Escrever pseudo-cenas, assumir cagadas e o poder dos egos alheios

Escrever pseudo-cenas, assumir cagadas e o poder dos egos alheios

Vale a pena continuar a Escrever? Não. Sim. Talvez.

E, assim, se faz um livro com esse mesmo título “Vale a pena?” Erudito, não é?

Opinião, opinião sobre este livro podem ler aqui… Este artigo é mais um acrescento à discussão. São meia dúzia de ideias que me assolam quando penso sobre estes temas literário-livrescos.

Num mercado que sempre se teve, e se prezava, como fechado, porque continuamos nós, os novos autores, a mandar bitaites?

Porque somos, novas gerações de gente que escreve (nota: não escritores), considerados como uma ameaça ao patriarcado do livro instituído?

Sendo que, vocês próprios, nunca souberam sequer defender a vossa (nossa?) posição neste mercado que é feito de “lixo” (usando as vossas próprias expressões).

Somos ignorantes? Alguns de nós, são-no de certeza. Incultos? Fúteis? Oportunista? Seremos. E, não o somos.

Vou acreditar que nem todos o são. Assim como vós não serão o extremo oposto ou o epíteto Literário por definição.

Sou parte dessa massa de gente que escreve, e publica, o que pode quando pode. Click To Tweet Faço parte dos rejeitados pela geringonça editorial. Confesso que nunca tentei, verdadeiramente, integrar-me nela. O silêncio é resposta suficiente para quem tem uma auto-estima de artista.

Mas, também faço parte daqueles que, sem berços de ouro ou incentivos de outrém, me dediquei a estudar a arte. Dentro das minhas modestas possibilidades, e sem empávia ou pseudo-intelectualismo, tenho procurado aprender e usar o que aprendo.

Leio muito lixo. Também leio muita literatura, usando a mesma categorização. Agora, leio menos e escrevo menos. Mulher trabalhadora, e mãe recente, não consigo acumular tantas funções. As minhas vinte e quatro horas não chegam para tudo.

Mas continuo aqui. A ler o que posso quando posso. A escrever o que consigo quando consigo. A colocar perguntas e ansiar respostas.

A Literatura serve para colocar questões. Usamo-la para pensar. Click To Tweet Temas nobres, e execuções duvidosas, todos temos. Ou, todos queremos ter. E, somos incapazes de evitar ambos.

Existem por aqui diversos pontos válidos. Reconheço muitos padrões instituídos. Sim, há cada vez mais “lixo” no mundo editorial. Sim, publica-se muita porcaria em prol de se fazer dinheiro ou na esperança de se descobrir os próximos “Lusíadas”.

Sim, existem muitas palavras desperdiçadas, anos de estudo e prática evitados por quem quer ser escritor, mas não deseja ter muito trabalho em sê-lo. Há muitos corredores dos 100 metros cagando na maratona (usando uma metáfora aqui deste livro). E, muitos destes, desejavam que fosse apenas a corrida dos dois passos porque, mais do que isso e, já dá muito trabalho.

Confunde-se prosa poética com poesia, poesia com prosa, arte com liberdade criativa. Esta, desgraçada, que tudo lhes permite, desde que sirva para não aprender nada antes de desatarem a rabiscar num qualquer ecrã.

Usam-se influências, profissões paralelas, descaramento natural, para singrar num mundo de palavras que é,cada vez mais, feito de artifícios visuais ao invés de trabalho de fundo.

Mistura-se jornalismo com escrita ficcional. E, isto, por si só, dava um grande livro.

Alega-se que não é preciso saber escrever bom Português. A gramática não lhes diz nada. O uso do corrector ortográfico, e de revisores de texto que nunca o foram, é que é.

Usam e não aprendem. Adoptam um acordo ortográfico, sem nexo, crentes que já não precisam saber onde enfiar os “c’s” e os “p’s”. Odeiam vírgulas. Não percebem para que servem. Lêem o que escrevem e não vêem que, quem lê, não consegue perceber o que querem dizer, se é que querem dizer alguma coisa.

Os grandes temas são amor e morte. Mas tudo sem vírgulas, porque se o “Outro” (grande senhor da literatura) o fez, eles também podem fazê-lo. Mas, garanto-vos que ele sabia onde colocar as vírgulas. E, quando não as usava, aquilo que sabia sobre a arte, permitia-lhe fazer o difícil: ser entendido pelo leitor.

Das conversas com os onze escritores tanto mais se terá dito que não chegou às páginas deste livro. Opiniões interessantes, e importantes, num contexto de conversa total e global, não estes excertos misturados que, por vezes, me confundem sobre quem disse o quê. Que opinião estamos a ler nesta linha, colada a outra, sem parágrafo ou identificação perceptível. Era um autor, outro, ou a voz da própria entrevistadora?

E, tanto se disse sobre o mercado, os escritores novos e antigos, os pseudo-escritores, os jornalistas, os direitos de autor, os pagamentos mas, nada se disse sobre a mesma rede que suportando conhecidos nunca souberam lutar por uma verdadeira identidade de classe, por uma profissionalização, pelo mínimo que se pode pedir a quem fornece o seu trabalho em troca de nada e coisa nenhuma.

Todas as horas do dia não chegavam para se fazer aquilo que se gosta. Com tudo o que pudesse advir dessa decisão: trabalhos paralelos, investigação extensa e aprofundada, construção de ritmos de produção concordantes com a vida e tipo de escritor que queriamos ser.

Mas, não temos escolha. Temos luta. Solidão. Exposição inadequada. Temos contas para pagar e um descrédito generalizado sobre a nossa vocação. Click To Tweet Temos desdém por parte daqueles que não nos reconhecem qualquer valor literário. Temos arrogância dos outros que só vêem dinheiro. Temos cunhas a funcionar e egos gigantescos a alimentar.

Vale a pena? Não sei. Sei que acabo sempre por voltar aqui, a este ponto, numa qualquer página.

Se não vale a pena, porque continuamos a incentivar esta espécie de escravatura moderna?

Porque fazemos o que gostamos mesmo que isso signifique não existir, como escritor, para mais ninguém.

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