Recursos do Escritor: As características duma primeira frase inesquecível

Alguma vez compraram um livro apenas porque leram a primeira frase? E essaSnoopyDarkStormy primeira frase despertou em ti algo que te cativou e que não permitiu que voltasses a pousar o dito na prateleira?

Eu já. E, é curioso porque, lembro-me da primeira frase… não me recordo do livro. Vou ali à estante, à pesca. Já volto…

Era esta:

“Sei exactamente quando morri.” Neil Jordan em “Sombra”

Marcou-me tanto que trouxe-o comigo sem hesitar. Marcou-me tanto que, um ano depois, sei-a de cor (e, comigo, saber algo de cor é sempre uma aventura).

Entretanto, enquanto fui até à estante, outro houve que me saltou para o colo e me recordou que, também ele, veio comigo para casa após ler a primeira frase:

“Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos.” Carlos Ruiz Zafón em “A sombra do vento”

E assim começou mais uma história inesquecível.

Esta é a importância da primeira frase. Ela é aberta o suficiente para nos permitir divagações. Ela é fechada o suficiente para se referir a algo específico, que será revelado mais à frente. Ela é o anzol por excelência das páginas do livro que começamos a desfolhar. Ela é única e tem o poder de nos fazer comprar a obra.

Muitos autores guardam a escrita da primeira frase para o fim. Só após escreverem o livro todo é que se dedicam à composição da primeira frase, procurando imbuí-la da mestria daquele que já conhece toda a história e que se encontra na melhor posição possível para discorrer (ou, no caso aludir) sobre ela.

A primeira frase ajuda a definir o tom da história. Se bem escrita, marca o estilo que a história tem e inaugura-o. Se construída à posteriori, define o estilo em que a história prosseguirá.

Frases curtas terão mais dificuldade em serem associadas a estilos mas sempre nos dão um contexto, um vislumbre do que esperar, uma expectativa associada.

Frases longas devem ser bem pensadas. Não se memorizam frases longas. É mais fácil iniciar com algo curto, pujante, memorável como por exemplo:

“Chamem-me Ishmahel.” Herman Melville em “Moby Dick”

A primeira frase é sempre alvo de uma escolha. E, por vezes, é muito difícil escolher. A sua construção para que seja um bom anzol tem muito que se lhe diga.

Habitualmente, passamos muito tempo a brincar com as frases, a trocar as palavras, a averiguar sentidos e significâncias, a testar aplicabilidades. Criamos várias. Escolhemos as ideias que queremos introduzir logo no início. Trocamos as palavras que as compõem. Escrevemos várias versões da mesma ou, frases totalmente diferentes entre si. Escolhemos o tema que desejamos que o leitor pondere logo de início, como:

“Todas as famílias felizes se parecem; as infelizes não.” Leo Tolstoi em “Ana Karenina”

A primeira frase é a nossa primeira impressão. Quando a primeira impressão é boa, cativa-nos. Quando é assim-assim, deixa-nos relutantes. E todos nós queremos deixar uma excelente primeira impressão da nossa obra.

Uma curiosidade: as primeiras palavras de um texto ou a primeira frase são chamadas de Incipit.

E tal como a primeira frase pode ser a melhor coisa jamais vista num texto, ou um bom incipit de uma obra, também as há que são o epíteto de tudo aquilo que não queremos no início, meio ou fim, de um texto nosso. O exemplo mais divulgado de um início que se tornou um estilo a evitar é:

“Era uma noite escura e tempestuosa…” Edward George Bulwer-Lytton em “Paul Clifford”

Evitar na primeira frase (e em todas as outras) as chamadas frases feitas ou clichês. Queremos um excelente início. Não queremos um lugar-comum. Não queremos aquelas frases que ouvimos um milhão de vezes por aí. Que citamos sem pensar duas vezes. Que declamamos até já não sabermos a quem pertencem e o que significam realmente.

A primeira frase é a chave da obra. Trabalhar na sua construção é dedicar-lhe o tempo necessário até que ela seja o melhor início possível. Até que ela seja a melhor primeira impressão possível. Até que seja o tom ideal para a nossa história, o mote perfeito para a obra em questão.

Esta é a importância da primeira frase e a nossa missão como escritores é usar a nossa arte para que ela não desiluda.

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