Opinião: ‘The Artist’s Way’ de Julia Cameron

The Artist's Way

Sabem aquele sentimento, quando acabam de ler um livro que vos transformou o modo de ver a vida, e não sabem muito bem como continuar depois disso?

Não senti nada disso ao terminar este livro. Não o senti porque este livro, e o que ele me mostrou, não é um fim em si mesmo.

Este livro será sempre um início de muitas coisas maravilhosas… desde que eu permita que assim seja.

Julia Cameron é uma artista, poeta, escritora, jornalista e formadora criativa, que escreveu ‘The Artist’s Way’ para compilar aquilo que ensinava, há vários anos, a pessoas que sentiam estar bloqueadas nas suas carreiras/vida/artes.

Este é um curso, com duração de 12 semanas, que propõe que façamos algumas mudanças bem práticas nas nossas rotinas enquanto nos convida a analisar os verdadeiros motivos dos nossos bloqueios criativos.

Ao longo das semanas, o objectivo é compreender o que nos faz estar bloqueados e resolver esses bloqueios à medida que os vamos trazendo para o centro da nossa atenção.

Se leram até aqui, e desconhecem o livro ou a autora, estarão a pensar “Ui! Isto soa a muito trabalho desconfortável”. Desconfortável não contém tudo o que ‘The Artist’s Way’ abarca.

Por um lado, ele compila uma quantidade impressionante de verdades sobre nós como pessoas artísticas. Somos coisas que já sabemos que somos e, agora, ficamos a vislumbrar porquê e o que fazer acerca delas.

Por outro lado, é um guia para recuperar as artes que perdemos neste mundo, por vezes, tão injusto. Um guia para encontrarmos a pessoa que perdemos antes de tudo isto (a Vida) acontecer.

Escolher trazer à luz as revelações, que ele nos pede que recordemos, é um acto de coragem pessoal e criativa.

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Algumas páginas de notas pessoais

 

Tenho como referências muito marcantes os seguintes livros: ‘Bird by Bird’, ‘A Fé de um Escritor’, ‘How to read Literature like a Professor’, ‘A room of one’s own’, ‘Big Magic’ e ‘Writing Fiction for Dummies’. Não são os únicos que contribuíram para a minha visão da Escrita e das Artes em geral mas, cada um deles, é para mim um contributo especial. ‘The Artist’s Way’ é a fundação sobre a qual assenta qualquer visão sobre a vida criativa. É esta a diferença fundamental.

As suas ferramentas principais são as páginas matinais (morning pages) e os encontros do artista (artist dates).

Páginas Matinais

As Páginas Matinais são amplamente conhecidas e utilizadas por uma considerável quantidade de artistas. Estas consistem em escrever, todos os dias de manhã, antes de fazer seja o que for, três páginas daquilo que nos vai na mente (chamado fluxo de consciência).

Todos os dias escrevemos, pelo menos, três páginas usando o meio que mais aprouver a cada um de nós. São três páginas de fluxo de consciência, sem censura, sem crítico interior, sem temas definidos, sem rédea curta nos nossos pensamentos e sentimentos. O nosso limite é… nenhum.

A princípio isto é uma tarefa esquisita, desconfortável, quase que preferíamos arrancar os olhos com uma colher do que escrever as malfadadas três páginas. O conselho da autora é o seguinte: se for preciso encher três páginas com “Não sei o que hei-de escrever” então, é o que devemos fazer.

Mesmo para aqueles cuja Escrita não é a sua Arte de eleição este exercício é brutalmente esclarecedor de tantas coisa e, à medida que os exercícios do livro avançam vamos entendendo para que nos serviram tantas páginas de baboseiras deitadas ao vento. A nossa escrita muda e nós, como pessoas criativas, mudamos com elas.

Encontro de Artista

A segunda ferramenta principal é o Encontro de Artista. Estes são encontros que marcamos connosco. Saídas que agendamos, e que devem ser realizadas sozinhos, e em busca daquilo que encha o nosso poço criativo.

Em cada semana, das doze semanas que duram este curso/livro, projectamos uma saída cujo propósito é fazer algo que gostamos de fazer. Sozinhos para salvaguardar aquilo que são as nossas escolhas pessoais livres da influência de terceiros. Escolhidas de acordo com o que nos traz mais satisfação pessoal.

Julia Cameron, a autora, começa por nos deixar algumas ideias sobre como devemos salvaguardar este espaço para o Crescimento Criativo (uma coisinha à qual já dediquei um ano inteiro e que estou a pensar repetir) e como podemos preenchê-lo com as coisas divertidas que nos enchem a mente e o coração.

Este exercício, aparentemente descomplicado, mostrou-se tão difícil de concretizar de forma constante que tive de pôr a imaginação a funcionar para poder encher o poço criativo de outras formas. E, isto, ainda antes da ordem de isolamento social, por causa da pandemia, entrar em vigor…

Claro que, a princípio, parecemos uns patos fora de água, a patacoar por aí ao vento. Quando o foco é divertirmo-nos sozinhos muitas forças entram em conflito dentro, e por vezes fora, de nós.

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Bloqueios Criativos

‘The Artist’s Way’ é uma fonte inesgotável de sabedoria sobre as coisas que nos impedem de criar a arte que nos vai no coração. E, sobre as coisas que nos ajudam a superar as dificuldades.

Os bloqueios criativos são tema para a maioria de nós. Ou, sabemos que os temos, ou desconhecemo-lo em nós, ou procuramos saber mais sobre eles. Neste último ponto, digamos que não é a minha primeira volta no carrossel (como podem ler aqui…).

Quando me autorizei a comprar este livro nutria uma profunda desconfiança sobre todos os livros de auto-ajuda, com especial incidência, naqueles que prometiam ajudar a lidar com o bloqueio de escritor. Afinal só temos de encontrar aquele que funciona connosco.

‘The Artist’s Way’ não é uma viagem pacífica. Tem os seus momentos horríveis, consoante o tamanho das nossas feridas pessoais, e tem muitos momentos bonitos.

Mostrou-me, acima tudo, que saramos umas partes de nós mas que existem feridas que estarão remendadas a ouro. Mesmo assim, ou por causa disso, é criar a nossa arte que responde às nossas perguntas. É ela que nos cura. Foi preciso um livro para entender isto? Não. Foram precisos vários, entre outras coisas. Este é só a cola que juntou tudo e pintou as junções a ouro.

Por vezes é difícil acreditar mas, o Mundo precisa que estejamos felizes com as pessoas criativas que somos. Independentemente das nossas escolhas passadas, daquilo que vemos como erros, dos sentimentos contraditórios que nutrimos pelas nossas manifestações de arte, o Mundo precisa que façamos escolhas que transpareçam a pessoa criativa que cada um de nós é.

Precisamos aparecer como a melhor pessoa que conseguimos ser e, um Artista, precisa aparecer como o melhor Criativo que sabe ser. Só assim mudamos o mundo para melhor.

Se já tiverem lido ‘The Artist’s Way’ ou, entretanto, começarem a lê-lo digam qualquer coisa… Podem fazê-lo em comentário, aqui neste artigo, ou por e-mail para sara.farinha@sarafarinha.com

Fico muito feliz por trocar ideias, sobre este livro, que sinto que mudou a lente com que vejo este mundo criativo.

Obrigada pela atenção e até breve!

Entretanto, convido-vos a ler outras opiniões literárias aqui:

‘Bird by Bird’

‘A Fé de um Escritor’

‘How to read Literature like a Professor’

‘A room of one’s own’

‘Big Magic’

‘Writing Fiction for Dummies’

 

2 comentários em “Opinião: ‘The Artist’s Way’ de Julia Cameron”

  1. Olá, Sara.

    Já tentei iniciar ” O caminho do artista” várias vezes, mas nunca passo da terceira semana pois acho a quarta tão difícil…Depois retorno ao início e tento convencer-me que será desta..
    Tem sido um processo difícil mas com este testemunho irei tentar novamente.
    O pior serão mesmo os encontros de artista em casa..
    😊

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