Como a Mudança influencia o acto de criar

Mudança e o acto de criar

Seria de esperar que, pela quantidade (e qualidade) de vezes que fui forçada a mudar alguma coisa na minha vida, já estaria habituada. [gargalhada gigante aqui]

Pouco há de mais assustador do que a mudança. O desconhecido. O incontrolável. O Monstro Negro que paira sobre nós e sobre tudo o que pensamos e fazemos.

Tudo o que começamos de novo, provoca a ansiedade de não saber sequer por onde começar. E, durante uns tempos, a rendição a lidar com “seja o que for que lá venha”.

Depois, volto a pensar em quem sou, e no que quero fazer com o tempo que tenho aqui. No que quero deixar à minha filha e, na forma como quero encarar o que fiz do tempo que me foi alugado.

Muitos há que se especializam em mudança. Vibram em busca da próxima conquista, do próximo trabalho, da nova seja-o-que-for-tudo-o-que-vier… Esse é o sal da vida para aqueles cuja adrenalina de mudar lhes corre nas veias.
Outros há que não mexem um milímetro com medo da cascata de coisas novas que podem advir daí. Recusam-se a mexer um dedo até serem empurrados, na maioria das vezes, com um pontapé bem dado em sítio impróprio. Essa recusa leva-os a sítios que escolhem, sem terem realmente escolhido nada… não fossem enganar-se no caminho.
E, como em tudo, é importante encontrar o (des)Equilíbrio.

Qual a nossa medida exacta entre mudança e marasmo?

Especialmente, se somos daqueles que têm Sonhos, outros sonhos, para além daqueles das 9 às 6 num cubículo qualquer. Aquela velha história de separarmos, ou não, a vida normal da prossecução dos nossos sonhos.
Eu não sou, particularmente, adepta de mudança. Sou demasiado ansiosa para considerar mudar só porque sim. Menos, ainda, se for mudança fortuita. Mudança sem motivos, ou porque se quer uma nova emoção… O que, habitualmente, vem com um preço alto.
Isto não quer dizer que não aceite que é preciso mudar, e que não o faça, por minha própria conta e risco. Foi assim que saí do antepenúltimo e do penúltimo trabalho oficial. É preciso colocar as coisas em perspectiva e agir de acordo com o que acreditamos ser o melhor para nós. Tudo o resto acaba por se arranjar sozinho… de uma forma ou de outra.

Qual é o problema da Mudança?

Eu sei que mudar envolve experienciar uma catadupa de emoções. Emoções que não são um princípio lá muito estável para o meu processo criativo. Todas as mudanças envolvem um atraso visível nas minhas rotinas criativas. Aquele espaço temporal em que não consigo libertar a mente para fazer mais nada que não esteja relacionado com essa mudança.
Fico, especialmente, triste quando constato que até já tinha conseguido uma rotina criativa (podem ler mais sobre isto aqui…) que estava a começar a fluir e frutificar…
Mas, sei que não posso ter medo de mudanças. Não posso recusar mudar quando é preciso. (A vida já me esfregou essa lição nas fuças mais do que uma vez.) Não posso recusar o desconforto que a mudança traz quando acredito, de verdade, que ela é condição sine quo non para a minha vida.
Como Escritora, a inspiração que se recolhe da mudança, traz um preço alto a pagar. Enquanto procuro estabilizar-me, emocionalmente e nas minhas rotinas, perco muito tempo a pensar noutras coisas ao invés de canalizar a minha energia para o que é realmente importante: a minha escrita.
Mas, esses acréscimos de energias diferentes dão-me o impulso que preciso para ser criativa. Aproveito vivências e pormenores que me teriam escapado se não fosse por aquele caminho, se não atravessasse aquela estrada… Por vezes, enquanto trilho coisas novas, consigo expandir mais umas áreas de criatividade do que outras. Mais de umas artes e menos de outras.
Outras vezes, são só energias disruptivas que se acumulam e prejudicam todo o meu processo de criação. São um cansaço nos ossos e na alma, que me impede de fincar os pés em terreno sólido, e recomeçar a construir aquilo a que sempre me dediquei.

É a incerteza que nos faz temer a Mudança.

Será para melhor? Para pior? Retiramos alguma coisa dela? De útil? De positivo? De odioso? De aprendizagem? Queremos aprender essas lições? Estamos dispostos a pagar o seu preço?
Especialmente, para aqueles que, como eu, são incapazes de fixar um plano e mantê-lo ao ínfimo pormenor, só porque foi o que achámos que queríamos em determinada altura. Somos demasiado criativos, e voláteis, para tanta intransigência.

Temos medo de Mudar porque temos medo da Dor. A dor que sempre vem com o desconforto e a incerteza. Precisamos acreditar que a ordem e a paz podem ser mantidas se recusarmos mudar.

Esta tem sido uma lição repetida. Quando não mudamos, a dor de ficar na mesma aumenta, cresce até se tornar insuportável. Até nos deixar loucos ou, por fim, insensíveis à mudança. Quando nos rendemos ao que “tem de ser” ao invés de escolhermos o que queremos que seja. Mesmo que o que queremos seja um grande erro. Se não errarmos, estaremos a errar. E, iremos errar de novo, e de novo, e outra vez. Se calhar devíamos chamar-lhe Viver e não Errar.
Este é um preço que prejudica as nossas sensibilidades criativas. Porque se estamos absortos à vida, estamos insensíveis ao acto de criação. Se vivemos em constante fuga à mudança, não compreendemos a Arte e a Vida.
Uma pessoa que tem provado isto, vezes sem conta, é Elizabeth Gilbert. Seja por aquilo que escreve (“Comer, Orar e Amar“, “Big Magic“), por aquilo que diz (“Your elusive creative genius“, “Magic Lessons Podcast“), ou por quem é e nas escolhas pessoais que faz.
Mesmo em constante mudança tento encontrar espaços para a criação. Tento relembrar-me que o estrangulamento da minha criatividade potencia o desastre. Arranjo Mantras para os meus momentos menos fortes. Penso e repito:

“O que quero dizer a mim própria daqui a um ano? Que me encaixei muito bem socialmente” (ou não, como costuma ser o meu hábito) ao invés de “aproveitei todos os meus minutos em busca da paz e satisfação de fazer o melhor que sei?” ou “Prefiro não deixar nada em legado à minha filha, porque não fui capaz de lhe dizer que não por uma hora que fosse por dia?” ou “Prefiro sentir-me escrava todos os dias da minha vida, ao invés de sair de mim e tentar criar qualquer coisa?”

Não.

 

Cabe-me a mim encaixar a mudança e tirar o melhor partido dela. Permitir-me crescer. Permitir-me continuar a procurar. Dar o que faço aos outros tal como está, tal como sou. Nada me faz meditar melhor do que sentar-me a criar algo (Pessoas como nós…Escrevem). Descobri isso com a pintura. E, depois, vi que acontecia o mesmo com o artesanato.
Não me sinto em sacrifício quando estou a criar algo. Sinto-me em paz. Comigo e com o mundo. E, é só essa mudança que temos de gerir: permitir que o barulho do mundo se acalme, e trazer para a frente dos nossos pensamentos o que, e quem, é realmente importante.

Porque este ano disse que ia dizer SIM.

Sim a mim. Sim ao que é meu. Sim à mudança.

 

Sim ao Amor-Próprio… que devia estar ali na minha Mandala de 2019, mas que por algum motivo desconhecido, não está. Self-Love. Sim a mim. Porque depois de ter uma criancinha, e todas as dificuldades que advieram disso, preciso de ser mais sobre mim, e menos sobre tudo o resto… Para que possa ser mais para todos.

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Um comentário em “Como a Mudança influencia o acto de criar”

  1. Como resumiu Paulo Coelho:

    “Existem duas coisas que impedem uma pessoa de realizar os seus sonhos: achar que eles são impossíveis, ou, através de uma súbita virada na roda do destino, vê-los transformarem-se em algo possível quando menos se espera.
    Pois neste momento surge o medo de um caminho que não se sabe onde vai dar, de uma vida com desafios desconhecidos, da possibilidade que as coisas com que estamos acostumados desapareçam para sempre.
    As pessoas querem mudar tudo, e ao mesmo tempo desejam que tudo continue igual.
    Muitas vezes acostumamos com a derrota, e qualquer chance de vitória torna-se um fardo pesado demais para carregar ou somos covardes demais para mudar o destino.”

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