Opinião: ‘A sombra do que fomos’ de Luis Sepúlveda

A sombra do que fomosMais uma vez nos deparamos com um retrato da história Chilena e, mais uma vez, somos confrontados com os efeitos da passagem do tempo para aqueles que a esperança desiludiu e a luta fez definhar.

Com um sabor fortemente político e uma reflexão humana profunda ‘A sombra do que fomos’ leva-nos, com uma gargalhada ou duas e vários sorrisos, através da experiência de vida das personagens que sobreviveram (ou sucumbiram) a um período político conturbado. As suas histórias são feitas pelo amargo de boca dos que concluem que a vivência presente, se justificada pelo passado, não é feita de nada mais do que sonhos.

“os dois homens entreolharam-se fugazmente e descobriram nos olhos as mesmas sombras, as mesmas olheiras, o mesmo glaucoma histórico que lhes permitia ver realidades paralelas ou ler a existência contada em duas linhas narrativas condenadas a não coincidir: a da realidade e a dos desejos. Os náufragos do mesmo barco têm um sexto sentido que lhes permite reconhecerem-se, tal como os anões.” Luis Sepúlveda ‘A sombra do que fomos’

Sepúlveda guia-nos com humor e delicadeza por experiências terríveis, inimagináveis para muitos das gerações mais novas, como é prova uma das personagens mais jovens. Desenlaces injustos, cómicos ou simplesmente ridículos, em alguns dos casos, constroem a crítica patente em todo o livro.

“Enquanto falavam, levando os copos à boca, descobriram que os unia a mesma raiva contra os frangos e um mesmo presente similar ao de pássaros depenados.” Luis Sepúlveda ‘A sombra do que fomos’

 Fala-nos de outras guerras, de outra cultura, de outras pessoas e, por fim, da desoladora conclusão a que todos nós chegamos numa fase mais tardia da nossa vida. Mesmo na luta meritória, não há garantia de recompensa. O fim não se mostra complacente para com aqueles que era suposto sentirem ter atingido alguma coisa de valor. É um circo, feito de personagens disformes, de golpes de sorte, de actos frustrados e de esperança forjada na dor, mesmo se traída pelas circunstâncias.

“O vendedor tinha sido, e era, comunista – porque isso é como uma verruga moral que nunca se arranca – precisou.” Luis Sepúlveda ‘A sombra do que fomos’

 Uma história, muito ao estilo de Sepúlveda, que nos acostumou a fotografias coloridas e ilustradoras de pedaços de vida, e da alma, dos povos sul-americanos.

‘Eu luto para não me esquecer que sou um homem livre.’ Luis Sepúlveda ‘A sombra do que fomos’

 Aconselho, para quem gosta de reflectir sobre a vida e na influência das realidades sociais e políticas no nosso futuro. Aconselho, também, aos culturalmente curiosos.

… Para quem começou esta opinião sem saber bem o que escrever, até disse demais.

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