
Olá! Sê bem-vindo aos [Recursos do Escritor].
Há uns dias, estive a ver a série Sherlock, BBC, 2010-2017, protagonizada por Benedict Cumberbatch e Martin Freeman. Como apreciadora de histórias, encontro sempre algo que me faz reflectir sobre a sua criação e partilha.
Como este blog é um sítio onde a arte de contar histórias prevalece, sinto sempre o ímpeto de partilhar convosco, aquilo que observo em algumas obras, e temas relacionados, claro! O que seria a arte de contar histórias sem o relacionamento de informação? Nada, parece-me.
Assim, através de ‘Sherlock’, a série, trago-vos alguns pontos de reflexão, que indico a negrito, e sobre os quais quero que pausem e reflictam.
Estes são assuntos que vos peço que guardem uns momentos da vossa atenção e reflictam sobre o que pensam deles. E, partilhem connosco as vossas ideias, nos comentários a este artigo, se possível.
No momento, estou a 2 episódios do final da 4ª, e última, temporada e a apreciar bastante que cada episódio tenha a duração de um filme. Este pormenor, da duração de cada episódio, é muito satisfatório. Sinto que, fugiram à fórmula, algo que agradeço. E, repensar as formulas que produzem produtos, ao invés de obras de arte, é um tema interessante e digno de reflexão.

É hábito meu, aborrecer-me bastante com as séries que preparam cada episódio para durar entre 30 e 45 minutos minutos, porque venderam-nos a ideia que, a nossa capacidade de atenção ininterrupta são 45 minutos, no máximo, por cada hora e, em que só podemos contar com (apenas) uma mísera novidade, por episódio, que faz avançar a trama.
Uma só novidade de peso, por episódio, tendencialmente, no final (o precipício). Permitindo que construam uma temporada inteira, por vezes, mais de 15 episódios por temporada, como se fosse um grande filme dividido em cenas. E, as novidades que seriam introduzidas em cada cena desaparecem, relegando tudo para esse evento único final por cada episódio.
Para mim, isto significa que perdemos horas da nossa vida, à espera dos pontos importantes da trama, que só aparecem no final de cada episódio e que podemos contar com o “grande” evento no penúltimo episódio, ou no último, se tiverem a certeza de que vão criar uma temporada subsequente. Tudo o resto, é palha ou como costumo chamar “encher chouriços”. São horas perdidas a “encher chouriços” com o mesmo preparado vazio e isto, parece-me uma forma muito preguiçosa e trapaceira de criar guiões.
E, sou sincera, não tenho interesse em viver nestes mundos ficcionais porque, a maioria deles, não presta. Não há lá muito, se existir algo sequer, que deslumbre o observador.
Recuso-me a viver tantas horas, num universo ficcional, quando este não é, particularmente, especial, interessante ou emocionante. As séries servidas neste formato que, neste momento, são quase todas, servem para prolongar uma história que, quando bem analisada, é vazia e aborrecida, sem emoções suficientes (seja qual for o género), que justifiquem tanto tempo da minha atenção.
E, tratar todos os episódios como se fossem um sítio onde queremos apreciar cada pormenor, em mundos que não são imersivos ou, sequer, interessantes, é passar um atestado de algo pouco lisonjeante ao espectador. Afinal, não somos grandes apreciadores de palha como meio de sustentação. De vegetais, sim… da maioria, pelo menos. Palha?! Não.
É preciso, exercer algum poder de análise crítica, e aceitar desistir quando não nos interessa, sem nos sentirmos mal por isso.

Acho que, é pior perder 20 horas da minha vida, sem qualquer retorno útil, do que ficar a ver, só para não dizer que não vi até ao fim. E, sou dona do meu, escasso, tempo de lazer, pelo que não me interessam os vossos interesses comerciais. Porque, manter as pessoas agarradas a um ecrã por 20 horas, quando não se oferece uma boa história, é um interesse comercial que está a ser satisfeito.
Estas ideias, sobre como contar uma boa história, são uma espécie de contaminação cruzada entre escrita e ecrãs, com o que acredito ser a base de uma boa história escrita. E, sinceramente, já vi a minha quantidade de boas, e más, histórias para saber a diferença, independentemente do género.
Foi com agrado que vi esta reiteração de Sherlock Holmes não obedecer às formulas instituídas da produção de séries. Os episódios são longos, cheios de pormenores interessantes e reviravoltas construtivas, e proporcionam alimento para as mentes mais inquisitivas (como investigar as técnicas de memorização existentes, como a mencionada Palácio da Mente).

Desde miúda, que “As Aventuras de Sherlock Holmes” de Arthur Conan Doyle fizeram parte das minhas referências em ficção policial.
Entre Sherlock Holmes, Poirot, Jessica Fletcher (“Crime, Disse Ela”) e Miss Marple (tenho a certeza que estou a esquecer-me de algum), enchi-me de histórias de crime e mistério, à moda antiga. Referências que continuo a procurar, compreender, reter e utilizar.
No Universo Sherlock Holmes, para além dos livros e audiolivros, as séries televisivas e, mais recentemente, os filmes, temos visto o recontar das peripécias desta personagem, tão carismática quanto assustadora e, nesta versão de 2010, Holmes é um sociopata altamente funcional (palavras do guião), o que dá um novo ângulo sobre uma personagem que se acreditou ser um génio da dedução, de inteligência francamente superior à da grande maioria dos mortais, até à versão de que teria algum nível de autismo, que potenciaria os comportamentos anti-sociais, acompanhados de inteligência bem acima da média.
O que foi preciso para criar uma personagem assim? Uma personagem desta magnitude, que tem sobrevivido ao tempo, e se reconstruído de uma forma que continua justificativa da criação inicial.

Na versão de 2010, Sherlock Holmes é um sociopata altamente funcional. Uma pessoa que sofre de sociopatia; uma pessoa que revela fraco sentido de responsabilidade moral, desprezo pelas obrigações sociais e falta de empatia face aos outros (em Infopedia), e que se caracteriza, de um modo simplista, por Transtorno de Personalidade Antissocial, cujas principais características são a ausência de empatia, personalidade carismática, desrespeito pelas normas e padrões sociais, facilidade para a mentira e a simulação, comportamento manipulador, ausência de remorso, inteligência acima da média, conduta transgressora, apreciação pelas drogas, vício em adrenalina e tendência violenta (Quora).
Mas, esta é uma explicação, que ocorre na reiteração da sua história, baseada nos conhecimentos em Psicologia que temos na actualidade.
Li que, o Transtorno de Personalidade Antissocial é provocado por maus tratos, durante a infância e juventude, o que me deixou curiosidade sobre como imaginariam o que lhe acontecera durante esse período.
Mas, nesta versão, e sobre a parte familiar, ainda não antevi grande coisa. Há uma série de pistas, mas que permitem poucas certezas. Da relação com o irmão mais velho, é-nos dito que é complicada, e que Microft é o mais inteligente dos dois. Quanto à sua relação com os pais, ele parece desprezá-los como pessoas normais, apesar de nos ter sido dito que, a mãe dele havia sido um génio matemático.

As drogas e o vício por adrenalina, este segundo, partilhado com a personagem de Watson, foi uma visão engraçada, e chocante, em partes iguais. Como, na actualidade, não temos tantos filtros nestes temas, deram um real ímpeto no pormenor que Holmes teria um vício com drogas. Pormenor que, também, faz parte deste distúrbio que a personagem afirma ter.
Hoje, contamos histórias sobre quase tudo, numa míriade que reflecte a experiência humana. Com tudo o que de bom, e de mau, isso traz. Difundir coisas más, banaliza-as, retira-lhes a carga negativa e, em alguns casos, incentiva até à experimentação e/ou repetição de algo que não deveria ser banalizado e, dessa forma transformado de inaceitável em aceitável e, até, comum. Mas, este tema é sensível e tem muitos factores a considerar, pelo que, não é para o presente artigo.
Quanto ao vício em adrenalina, este é partilhado por John Watson, um médico dispensado do exército, após combater e ser ferido no Afeganistão, e que sentia grandes dificuldades em adaptar-se à vida civil, até se ver enredado na vida e carreira de consultor criminal de Sherlock.
Assim, Sherlock Holmes, uma personagem que florescera na cidade de Londres victoriana e industrial, é trazida com sucesso para Londres (quase) da actualidade (2010). As suas histórias, adaptadas aos meios modernos, e recontadas de forma interessante e inteligente.

E, Watson viu uma versão menos digna de si mas, talvez, muito mais aproximada de uma realidade possível, com algumas das suas escolhas e sofrimentos pessoais. Uma personagem modelada, e em crescimento, desde o primeiro episódio.
Se ignorar o constante e, para mim, algo irritante recontar das mesmas histórias, concedo que esta versão acrescentou algo (ou vários ‘algos’) ao original. Pelo menos, no sentido de procurar que conhecêssemos melhor uma personagem que se apresenta diferente da original. Pela mão de Conan Doyle, era taciturna e resguardada, assim numa espécie de poder quase divinatório, destinado a fazer com que nos sentíssemos pouco observadores, e cuja demonstração do seu intelecto era quase o único ponto que se pretendia que víssemos nele.
Qualquer uma destas versões, em filmes, séries, livros, banda desenhada… é um olhar sobre uma mesma obra e, no entanto, todas elas diferem entre si, e do original (contos). Em cada versão aprendemos um pouco sobre a realidade em cada época. Sim, uma realidade ficcionada mas, não deixando de ser, um olhar específico sobre um momento no tempo, e um estado da arte em questão.

Claro que, quando uma obra é recontada com sucesso, é muito mais fácil perdoar a reciclagem periódica que se faz de algumas criações. Quando esta reciclagem incorre em falha total (ocorre-me o último filme “Persuasão” inspirado, vagamente, no livro de Jane Austen), torna-se mais complicado aceitar que se gastem recursos, a produzir mais uma iteração de algo, que perdeu o seu valor.
Mas, no final, suponho que o que importa mesmo, é a forma como transmitimos uma história a toda uma nova geração, de apreciadores (ou não), aos quais damos acesso ao conhecimento de que há uma obra original, que pode ser lida e apreciada de uma forma diferente, mas no mesmo universo ficcional.
Porque conhecer os Clássicos (nos diferentes ramos), assim como a nossa História e as Ciências que nos trouxeram até aqui, é informação muito importante.
Outro ponto, que quero pedir reflexão, é a interpretação dos factos. Atrás de uma brincadeira gera-se um “conhecimento”, um mito, uma crença. Algo que serve como limpa palato de uma história, que é suposto ser apenas um interlúdio com piada, para aligeirar a trama, transforma-se no foco de uma obra. Porque o importante já não é o importante, é a apreciação dessa pequena mentira que parece inteligente mas é, somente, parva.
Não tinha noção da horda de pessoas a fomentar a ideia que Holmes e Watson seriam homossexuais. É este ponto importante? Não para mim. Nem, tão pouco, é interessante. A história não é guiada por aí, nunca foi. Não é um pormenor importante para contar qualquer parte desta história. Não é, nada mais, do que uma piadola desenhada para chocar, entreter, ou fazer-nos rir, durante certos diálogos. E, é importante compreender em que sítios da história devemos introduzir um ligeiro momento lúdico. Algo que faça o espectador aliviar a tensão com algum humor.
Mas, esta piadola em especial, tão adequada aos dias de hoje, não vale as centenas de horas dispendidas a criar memes e afins.
Já a captura de uma boa imagem da pintura, na sala de celebração do casamento de Watson com Mary, valia essas horas todas. Aquela sala foi pintada para aquela cena. Não é a pintura original no sítio onde foi filmado.
Queria ver aqueles pássaros todos em pormenor mas, “alas” não há grande informação sobre isto. E, aqueles resguardos tripartidos transparentes? Com forma exagonal? O que é aquilo? Quero ver de perto. Um resguardo visual transparente, é um tema em si mesmo. Esconde? Enquanto revela? Em especial, se considerarmos o que vimos a descobrir sobre o casal, nos episódios a seguir. E, sabemos que, os objectos contam histórias e ajudam a contar a história.

Bom, este não foi, nem pretendia ser, um resumo em profundidade de tudo o que é interessante ou importante nesta obra. Mas, acredito que vos deixo com alguns temas em que pensar.
Temas que nos ajudam a encarar a construção criativa das nossa artes com mais pormenor do que aquele que considerámos, no início, ser necessário.
O que é importante, para mim, enquanto procuro a melhor forma de conceber uma história?
- Símbolos, representações fidedignas de coisas que são visíveis e de muitas outras que operam nas sombras.
- Recusa em aligeirar o tema para facilidade de consumo. O tema é como é, e aquilo que vejo. Outra visão só será possível quando for escrita por outra pessoa que não eu.
- Procurar saber mais, sobre as diferentes áreas de saber, tendo em conta os constrangimentos temporais que tenho. Perdoar-me quando fico aquém, quando não sei o que não sei, o que acontece mais vezes do que gostaria.
- Apresentar o que me cativa aos que lêem o que escrevo, na esperança que eles ganhem asas e vão voar sozinhos, em busca de conhecimentos antigos para obterem explicações modernas.
- Analisarmos de forma crítica aquilo que consumimos e o que colocamos no mundo.
- Recusar preconceitos como: só consumimos conteúdos curtos e perdemos a capacidade de manter a atenção por mais tempo. Ou, (não) somos audiência para solidão (como na música), destinados a sermos manipulados pelos conteúdos que vemos nos ecrãs?
Cabe-nos a nós não permitir que isto se concretize.
Assim, larguem o telemóvel e as redes sociais, em especial, tudo o que anuncie ser de consumo curto e rápido. Leiam um livro, façam um bordado, pintem um desenho… façam qualquer outra coisa com intenção, e concentração, suficiente para, no final, sentirem que retiraram algo de positivo da experiência.
E, se leram até aqui, Parabéns! Já exerceram a leitura do vosso conteúdo de duração média do dia. Agora, vão investir num conteúdo longo. Talvez um livro? O vosso futuro, agradece.
Desejo-vos uma semana criativa.
Obrigada e Até Breve!
