Recursos do Escritor: 7 Técnicas Narrativas

papel e caneta

Estas são as ferramentas que usamos ao escrever uma história. Cada uma delas serve um objectivo no nível mais básico de construção de um enredo. É através delas que construímos a história, definimos o estilo e envolvemos o leitor.

  1. Acção: O poder do ‘agora’ – A Acção é algo que acontece sempre no presente. É aquilo que se está a desenrolar agora, que podemos ver, ouvir, cheirar, saborear ou sentir. Se não está a acontecer agora não é acção. O que aconteceu ou o que pode vir a acontecer não é acção. A acção acontece a cada instante. Isto tem uma relação íntima com os conceitos de Mostrar e Contar. Sumarizar o que aconteceu no passado, ou que virá a acontecer no futuro, não é Acção, não é Mostrar, é Contar.

Mas como as histórias não se fazem apenas de acção, o que seria algo demasiado demorado e esgotante para acompanhar, existem outras ferramentas cujo uso legítimo cria a teia que suporta a história na sua totalidade.

Um exemplo:

“Jacques Saunière, o conceituado conservador, atravessou a cambalear o arco abobadado da Grande Galeria. Estendeu as mãos para o quadro mais próximo, um Caravaggio. Arrancando a moldura de madeira dourada, puxou-a para si até arrancá-la da parede, e então caiu de costas, enrodilhado debaixo da grande tela.” Dan Brown ‘O Código Da Vinci’ p.13

2. Diálogo: A voz humana – O Diálogo é algo que podemos ouvir, que não precisa de resumos ou ‘diz que disse’. É um tipo especial de acção que ocorre agora, sem cortes ou edições, parte integrante do Mostrar, ao invés de Contar.

Um diálogo serve para impelir a acção a avançar, coloca os intervenientes frente-a-frente e obriga-os a resolver (ou confrontar) as suas diferenças. O Diálogo é a voz das personagens, a sua visão na primeira pessoa, o que ajuda a colocar o leitor na acção. Inserido no meio do conflito, que o Diálogo representa, através dele mostramos as diferentes posições que fazem a história avançar.

“– Sim, é exactamente o que os outros me disseram. Saunière encolheu-se. Os outros?                                                                                      – Encontrei-os também – informou o homem, num tom sarcástico. – Aos três. Confirmaram o que acaba de dizer. (…)                                                                                                                                                                                               – Depois de o matar, serei eu o único a conhecer a verdade.” Dan Brown ‘O Código Da Vinci’ p.14

3. Monólogo Interior: O que lhe vai no íntimo – O monólogo interior revela os pensamentos íntimos da personagem. Ele mostra as experiências emocionais que ocorrem, a nível consciente e inconsciente.

O monólogo interior conecta o leitor à mente da personagem e podemos usá-lo citando os pensamentos exactos, sumarizando-os ou fornecendo uma perspectiva geral dos mesmos. Representa a natureza fragmentária do pensamento, antes de se tornar organizado,O Código Da Vinci proporcionando um realismo psicológico. Uma intimidade que é essencial à história, já que ajuda o leitor a relacionar-se, e identificar-se, com a personagem.

“Agora sozinho, Jacques Saunière voltou o olhar para a grade de ferro. Estava encurralado, e as portas só voltariam a abrir-se dentro de no mínimo vinte minutos. Quando chegassem junto dele, estaria morto. Mesmo assim, o medo que o dominava agora era um medo muito maior que o da sua própria morte.                          Tenho de transmitir o segredo.”                                Dan Brown ‘O Código Da Vinci’ p.15

4. Emoção Interior: Ligados pelo que sentem – O leitor é guiado através dos sentimentos da personagem. Usar a Emoção Interior significa reforçar o poder de passar a mensagem, uma vez que colocamos o leitor nos sapatos da personagem.

Podemos Mostrar as respostas fisiológicas que a personagem está a sentir, técnica poderosa em que um pouco pode significar muito; Ou Contar aquilo que ela está a experienciar, o que simplifica a mensagem apesar de, em simultâneo, a enfraquecer.

A tremer, olhou em volta.                                                                                                       Tenho de encontrar uma maneira…                                  Com o rosto contraído pela dor, Saunière fez apelo a todas as suas faculdades e forças. A tarefa desesperada que tinha pela frente, bem o sabia, ia exigir cada segundo de vida que lhe restava.”              Dan Brown ‘O Código Da Vinci’ p.15

5. Descrição: Vejo o que vês – Descrever serve para colocar o leitor na pele da personagem. É criar uma ligação de sentidos entre ambos em que, o que ele vê, cheira, ouve, prova ou toca, provoca as mesmas sensações naquele que lê (ou, quando bem feito, provocaria).

Não confundir com o Sumário Narrativo, outra técnica em que as descrições são sumarizadas.

“Robert Langdon acordou lentamente.                                                                  Algures na escuridão, tocava a campainha de um telefone – um som fraco, inusitado. Procurou às apalpadelas o candeeiro da mesa-de-cabeceira e acendeu-o. Examinando de olhos piscos o ambiente que o rodeava, viu um luxuoso quarto estilo renascença, com mobiliário Luís XVI, frescos pintados à mão nas paredes e uma colossal cama de mogno de quatro colunas.                                                                         Onde diabo estou eu?                                                                                                                                               O roupão de banho pendurado numa das colunas da cama tinha bordadas no bolso do peito as palavras: HOTEL RITZ PARIS.”                                                                Dan Brown ‘O Código Da Vinci’ p.17

6. Anacronia (Analepse e Prolepse): Salto no tempo – Anacronia é a alteração da ordem em que os acontecimentos têm lugar na história. Dispensar a ordem cronológica (passado/presente/futuro) permite fornecer informação importante, no momento em que é necessária, sem alongar a narrativa e sem aborrecer o leitor.

Analepse é um salto ao passado. Prolepse é uma antecipação do futuro, seja por premonição ou projecção. Em ambas, há que ter cuidado com as transições. Quer no início quer no fim do salto, é preciso dar pistas ao leitor, ligá-lo à acção no presente (como um cheiro que nos recorda algo no passado, ou um som que nos traz de volta ao presente). Estes saltos podem conter Acção, Diálogo, Monólogo Interior, Emoção Interior e Descrição. É como se o Passado/Futuro fosse presente e estivesse a acontecer diante dos nossos olhos.

“Por muito que as colegas na universidade afirmassem que aquelas pinceladas de cinzento só contribuíam para lhe realçar o encanto livresco, Langdon não tinha ilusões.                                                                                                                                                                                      Se a Boston Magazine me visse agora.(…)                             Naquela noite, a cinco mil quilómetros de casa, o elogio ressurgira para ensombrar-lhe a conferência que tinha dado.                                                                                                                                                       – “Embora o Professor Langdon possa talvez não ser considerado do género “bonitão”, como alguns dos nossos nomeados mais jovens, a verdade é que não lhe falta, longe disso, o chamado encanto académico (…)”                                                          Dan Brown ‘O Código Da Vinci’ p.19

7. Sumário Narrativo: Natureza morta – Consiste em sumarizar acontecimentos que ocorreram noutro momento que não o presente. É uma descrição de vida estagnada, de algo que existe neste momento mas que não está a sofrer qualquer mudança.

O Sumário Narrativo, ao contrário da Descrição, não é vívido e imediato mas é eficiente. Sem a emoção do Diálogo ou da Acção, o Sumário Narrativo é útil, e pode ser transformador se usado com moderação. Serve para planear, lembrar, descrever ou sumarizar e deve ser usado com cuidado acrescido no caso dos escritores principiantes (tendemos a abusar disto!). É mais fácil Contar, descrever, planear, do que Mostrar, agir e colocar o leitor nos sapatos da personagem.

Apesar de entrar na categoria de Contar, o Sumário Narrativo é parte indispensável. Ele é aquilo que mantém as várias partes unidas e, em quantidades moderadas, indispensável na construção da história.

“Horas antes, quando Silas lhe dissera que a Chave da Abóboda do Priorado estava escondida em Saint-Sulpice, o Professor parecera pouco convencido. Mas quando Silas acrescentara que todos os irmãos lhe tinham dado a mesma localização exacta, relativamente à linha de latão que atravessava Saint-Suplice, tivera como que uma revelação.”                                                          Dan Brown ‘O Código Da Vinci’ p.132

Na quantidade certa, o uso combinado de todas estas técnicas permite executar uma história com mestria. Esta é a base de todos os parágrafos que escrevemos.

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