Palavras Soltas: Algumas pessoas têm bondade no coração

Leon Logothetis

O primeiro pensamento que me ocorreu quando me deparei com o programa televisivo ‘The Kindness Diaries’ foi: ‘Como é que ele consegue andar por aí a pedir que o sustentem em troca de nada?… E com uma equipa de filmagem atrás.’

Ao fim de uns minutos percebi. Leon Logothetis não é um inexperiente na arte de pedir. Apresentando-se sempre através de causas beneméritas e, convenhamos, originais, dedica-se a percorrer o mundo procurando fazer bem àqueles com quem se cruza.

Sem ter nada a oferecer e pedindo, muitas vezes, tudo aquilo que a pessoa/família tem de mais precioso e escasso, seja comida, albergue, gasolina… Leon vai viajando com a sua mota dependendo totalmente da bondade de estranhos.

E, se podemos pensar que é um programa para a televisão, logo está minado por aquelas coisas que todos sabemos existirem nas produções televisivas, a verdade é: isso não interessa nada.

Hoje apanhei a transmissão do último episódio. Em jeito de despedida, Leon declara:

“Algumas pessoas têm bondade no coração. Outras não.” Leon Logothetis em ‘The Kindness Diaries’

Seja porque motivos forem, esta é uma verdade que transparece nas situações mais banais do dia-a-dia.

Conheço quem, em grandes dificuldades nunca negasse a esmola a um pobre. Quando perguntei porque dava sempre, mesmo que fossem as últimas moedas da sua carteira, a resposta foi porque também já se encontrara na posição de não ter uns trocos para comer naquele dia e, por sorte, encontrar dinheiro no chão. Por isso, dava sempre que tinha. Assim como uma espécie de retribuição ao Universo. Isto aconteceu há alguns anos, com alguém que me é muito próximo, e marcou-me profundamente. A bondade para com quem não tem nada, quando também não se tem grande coisa para dar.

No encerramento do programa de Leon ele tocou o ponto fundamental. Umas pessoas são bondosas porque sim. Sem motivos para o serem. Sem racionalizações. Sem outros interesses. São-no e pronto.

E, a vida é mesmo o que fazemos dela. Aquilo que escolhemos a cada dia, a cada momento do dia, é o que nos define. Não há muitas pessoas que escolham a bondade. Não há muitos que a tenham como padrão.

A maioria de nós prefere esconder-se dos incómodos. Reagir como se, ao dar, ficasse privado de algo que precisa para viver. Como se a bondade fosse oxigénio que lhe é roubado na duração da vida.

Hoje em dia, a maioria de nós prefere ser coagida a dar para a caridade do que ajudar a pessoa que está mesmo ao seu lado. Sim, porque aceitar e pôr qualquer coisa em sacos plásticos à entrada do hipermercado não conta para a nossa quota de bondade anual.

Bondade não é apenas ajudar os carenciados, os pobres, aqueles que a sociedade exclui. Bondade é ajudar aquele que está mesmo ali ao lado naquilo que, por vezes, nem ele próprio sabe que precisa de ajuda.

Bondade é algo que, ou temos no coração, ou não temos. Sem contrapartidas. Sem falsos sentimentos de contribuição. Sem obrigações. E, é quando somos apanhados desprevenidos que ela se mostra.

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