
Olá! Sê bem-vindo a este blog e ao seu primeiro artigo de 2026.
Não estaria a ser sincera se não vos contasse que, ao longo dos últimos meses, desisti de manter este sítio. A pausa que fiz, não foi casual, mas propositada.
Algures a meio deste artigo cito uma frase de Cal Newport em “Deep Work” e, confesso que, esta ressoou em mim de uma forma avassaladora. Afinal, não posso dizer que estou a manter um blog direccionado para o SEO, nem sequer que, mantenho um negócio formal com este sítio virtual.
Por isso, o que significa para mim partilhar através deste blog, quando não obtenho retorno declarado dos meus leitores?
E, aos que me enviam e-mails, é preferível enviarem mensagens aqui pelo blog, porque, o(s) meu(s) email (s), nas suas caixinhas de entrada agregadas, metem-me medo e estão ingovernáveis.
Outra ideia, que se tem vindo a formar é: cada vez, temos menos vontade de prestar atenção a conteúdos mais longos, e que requerem maior esforço cognitivo, para os compreendermos de facto.
E, quero ressalvar que, não quero apontar o dedo a ninguém porque, também eu padeço disto.
Mas, quero continuar a lutar contra esta realidade moderna. E, no fim, acabei por resolver alguns dos meus assuntos com os meios online. Cancelei registos e impus-me regras de utilização, com objectivos muito específicos… e, suponho que, por nunca ter compreendido o tic-toc, não foi difícil ignorar algo que, na verdade, nunca existiu para mim.
Em última análise, quero manter-me activa neste blog. Porquê?
Primeiro, porque acredito que nem todos estão interessados em reduzir a sua capacidade de atenção à de um peixinho dourado (diz-se que têm 2 segundos de retenção? Corrijam-me se estiver errada — que, certamente, estarei).
Por isso, mantenho-me a escrever sobre os assuntos que desejo escrever: livros, histórias, arte, criatividade, escritos e todos os afins que me aprouverem.
Segundo, porque não posso desistir de tentar captar a vossa atenção e quiçá, ajudar-vos com qualquer coisita que ressoe convosco dos meus processos contemplativos, sobre os temas já mencionados, e outros que se correlacionam com estes.
Terceiro, porque não é tempo de nos retirarmos da luta, contra os que nos querem massivamente estúpidos, e cegamente concordantes com as suas invenções horrorizantes… para fazerem apenas mais um tostão à custa da vida humana.
O que quer que seja, que eu coloque neste blog, terá sempre as minhas melhores intenções, e as experiências de alguém que, já viveu umas décadas de cenas e coisas típicas e atípicas, e que deseja partilhar o que encontra de curioso e de positivo.
Assim, regresso hoje, com uma série de temas que fizeram parte dos meus últimos anos e que desejo lançar-vos como gatilhos para os vossos próprios projectos criativos.
É, para mim, uma constante ficar a pensar na forma como estruturo aquilo que escrevo. E, não apenas à sua forma exterior, mas sobre os temas que preciso ajeitar melhor na minha cabeça.
Temas como: dar permanente atenção ao que significa ser criativo; Contemplar onde pode estar o real valor das palavras que são escritas ou proferidas; O que significam certas ideias, de facto, e de acordo com o que preciso ir estudar para as compreender; O que significa aceitar a necessidade de executar estes esforços cujo retorno é a constante luta por, talvez um dia, ser capaz de escrever algo melhor.
Tem sido sempre este o rumo neste blog (e o meu): registar os temas que são relevantes aos actos de criação artística, enquanto decorre este processo de pensar em como estruturar aquilo que escrevo, e as mensagens que acredito serem importantes.
Demócrito afirmou “Tudo acontece por acaso e por necessidade.”
E, claro(!) que ele tem razão. Mas, não fiquemos pelo meu juízo de valor… por favor.
No processo criativo, temos necessidade, ou uma monotonia que nos impele a algo mas, estamos em permanente confusão, sobre o que esse algo poderá ser. Esse acaso que, por si só, apenas origina confusão.
Segundo esta perspectiva, o segredo da criatividade reside na organização, e na variedade porque, apenas a necessidade (= monotonia) e o acaso (= caos) não chegam para assegurar a criação. É preciso organizá-la e obter variedade.
É preciso usar diferentes fontes, esquecendo o processo único, procurando sempre algo novo e inédito. E, confiando que é a junção de todas essas partes que criam o todo.
Esta ideia, aqui interpretada da melhor forma que me foi possível, não é minha. É de Demócrito, e foi reiterada por Hubert Reeves, de uma forma que se tornasse menos filosófica e mais astrofísica.
E, que por sua vez, nos servisse a nós construtores criativos.
No entanto, acho que todos concordamos que, há muitos interesses e pressões sobre os criadores. Há um movimento organizado que procura impelir-nos a criar apenas aquilo que obedece à fórmula de um qualquer sucesso económico. E, há cada vez mais, redes maiores a empurrar-nos para o caos de enganar o próximo.
O que não há, de grande impacto, são esforços decentes a impelir-nos a pensar por nós próprios, a questionar o que nos acontece, e o que fazemos aos outros, ou a procurar compreender o que certas ideias, princípios, valores, realidades, realmente significam para o indivíduo.
Neste esforço pessoal, em procurar compreender os meus padrões, e em mudar a forma como estruturo a minha prática de escrita, tenho-me guiado por diferentes caminhos.
Procurei informar-me sobre os diferentes tipos de escrita — o que significa escrever ficção ou não ficção, e sob que formatos. O que eles significam e como informam, ou degradam, os diferentes temas.
Procurei novas práticas, outros meios criativos, outras vivências das artes.
Mas, acima de tudo, tenho pensado bastante na forma como este grande século XXI, a Época das Distrações em Massa, tem afectado o que sabemos sobre a disseminação do conhecimento, a desvalorização da ciência, face às opiniões pessoais (deturpadamente) informadas por crenças e o endeusamento de falsidades, e de argumentações, desprovidas de racionalidade factual e de bons sentimentos.
Todos temos um conhecimento limitado. Racionalizamos o que sabemos, e refutamos, tudo o que não se enquadra, naquilo que acreditamos que sabemos. Todos temos preconceitos sobre os assuntos, e tendência a incorrer noutros.
E, os egos inflamados persistem. Alegações, fundamentadas em mentiras, ou em meias-verdades embelezadas, permanecem o metrómono que marca o ritmo (o tempo do compasso).
Tenho procurado combater o assalto constante à minha capacidade cognitiva. Não bastassem as agruras da vida, com as suas consequências psicológicas e emocionais, ainda preciso desmontar o sistema que obedece à reacção instintiva perante qualquer notificação artificial. E, isto não me serve como indivíduo, ou ao que ainda quero pensar e criar (escrever).
Merecemos uma ode, bem cantada, pelo esforço a que somos sujeitos no combate constante ao vício de pegar no telemóvel. Um acto que não concretiza nada… excepto, uns acidentes rodoviários ocasionais, e umas relações pessoais envenenadas, pela ausência pessoal no espaço físico em que se encontram.
Partilho convosco uma citação, que me pareceu relevante, e que mencionei no início deste artigo, em “Deep Work” por Cal Newport: “Ao deixar esses serviços (redes sociais) sem aviso prévio, poderá testar a realidade do seu status como produtor de conteúdo (…) ninguém além dos seus amigos e familiares mais próximos provavelmente notará que desapareceu. (…) essa busca pela autoimportância desempenha uma papel importante em convencer as pessoas a continuarem a fragmentar irreflexivamente o seu tempo e atenção.”
Mas estes são as pessoas que colocam algo nas redes sociais. E, os que só absorvem das redes sociais?
Somos influenciados (assaltados) a permanecer desatentos à vida real. E, aliviados até da vontade de irmos fazer alguma coisa de útil, de contributo positivo, com a nossa existência. Na tentativa de abandonar esses sítios virtuais, temos medo de perder algo que, em última análise, não existe.
Entretanto, estamos a programar o cérebro para viver em constante reactividade aos engodos de raiva, mentiras, deturpações, ofensas orquestradas, e uma incapacidade de distinguir o que foi, totalmente, inventado num computador qualquer. E, estamos a ser levados ao sabor das mentiras que nos dizem…
Estou num momento, em que não compreendo a necessidade de ignorar os problemas reais, enquanto se travam batalhas contra situações inventadas por interesses políticos, e pessoas focadas em aumentar a quantidade de Ouro na Gruta do Dragão (conhecem a lenda do dragão colector de riquezas?).
Infelizmente, os nossos dragões modernos não se deitam, apenas, em cima do seu tesouro. Usam-no para matar todas as potenciais, reais ou imaginárias, ameaças à perpetuação desta posse.
E, infelizmente, muitos há que ainda preferem as grandes batalhas virtuais.
“Acabou o tempo dos artistas irresponsáveis”, escreveu Albert Camus, em “Create Dangerously”. E, parece que, os temas da actualidade de Camus são, surpreendentemente, os nossos de hoje em dia.
Contemplar as ideias de Camus, enquanto encaixo uma série de outras ideias, neste meu redemoinho sobre o que significa escrever algo com real valor, ajudou-me a estruturar o que penso sobre os meus temas.
E, ajudou-me a repensar a minha ideia de abandonar a escrita, e publicação, neste sítio virtual. Porque é um só indivíduo que faz a diferença. E, se cada indivíduo decidir fazer a diferença, estaremos melhores por isso.
Concordo que é tempo de recuperar a nossa responsabilidade, no que diz respeito à narrativa, que suporta a arte que criamos. Não podemos ignorar as inconveniências só porque são inconvenientes.
Há Escritos que são, apenas, colectores de moedas de ouro para outrém, e nada mais.
Outros escritos há, que são declaradamente, perniciosos e mutiladores de pessoas. Por isso, é preciso repensar o que desejamos, de facto, dizer através da arte que criamos.
E, o que pensamos nós, não sobre vender a alma (ou a nossa arte), em troca das moedas de ouro, porque essas não chegam até à maioria de nós, mas o que pensamos sobre a prostituição dos nossos valores?
O que nos tem impelido a ser irresponsáveis naquilo que colocamos no mundo? O que estamos dispostos a oferecer em troca?
Ser-se responsável, pelo que se expõe na nossa arte, determina o valor, e o caminho, para a autenticidade?
Estar confortável com o produto da nossa arte é ser-se livre? Ou trocamos a liberdade por conforto? Trocamos a liberdade por conforto? Trocamos a liberdade da criação artística por fórmulas fabris, geradoras de moedas de ouro (para outrém, sempre para outrém)?
Deixo-vos com estas grandes perguntas, sabendo que ainda levarei uns momentos intensos, a descobrir a minha resposta a algumas delas.
Mas, a grande solução que encontrei na argumentação de Camus, reside na sua crença que as grandes ideias podem ser depositadas num indivíduo. Cada homem é capaz de grandes ideias e, em milhares de indivíduos solitários, cujos seus actos de trabalho individual, executados diariamente, negam as fronteiras que existem, e ultrapassam as mais cruas implicações históricas.
Cada homem, na fundação dos seus próprios sofrimentos e alegrias, constrói para todos os outros. E, esta é uma verdade ameaçada porque, negar o poder individual, é um método de nos negar qualquer poder sobre o que podemos fazer com o que nos acontece.
Como indivíduos, temos a obrigação de produzir um trabalho melhor. De procurarmos as respostas, às nossas perguntas existenciais, e de assumirmos o controle daquilo que queremos compreender.
Assim, acho que continuarei por aqui, no meu caminho, desenhado por mim e, em que me parece agora, que é possível evoluir de uma forma orgânica. E, que tudo isto me leva à vontade de continuar a aprofundar a pesquisa sobre os temas que me interessam.
Por isso, aqui vos deixo estas contemplações e referências. E, a certeza que, se há coisa que este artigo não pretende ser, é algo de consumo curto. Deixem um comentário aqui no artigo… já que chegaram até aqui, mais vale declararem-no ao mundo virtual 🙂 e, sempre faziam esta senhora feliz 😉
Espero que este texto vos sirva bem e, entretanto,
Desejo-vos um Magnífico 2026.
(E,) Desejo-vos uma semana criativa.
Obrigada e Até Breve!
