Aceitar o Imperfeito na nossa Arte

 

aceitar o imperfeitoGosto de nuvens. As minhas favoritas são as Cumulus, aquelas que costumamos desenhar quando somos crianças e que, costumo rabiscar todos os dias, no meu daily journal, quando elas predominam no céu.

(Gosto de apontar o estado do tempo, pela manhã, a temperatura que está lá fora e o meu estado de espírito nesse momento, no meu daily journal… e gosto de desenhar nuvens.)

Vistas ao longe, as Cumulus são perfeitas. Assim como as Altocumulus e as Cirrus. Quando contempladas através da janela de um avião, qualquer nuvem é espectacular, e fazem-me desejar poder andar com os meus próprios pés sobre elas.

nuvens

Quando era miúda (teria uns doze anos?), recordo-me de ir no banco de trás do carro do meu pai, a ver as nuvens. Não lhes sabia os nomes. Lembro-me de ter tido uma ideia para uma história e, assim que chegámos a casa, ter corrido para o papel que havia, daquele tipo de rolo em que se limpam as mãos numa oficina, e ter escrito esse pequeno conto.

Recordo-me na perfeição que, quando o reli, achei que era péssimo. Guardei-o por uns dias, mas a sensação que me proporcionava, cada vez que o via, fez-me rasgar o papel e deitá-lo fora.

shitty first drafts

Nunca me esqueci disto, e quando me ocorre esta vivência, sinto remorsos por ter deitado ao lixo aquele que foi o primeiro conto que escrevi.

Uns trinta anos depois, perguntei-me de onde teria vindo aquela auto-crítica tão acesa? De onde surgira aquele julgamento inflexível que não me permitiu guardar um papel comigo? Mesmo sendo um pedaço de rolo absorvente…

Afinal, não eram as primeiras palavras que escrevia. Por aquela altura, já inventava pequenos poemas e letras de músicas.

O que proporciona outros contornos ao sentimento, que me acometeu naquele momento, e me faz perguntar: Em que raio estava eu a pensar?

Livrar-me dela significou uma história que se perdeu, que nunca pude pensar sobre ela com afinco, para tentar descobrir o que podia ser melhorado. Rasgá-la, para não mais poder reler o seu conteúdo, impossibilitou-me de reter os pormenores daquilo que escrevi, porque não queria voltar a lembrá-los… e, nunca procurei um sentido para os sentimentos que tomaram conta de mim.

Em simultâneo, este pequeno acto destrutivo, significa umas quantas outras coisas, que me têm acompanhado pela vida fora. Coisas com que ainda me debato para aceitar, mas que agora compreendo de outras formas.

Não voltei a deitar fora o que escrevo. Mas, mais tarde, voltei a sentir os mesmos sentimentos, por considerar que aquilo que escrevo não era bom o suficiente.

O que nos acontece quando criamos algo que não conseguimos levar até ao fim? Que acreditamos não conseguir consertar? Quando decidimos deitar fora o tempo e o esforço que nos levaram a criar algo?

Nada. Não acontece nada.

Pelo menos, não acontece nada de positivo ou construtivo. Simplesmente, não existe mais, excepto na nossa memória.

Criar e falhar é melhor do que não criar nada. Melhor do que destruir o que se criou. E, as coisas repetem-se. Na natureza, tudo são ciclos, e tudo se repete em padrões, que podemos reconhecer ou não.

Um pouco como aquela ideia das imagens fractais (Mandelbrot). Há ordem e repetição nas coisas que se supõem caóticas. Há regras simples para todas as complexidades visuais.

O conjunto de Mandelbrot

Há matemática por trás dum acto de criação, mesmo que não sejamos capazes de a compreender, ou calcular… e, sabe Deus que a minha matemática é uma vergonha… o que também não faz mal.

Uma intrincada, e interminável, forma fractal representa um homem, uma civilização, uma história, uma pintura, um pote cerâmico, um animal…

Deitar fora o que fizemos, quem somos, é uma tentativa de nos retirarmos desse conjunto de formas. Uma tentativa infrutífera e impossível.

Adoro nuvens. Claro que tinha de preferir as nuvens que considero de formas perfeitas, as Cumulus. Mas, diz que, até as nuvens têm formas calculadas. Têm ordem, na sua complexidade de aparência caótica, ordem matemática.

Também as nossas criações podem ter essa ordem natural, se nos dedicarmos, com tudo o que temos, a concretizá-lo.

E, talvez, essa ordem nos ajude a aceitar que nunca serão perfeitas.

Mas que, até o caos da imperfeição, pode ser matemático, definido e, talvez, a nossa melhor obra resida só num resultado natural e imperfeito.

E, a nossa obra, se constitua de pedacinhos para uma imagem muito maior…

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Referências:

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2 comentários em “Aceitar o Imperfeito na nossa Arte”

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