Fantasia e Um coração partido

558274_10151878836967477_371660350_nEnquanto salto de site em site, às vezes ocorrem-me assim umas coisas menos diplomáticas, mas que acredito serem piamente verdade. E às vezes tenho de as pôr em papel porque, enquanto não o fizer, elas não me largam.

O mote destas Palavras Soltas é:

Só apoiam a Literatura Fantástica porque dela retiram o lucro para sustentar o resto dos seus negócios. Não a amam, não a respeitam e sobretudo, não a incentivam e não a merecem.

A mentalidade “porque não escreves qualquer coisa a sério” (onde é que eu já ouvi isto?!) continua a imperar. E não concebem que, o que é um tema sério, são os esforços que os leitores estão dispostos a encetar para terem o que querem.

E o que muitos de nós queremos não passa por realidades brutais e ofensivas, por histórias que são cópia do nosso dia-a-dia. O que queremos é entender a realidade através de experiências que não são as nossas, e que na maioria dos casos, nunca poderiam ser.

Uma metáfora pode explicar uma ideia melhor do que a própria ideia em si. Todos os bons espectadores sabem isto. E boa fantasia pode ser uma metáfora para a vida.

Assim como alguém imaginou que um dia poderíamos voar, andar em transportes totalmente mecânicos ou viajar à velocidade da luz (faltará muito?), coisas impossíveis que se tornaram bem reais. Ficando provado que a fantasia tem os seus méritos, e encaixa na realidade duma forma especial.

Eu gosto de lógica, de racionalidade, de procurar as explicações científicas para os fenómenos. Ciência, racionalidade, verdade e lógica, fazem parte da estrutura da minha mente.

Então, se assim é, porque me dedico à literatura fantástica e não a histórias “normais”?

Porque uma metáfora pode explicar fenómenos de forma inteligível, torná-los parte de nós de uma forma que a racionalidade não é capaz de o fazer.

Um exemplo: No fim-de-semana passado assisti um filme chamado “Repo Men”. A história tem lugar num futuro próximo em que os transplantes de órgãos são um negócio puro e duro. A população tem ao seu dispor empresas que fornecem órgãos mecânicos que substituem os reais, em troca de uma considerável quantia de dinheiro.

Até aqui, nada de surreal. O busílis da questão centra-se nos preços avultados que essa empresa cobra pelos seus órgãos, e no seu funcionamento como uma empresa de crédito. Quando as pessoas não conseguem pagar o empréstimo, a empresa envia um colector de dívida para recolher o material que forneceu, tal como um banco que retoma uma casa quando as prestações deixam de ser pagas.

A pergunta óbvia é: “Mas como retiram o coração?”

Abrem o peito do devedor e retiram-no de lá. Simples, não?!

A história ganha dimensão quando um destes colectores de dívida, se vê nessa mesma situação. De repente deixa de ser só um trabalho (“A job is a job”) e ele passa a ter uma visão totalmente nova da realidade. Acompanhando o seu novo coração, veio uma consciência agarrada.

Podemos falar de ganância, contar histórias sobre alguém num cargo importante, ou sobre as suas práticas ilegais ou imorais, mas neste filme o trunfo está no choque provocado que, sem um pouco de fantasia, não seria possível obter.

Os colectores entram na casa do devedor, confrontam-no, perguntam se deseja uma ambulância a postos, e depois pegam no bisturi e começam a cortar. Sabemos à partida que a ambulância nunca é pedida pois não há órgãos de substituição em mais nenhuma entidade. E também que é moralmente errado, apesar do princípio ‘falta de pagamento = devolução’ ser amplamente aceite e conhecido na nossa realidade.

Onde estariam todas estas histórias se ninguém gostasse de fantasia? Onde estaria Poe e o seu coração revelador?

Se os escritores não acreditassem que, a Fantasia pode ser um veículo de passagem por extremos que ajudam a compreender o dia-a-dia, nunca a escreveriam. E aí teríamos as tais centenas de livros com histórias “de jeito”, tão reais que fugiríamos delas a toda a velocidade.

É Fantasia? É Fantástico? É Ilusão? Sim.

Mas são precisos conceitos e conhecimentos bem reais para que, as fundações sejam sólidas e a história, uma metáfora de sucesso.

E se não gostam porque o publicam? Eu agradeço, mas deve haver quem se sinta profundamente desiludido com tal obrigação. Assim como eu me sinto algo enganada quando sei que não há princípios que subsistam, nesta ganância pelo próximo tostão.

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Deixem aqui os vossos comentários ou enviem e-mail para: sara.g.farinha@gmail.com

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