Monstros, Abismo e Clássicos

clássicos

Lutar com monstros é a nossa vida. Olhar para o abismo com afinco é o que melhora a nossa a escrita.

Escolham as vossas armas e enfrentem o bicho… Ninguém o o pode fazer por nós. Nós é que podemos ajudar os outros.

Hoje, vinha no carro a ouvir na rádio um programa qualquer, destinado a um público mais jovem.

A quem se destina o programa é um facto relevante por dois motivos: Primeiro, porque temos um vislumbre do entretenimento que uma fatia da nossa população acha interessante. Segundo, porque damos o devido desconto quando ouvimos algumas coisas que a vida já nos mostrou de outras formas.

Desconheço como a conversa começou, sendo a viagem curta, mas alguém dizia que não gostava de “Guerra das Estrelas” nem de “O Senhor dos Anéis”.

star wars vs lord of the rings

Um dizia que não percebia como os outros gostavam daquilo. Que era chato! O outro dizia que gostava e o assunto ficou-se por aí…

Como estou sempre a pensar no que podia dar uma grande história, do tipo das mencionadas acima, aquelas que têm tanta mestria incorporada que suplantam o tempo, e chegam a várias gerações… achei as declarações engraçadas.

Aqui, quero deixar duas ideias:

Não falo em copiar o estilo/ideias de nenhum dos dois. Refiro-me a conhecer a obra dos nossos predecessores, e aprender através dela, concentrando os nossos esforços em criar o próprio estilo.

E, se há algo a aprender com os clássicos é o seu esforço em criar uma obra que, contra a força opressiva do mundo, chegou aos nossos dias. Mesmo que não sejamos capazes de ver mais nada, vejamos ao menos isso...

Voltando à rádio…

Não posso dizer que tenha havido algum argumento de qualquer uma das partes. Afinal, é um programa de rádio matinal, onde não há espaço para esse tipo de divagações. Houve um acordo tácito em respeitar a opinião alheia o que, nos dias que correm, é algo a louvar.

E, não é a primeira vez que oiço alguém dizer que não gosta de uma obra ou da outra. Mas, sendo fã de ambas, é com algum pesar que o oiço… contudo, compreendo.

O entretenimento nem sempre é considerado arte. Pressupõe um emprenho dedicado que se quer rápido no seu consumo, de fácil compreensão e descartável à primeira utilização.

Joseph Campbell

Conhecendo um pouco da forma como ambas as obras nasceram, e sobreviveram, ouvir alguém dizer que não gosta, sem qualquer tipo de justificação que não seja a subjectividade do Gosto, complica-me os sentimentos.

Mas, a pergunta que me surgiu de imediato não foi porque é que a jovem não gostava da “Guerra das Estrelas” ou do “O Senhor dos Anéis”.

A pergunta que teimei foi: porque é que o jovem afirma gostar?

Do que gosta ele, afinal? Quando não se permite um único argumento para a dada inclinação pessoal?

Pessoalmente, sei porque gosto de ambas. Os sentimentos que invocam em mim, e a mestria que reconheço nas partes mais e menos subtis de trama, personagens, construção e correlação com uma realidade em que nos temos formado. E, não pretendo afirmar-me como mais do que mera medíocre investigadora de ambas as obras.

Gosto, porque tenho olhado para ambas as histórias, não só como espectadora, mas como escritora. Compreender a mestria, o esforço, o significado e o subtexto, são as coisas que me cativam.

Dei comigo a perguntar-me se, o que os outros vêem à superfície de uma qualquer história épica, não é apenas o desconhecimento do subjacente?

Sei que é o que me acontece.

Quantas vezes afirmei não gostar de algo para, alguns anos depois, verificar que apenas não o conhecia de formas que me levassem a relacionar, ou compreender, o que lia? Não tenho dedos nas mãos para as contar, é o que vos digo. Sei que o fiz. Sei que o faço. Sei que o farei.

E, não faz mal. Não estamos todos atentos às mesmas coisas, em simultâneo. Nem temos interesses semelhantes que nos levem a valorizar uma só coisa em detrimento de todas as outras.

São os nossos preconceitos ou, ideias pré-formadas, a operar. E, é tudo natural. Só pretendo manter-me permeável o suficiente para deixar que outras ideias me influenciem, agradecer a exposição a outras obras, mesmo aquelas que, a início, não fui capaz de compreender o que eram.

Como me aconteceu há bem pouco tempo, com a obra de Jane Austen, e sobre a qual podem ler mais aqui…

E, fiquei com uma certeza absoluta (que transponho de Nietzsche):

Nietzsche

Quanto mais enfrentamos estes temas, o que gostamos e não gostamos e porquê, melhores escritores seremos. Quanto mais conhecermos os monstros que assolam a escrita, melhores ferramentas teremos para lidar com eles. E, quantas mais vezes olharmos para o abismo, mais ele nos devolverá o seu olhar.

Pode ferir os meus sentimentos, ouvir que alguém não gosta de uma obra ou de outra, que eu acarinho. Em especial, não podendo eu argumentar com tudo aquilo que vejo de útil e de significativo nela.

Mas, só posso procurar compreender. E, se possível, dar o exemplo.

Só posso apreciar, na melhor medida das minhas capacidades, e entregar ao tempo a aprendizagem que este sempre nos traz… ou, a declarada ignorância sobre tudo aquilo que não nos faz falta. Afinal, nem todos vêm o mundo como um escritor o vê… ou precisa, sequer, de o ver dessa forma.

Combatemos monstros. Contemplamos abismos. Sonhamos a sério com o que uma pessoa pode ser e fazer.

escutar

Aguardo comentários…

Obrigada e Até Breve!

 

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