nada de nos deixarmos influenciar à luz do que os outros pensam, poderão pensar ou virão a pensar. A IDEIA é óptima porque é minha, e cabe-me a mim levá-la até onde ela pode ir. Não há ideias más, apenas escassa concretização. Ainda me debato com a concretização, rever um livro é tão ou mais difícil do que escrevê-lo. Mas lá chegarei. Tudo tem o seu tempo.

Sara Farinha

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