Ler e escrever em Português, ou noutra língua?

Ler é um prazer, uma diversão e um escape. Ler as versões originais, acrescenta-lhe a especiaria que lhe dá mais sabor. A versão original de um livro, filme, peça de teatro, música, contém em si mesma algo que nunca poderá ser reproduzido numa tradução.

70% dos livros que leio são traduções de obras de autores ingleses/americanos. Destes 70% mais de metade são mesmo na versão original. Mas como dizia o meu pai, “tudo na vida tem 50% de coisas boas e 50% de coisas más”, o que significa que por um lado aprofundo os meus conhecimentos de Inglês, mas por outro danifico o meu Português.

Ler noutra língua que não a materna é bom porque nos expõe a realidades diferentes, para além dos benefícios inerentes de praticar uma segunda língua. Contudo, também nos leva a aculturar de uma forma que pode não ser benéfica para aquele que não deseja escrever noutra língua que não a de origem.

Mas para mim o principal problema é, mesmo que as obras tenham sido traduzidas para a nossa língua oficial, há sempre muito que se perde na tradução. E se, por um lado, quero conhecer a obra original, por outro acho imprescindível o apoio que deve ser dado às adaptações e traduções. Às vezes chego a comprar ambas, a original e a tradução, só para ter a certeza que não me escapou nada.

Por exemplo, os filmes de animação americanos, ao contratarmos actores portugueses para encarnarem as personagens animadas e darem voz às suas histórias, estamos em simultâneo a obrigar a que se faça uma tradução da obra. Estas traduções normalmente envolvem adaptações do texto para que este se enquadre na realidade do país de destino.

É engraçado ouvir piadas que envolvem coisas como o Galo de Barcelos ou o Zé Povinho, mas na realidade o original tem piadas direccionadas ao seu público original, que se perdem porque são substituídas por outras mais adequadas às mentes do público nacional.

Todas as piadas, alusões subtis e ditados populares têm um contexto dentro do país em que foram criados. Mudar a piada porque não se consegue reproduzir o contexto serve os seus propósitos mas faz-nos perder muitas coisas (associações e referências) pelo caminho.

Com os livros esta situação é ainda mais frequente. Os contextos perdem-se, as frases alteram-se chegando mesmo a perder todo o significado inicial e assim as histórias podem passar de brilhantes a menos boas num punhado de horas. Ser tradutor é um trabalho difícil que, tal como em muitas outras profissões, só deveria ser executado por aqueles que têm a vocação.

Se é louvável ser-se proficiente em mais do que uma língua, é obrigatório que se seja devoto à língua materna. Escrever em Português é contribuir para a identidade nacional, é difundir a língua e a cultura portuguesas e valorizar o que é nosso. A cultura nacional agradece e os leitores também.

Como leitora, a dificuldade reside em encontrar obras portuguesas do género literário que mais me agrada. E apesar de achar que vamos no bom caminho, lamento que para se publicar algo por vezes não seja preciso sequer saber escrever, basta ser-se uma vedeta tuga (e não só).

Como escritora fico deslumbrada com aqueles que escrevem noutra língua como se fosse a sua, mas acredito que se fazem muito boas obras de todos os géneros literários em Português.

Vou continuar a procurar 🙂

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