Recursos do Escritor: Escrever uma Sinopse

Livros na FeiraConsiste numa versão sintetizada da tua história. É uma espécie de resumo ou sumário do enredo mais importante que existe na obra e serve para expor, a traços largos, qual o tema do livro. Mas, acima de tudo, serve para atrair o leitor.

Por vezes, no lugar da Sinopse, usa-se um excerto da obra ou opiniões de leitores influentes. Como não é esse o tema deste artigo, pretendo focar apenas o processo individual de criação de uma Sinopse.

Escrever uma Sinopse é uma tarefa delicada que tendemos a evitar, e adiar, chegando mesmo a desvalorizar a sua importância no contexto literário. Para além do (pequeno) pormenor que, se escrevemos como ocupação, temos o dever de treinar todos estes formatos (ideia que defendo com alguma veemência), é na Sinopse que existe uma maior necessidade em criar um engodo potente, ou anzol, que cative o possível leitor.

Escolher um livro sem ler, entre outras coisas, a Sinopse é um erro crasso. Primeiro, porque ela é o primeiro impacto que sofremos com uma história. O seu objectivo consiste em despertar a curiosidade e incentivar o querer saber mais. Segundo, porque é uma excelente fotografia daquilo que não nos interessa ler.

Existem algumas nuances na construção de uma Sinopse, directamente relacionadas com o suporte onde serão divulgadas. No mercado anglófono uma versão mais curta da Sinopse é a primeira fotografia da obra, memorizada pelo autor, é usada em qualquer contacto com as editoras (assim como algumas versões mais compridas e com características um pouco diferentes).

Em Portugal uma Sinopse serve para vender livros. É a “imagem” nas costas do volume em papel, é o início de qualquer crítica/opinião literária que se preze (não nas minhas porque não gosto de repetir o que se encontra com facilidade pela internet fora), é o isco de qualquer livraria online ou plataforma literária virtual.

A Sinopse informa se somos o público-alvo daquela obra ou se podemos pousar o livro no expositor e pegar noutro. Uma Sinopse de qualidade permite que o leitor faça esta escolha de forma consciente e, acreditem, qualquer uma das opções é uma vitória para o autor. Afinal, não nos interessa “agarrar” leitores que não partilham o mesmo sentimento por determinado género ou tema.

Assim, é importante que tenhamos alguns cuidados ao criar uma Sinopse. Cuidados como o tamanho, o público-alvo e a escolha das palavras adequadas. O que pode parecer excessivo mas, é ou não é, aquilo que um escritor faz? Preocupar-se com colocar a palavra certa, no sítio exacto, tendo um objectivo em vista e um leitor a quem cativar. Porque não fazê-lo, também, na Sinopse e em todas as partes do processo de criação literária?

Em jeito de resumo, deixo-vos os pontos que devemos ter em atenção ao criar uma Sinopse e alguns exemplos:

  •  Quanto ao tamanho deve ser curta. Não tentar incluir todos os sub-enredos, ou personagens. Mantê-la objectiva e focada no enredo, personagem e mensagem principais, procurando despi-la de tudo o que não é essencial (e de alguns essenciais também).
  •  Usar de forma intencional a mensagem que queremos passar com a história, o enredo mais importante e interessante. Usar a emoção e provocar no leitor os sentimentos de curiosidade e excitação que potenciem o seu interesse na obra.
  •  Focar apenas as personagens principais (e aqui tem de existir alguma coerência com a quantidade de pontos de vista utilizados), os seus objectivos e a possibilidade de falhar ou concretizar aquilo que mais desejam.
  •  Fornecer um contexto físico, uma época ou localização específica, da nossa história. Os fãs de FC querem saber se vão estar em Marte e os de romance histórico na época Vitoriana. Claro que, noutros géneros, esta informação pode não ser relevante e não deve ser incluída.
  •  Cuidar que a Sinopse tem os adjectivos e os verbos certos. Eles são a acção e a caracterização e, uma palavra, num conjunto de cem pode ser a que fica gravada na memória (e no coração) de quem lê.
  •  Torná-la interessante e sedutora mostrando tudo o que pode ser conquistado e aquilo que está em risco de se perder e, sem revelar o final (nunca, jamais, em tempo algum), insinuar os possíveis desfechos da batalha principal.

Pessoalmente, tenho procurado treinar a execução destes pequenos vislumbres de histórias (podem ver aqui algumas, e com o decorrer do tempo, acho que se nota a evolução…). No início era um quebra-cabeças desesperante. Agora, é uma questão de focar a mensagem mais importante e as palavras com que me relaciono e que transmitem a ideia. Nenhuma delas foi fácil de fazer mas ajudou saber onde queria chegar com o conto em questão. E, quem melhor do que o autor, para passar a (própria) mensagem?

Cada Sinopse, como qualquer texto literário, está à mercê de quem o escreve (alguns fazem um trabalho duvidoso e, outros, péssimo mesmo). Uma vez que tudo o que escrevemos se reflecte, com variados níveis de intensidade, em todo o nosso trabalho, acho importante que não desprezemos uma coisa tão simples como dois ou três parágrafos que, quando ignorados, podem passar de doce a veneno.

A Sinopse representa a diferença entre captar o público certo, e encantá-lo, ou reunir o público errado, e ser vaiado. Evitemos as consequências mais dolorosas…

Alguns exemplos:

 “Nascido das cinzas radioactivas da terceira guerra mundial, o Instituto de Psicodinâmica Aplicada conduzira o planeta Terra a um período de abundância que, pela primeira vez, cumpria a promessa da ciência. Mas a ironia fundamental da existência humana é que a prosperidade produz as sementes da sua própria destruição; desta vez, não só a Terra mas todo o sistema solar viria a sofrer as chamas da guerra.” “Falsa Vitória”, Poul Anderson – Ficção Científica

“O jovem Fitz é filho bastardo do nobre Príncipe Cavalaria e cresce na corte do Rei Sagaz. Marginalizado por todos, o rapaz refugia-se nos estábulos reais, mas cedo o seu sangue revela o Talento mágico e, por ordens do rei, é secretamente iniciado nas temidas artes do assassino. Quando  salteadores bárbaros atacam as costas, Fitz enfrenta a sua primeira e perigosa missão que o lançará num ninho de intrigas. E embora alguns o encarem como uma ameaça ao trono, talvez ele seja a chave para a sobrevivência do reino. Com uma narrativa povoada de encantamentos, heroísmo e desonra, paixão e aventura, o Aprendiz de Assassino inicia uma das séries mais bem-amadas da fantasia épica.” “Aprendiz de Assassino”, Robin Hobb – Fantasia Épica

“Mario Jiménez, jovem pescador, decide abandonar o seu ofício para se converter em carteiro da Ilha Negra, onde a única pessoa que recebe e envia correspondência é o poeta Pablo Neruda. Mario admira Neruda e espera pacientemente que algum dia o poeta lhe dedique um livro ou aconteça mais do que uma brevíssima troca de palavras ou o gesto ritual da gorjeta. O seu desejo ver-se-á finalmente realizado e entre os dois vai estabelecer-se uma relação muito peculiar. No entanto, a conturbada atmosfera que se vive no Chile daquela época precipitará um dramático desenlace…” “O Carteiro de Pablo Neruda”, Antonio Skármeta – Romance

“Quando Eddard Stark, lorde do castelo de Winterfell, recebe a visita do velho amigo, o rei Robert Baratheon, está longe de adivinhar que a sua vida, e a da sua família, está prestes a entrar numa espiral de tragédia, conspiração e morte. Durante a estadia, o rei convida Eddard a mudar-se para a corte e a assumir a prestigiada posição de Mão do Rei. Este aceita, mas apenas porque desconfia que o anterior detentor desse título foi envenenado pela própria rainha: uma cruel manipuladora do clã Lannister. Assim, perto do rei, Eddard tem esperança de o proteger da rainha. Mas ter os Lannister como inimigos é fatal: a ambição dessa família não tem limites e o rei corre um perigo muito maior do que Eddard temia! Sozinho na corte, Eddard também se apercebe que a sua vida nada vale. E até a sua família, longe no norte, pode estar em perigo. Uma galeria de personagens brilhantes dá vida a esta saga: o anão Tyrion, ovelha negra do clã Lannister; Jon Snow, bastardo de Eddard Stark que decide juntar-se à Patrulha da Noite, e a princesa Daenerys Targaryen, da dinastia que reinou antes de Robert, que pretende ressuscitar os dragões do passado para recuperar o trono, custe o que custar.” “A Guerra dos Tronos” George R.R. Martin – Fantasia

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6 pensamentos em “Recursos do Escritor: Escrever uma Sinopse”

  1. Sempre achei a escrita de sinopses um desafio tremendo e, confesso, não sei fazê-lo com mestria. Ao contrário de ti, acho mesmo que o autor é a pior pessoa para escrever a sinopse, pois não tem o distanciamento necessário para se focar no resumo, no ‘anzol’.
    No entanto também acho que é um exercício educativo e que se deve praticar.
    Parabéns por mais um excelente artigo.

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