Recursos do Escritor: Palavras à Solta ou Confinadas?

imagination_Ray BradburyManter um Diário: 59.ª tentativa… A grande odiosa tarefa de escrever um diário. Acho que, de certa forma, o blogue acaba por servir para isto também. Um blogue é um Diário. E que coisa tão egoísta de se dizer… É. Os blogues servem para nos expressarmos como indivíduos e ao fazê-lo podemos criar algo com que os outros se identifiquem e que lhes seja útil.

Há uns anos, após me deparar com a necessidade de separar Escritos de Leituras e de Publicações Literárias, criei um espaço especial para este tipo de textos. Tenho toda uma tag que uso para textos mais opiniativos, de escrita menos formal, e mais pessoal.

‘Palavras Soltas’ foi criada para encaixar aquelas coisas que, não sendo muito encaixáveis nos temas do blogue, serviam para partilhar algumas opiniões  e situações do foro mais pessoal. O sítio onde os temas que me ocupam a mente no momento presente são expostos. Os temas sobre os quais tenho sentimentos muito fortes. As situações que não posso deixar de registar.

Esses momentos partilhados online, deveriam ser os que iriam parar às páginas de um diário. Escritos de forma totalmente frontal, sem qualquer temor de afectar as vidasIMG_2799humanas que me cercam. Já não sei quantas vezes tentei dar início a um ritual deste tipo. Perdi a conta ao número de vezes que encetei um “diário” (adoro escrever na primeira página de qualquer bloco ou caderno), apenas para o arrumar no dia seguinte. A ideia de partilhar o que me ocorre no momento assusta-me. Suspeito que, em breve, se transformaria num bloco de queixas. E que ideia tão simpática… ou não.

E sempre tive a noção que aquilo que se escreve em franqueza absoluta pode voltar para nos morder no rabiosque.

Um diário não serve como prática de escrita ficcional. Pode ser visto como uma profunda perda de tempo,  na consideração de escrever ficção no pouco tempo útil que nos resta (depois de aturarmos as m***** de toda a gente, após o que é, geralmente, um dia muito longo). Este é um argumento.

Outro é: tudo depende do objectivo e da forma como vivemos/utilizamos algo. Tudo depende daquilo que procuramos treinar ao repetirmos o acto de apontar o que nosjournalacontece diariamente.

É uma ponte entre o Eu do passado e o Eu do presente, não nos deixando esquecer as nossas maiores pérolas, permitindo-nos crescer como autores e ter alguma medida daquilo pelo que passámos e do que devemos retirar dessas experiências. É uma medida da nossa própria ignorância, algures num ponto no tempo, e de como a superámos. Uma medida da nossa inocência, também, e de como a perdemos.

A diary is useful during conscious, intentional, and painful spiritual evolutions. Then you want to know where you stand… An intimate diary is interesting especially when it records the awakening of ideas; or the awakening of the senses at puberty; or else when you feel yourself to be dying. André Gide

 

Tendo a concordar com ele… e por isso andar sempre a namorar a ideia de manter um diário.

Of course, a writer’s journal must not be judged by the standards of a diary. The notebooks of a writer have a very special function: in them he builds up, piece by piece, the identity of a writer to himself. Typically, writers’ notebooks are crammed with statements about the will: the will to write, the will to love, the will to renounce love, the will to go on living. The journal is where a writer is heroic to himself. In it he exists solely as a perceiving, suffering, struggling being. Susan Sontag

Plano 2013Constrói a identidade do escritor para si próprio… Aqui está uma ideia interessante. São estas perspectivas que me impelem a perseguir esta ideia. No meu caso, há todo um conjunto de notas, cadernos, ficheiros word e notas de Evernote, pequenos fragmentos de coisas e cenas que vou apontando aqui e ali na esperança de um dia, serem o início do fio que desenrolará a meada e que me fará produzir outras coisas maiores e melhores.

Um diário de autor serve para provar (a nós mesmos?!) que pensamos. Que reflectimos… e muito. Demasiado, por vezes. E que aquilo em que pensamos altera-se no tempo. Que mudamos, e evoluímos, como pessoas. E que essa predisposição para reflectir, conjugar e modificar comportamentos faz parte das nossas características como escritores.

Na verdade iremos ser sempre pressionados para ser o que não somos, para corresponder a expectativas irrealistas ou, pior, para confirmarmos as piores ideias que os outros têm de nós, mas não é razoável pensar que podemos agradar a todos. É um esforço impossível, brutal, vazio e deprimente. É destrutor da auto-estima e um desperdício de energias. Sara Farinha em ‘Paranóias de Infância’

palavras soltasAinda não é desta que inicio um diário formal mas vou continuar a manter os inúmeros apontamentos espalhados por aí. Blocos e bloquinhos, cadernos e agendas, pedaços de papel rasgados e ficheiros de texto, todos servem. Tudo se mantém. Até este meu espaço de ‘Palavras Soltas’ à solta no tempo e no espaço virtual… façam-me uma visita naquilo que tenho de aproximado com um diário e talvez percebam porque é importante, para um escritor, manter algo parecido com um diário.

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Palavras Soltas: Nunca sabemos que palavras nos (vos) tocam – “Passamos mais tempo ainda a sobreviver àquilo que nos é infligido por aqueles cuja opinião conta (e muito) na esperança de, um dia, não nos deixarmos afectar dessa forma.

Homenagem ao Autor Português – “Vamos incentivar a justa retribuição do trabalho artístico, pois os nossos artistas são a Alma deste mundo (enquanto os outros poderão ser as suas mãos, os seus pés e o seu cérebro).

Paranóias de infância – “É! Recordo-me de algumas destas… e todas elas tendem a fazer os outros gostarem um pouco menos de nós.”

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