Ser Ingénuo é uma micro-fissura no material destrutivo

construtor criativo, não destrutor

Olá! Sê bem-vindo a este [recursos do construtor criativo].

Preparem-se, que este vai ser longo…

A pergunta de hoje é: É preciso ser-se ingénuo para se ser um construtor criativo?

Já sabem, deixem a vossa resposta nos comentários deste artigo, por favor.

Ao pensar em ingenuidade ocorre-me, de imediato, a crença.

Tudo nesta vida consubstancia-se de crença. Nós acreditamos numa situação específica, ao invés de outra. Acreditamos que, fazer de uma certa forma, é melhor do que fazer de outra. Acreditamos que algo funciona, ou que algo não funciona. Acreditamos em seguir por uma estrada, ou acreditamos que devemos mudar de direcção e, por aí fora.

Estas crenças são formadas com base em quê?

Nas experiências pessoais de cada indivíduo, e na exposição ao meio que nos rodeia. Ou seja, quanto mais diversas as experiências, e a amplitude da exposição de um indivíduo a outros conhecimentos, maiores serão as diferenças entre as pessoas e as suas crenças pessoais.

Quando se decide criar algo, compreendo o sermos ingénuos em suficiência para acreditarmos em várias coisas:

  • que algo irá, em efectividade, ser criado;
  • que o que se cria pode ter algum valor;
  • que o produto dessa criação pode ser bom;
  • que essa criação contribui para algo maior do que a pessoa que o criou;
  • que expressamos a nossa opinião pessoal e que esta pode ser partilhada por outros;

Somos ingénuos ao acreditarmos em alguma destas possibilidades?

Mas, primeiro, vamos esclarecer os nossos conceitos sobre Ingenuidade nas Artes.

Como termo, claro que fui para o conceito de Arte Naïf no domínio da pintura.

Arte Naïf, é um conceito da História da Arte, que se refere à produção por artistas autodidactas que, ao experimentarem nas suas artes, e sem terem formação formal específica, desenvolvem uma linguagem criativa individual. Este conceito foi cunhado, após Henri Rousseau ter as suas obras expostas, e captado a atenção do público e do mercado de arte. A sua inocência, primeiro menosprezada foi, depois, notada e aceite como um estilo particular.

A Ingenuidade, na sua definição geral, refere-se a um traço de personalidade em que uma pessoa se caracteriza pela inocência, falta de malícia e inexperiência.

Mas, a palavra Ingenuidade, que evoluiu do latim “ingenuitas” e significava liberdade ou franqueza, tomou uma perspectiva associada à pureza de pensamento e ao pouco conhecimento das complexidades da vida.

Pode um criador ser ingénuo, quando procura esclarecimentos sobre as complexidades da nossa existência? 

Almada Negreiros tem um ensaio que, na minha opinião, é muito interessante sobre ‘O Valor da Ingenuidade‘. Começa assim:

“O maior perigo que corre o ingénuo: o de querer ser esperto.” — Ensaios de Almada Negreiros

Almada Negreiros refere-se ao adquirir de conhecimento. À pessoa que procura saber mais, para deixar de ser ingénuo. Mas, depressa o ensaio se transforma num alerta à perseguição de esperteza-saloia.

E, confesso, a mim, ocorreu-me logo este segundo sentido, o de:

esperto = astuto ou chico-esperto = indivíduo que se acha mais esperto que os outros E/OU indivíduo que procura o benefício ou a vantagem pessoal, mesmo que para tal prejudique alguém (fonte: Infopédia).

Suponho que isto, esta associação imediata, diz mais sobre mim, e as minhas experiências pessoais, num mundo assim, cheio de espertezas saloias, indiferentes ao quanto prejudicam outros, do que com o conceito de Ingenuidade em si.

Almada Negreiros, neste ensaio, continua por aí, pela identificação da esperteza saloia portuguesa, e torna o assunto ainda mais interessante. E, mais para o final:

Em português a malícia diz-se exactamente por estas palavras: esperteza saloia. Parecendo tão insignificante, a malícia contudo fere a individualidade humana no mais profundo da integridade do próprio que a usa, porque o distrai da dignidade e da atenção que ele se deve a si mesmo, distrai-o do seu próprio caso pessoal, da sua simpatia ou repulsa, da sua bondade ou da sua maldade, legítimas ambas no seu segredo emocional.” — Ensaios de Almada Negreiros

Nas artes, entenda-se no acto criativo, suponho que temos de ter uma certa inocência. Temos de acreditar sem malícia. Temos de ser Ingénuos enquanto procuramos o nosso sentido para a vida.

Ingénuos, talvez porque a defesa daquilo em que acreditamos, ou a exposição de assuntos que não compreendemos, e que tentamos organizar melhor na nossa mente, através da construção artística, é algo idealista. Vamos em busca de algo que consideramos “mais esclarecido”, mas não necessariamente melhor.

Colocamo-nos numa posição vulnerável quando aceitamos publicamente, e cada obra é algo com destino a um público, que certo tema nos incomoda. Ou, quando demonstramos uma inocência e/ou desconhecimento no tratamento de tal assunto. E, todos sabemos que a vulnerabilidade equivale a inocência… ou não?

Por isso, a par da inocência, que não me parece que seja bom perder (porque nunca a iríamos perder, de facto, apenas acreditar que seriamos mais espertos e, mesmo, transformar-nos em chico-espertos), diria que temos de descobrir a persistência. Continuar a trilhar o próprio caminho na constante batalha de auto-construção.

A Ingenuidade, ou Inocência de que padecemos, na maioria dos assuntos que desejamos conhecer, é a força que alimenta a vontade de querer saber mais e organizar o que se sabe de outra forma.

Quando começamos um projecto novo, não há certezas sobre o produto final, ou sequer, sobre a completude das etapas do evento. Mas, é essa inocência, essa ingenuidade acompanhada de persistência, que nos leva a prosseguir com uma criação, sem nada mais do que a crença que, talvez consigamos fazê-la funcionar.

Quando escrevemos um livro, quanto tempo (meses… anos) levamos até considerarmos que aquela peça está num formato, senão pronto e acabado, mas no melhor estado possível antes de entrar num processo de tratamento final para consumo público? E, nada nos pode fazer continuar, que não seja a nossa crença e ingenuidade. Se o objectivo for produzir em série e fazer dinheiro, não há ingenuidade que nos suporte.

Chico-espertezas à parte, é preciso ser-se inocente, para se continuar a perseguir a arte, quando o dinheiro parece ser o objectivo final.

Mas, está tudo óptimo com ser-se inocente ou ingénuo. Acredito que só podemos defender aquilo em que acreditamos, quando vamos em busca de saber mais sobre o assunto. Lá por ser uma crença, não significa que não seja o mais bem fundamentada possível. E, acredito também que, quando fazemos esse esforço, indiferentes à percepção exterior sobre a imagem de ingenuidade que temos, agarramos a hipótese real de criar algo importante, com significado e com valor.

Mas, será o valor monetário o único que importa?

Espero que, para muitos de nós, não seja. É de necessidade imediata ter o suficiente para viver mas, é de necessidade extrema, não nos deixarmos enredar pelos excessos.

Diria que é preciso ser-se ingénuo, mesmo inocente, para se acreditar que o nosso pequeno contributo anónimo pode ter algum impacto positivo no mundo.

Mas, atentem, não tem sido os micro impactos diários que têm afectado as grandes ideias do mundo? Não é do que se fazem as “redes sociais” e sistema noticioso?

As opiniões de alguém pouco importante, no grande esquema das coisas, ocupa o tempo de antena. As insinuações perniciosas, nos 30 segundos de exposição virtual, não afectam quem vê? Os milhões de mentiras contadas, e partilhadas, sem qualquer critério ou julgamento, não têm impacto? Os choques de injustiça, e violência impossíveis de corrigir, que ocupam todo o espaço consubstanciam-se em quê?

Temos um mundo feito de gente que só quer mais um tostão, não importa quem tenha de morrer por causa disso. E, temos um conjunto amplo de pessoas, e sistemas artificiais, a incrementar essas mentiras e distorções. E temos, pelo menos, duas décadas de dessensibilização ao que nos deveria provocar choque, repulsa e absoluta recusa.

E, as nossas crianças, já não têm sequer a experiência de ausência desses sistemas. Distinguir o certo do errado quando o mundo é, em grande parte virtual, e uma construção deturpada da realidade (porque o que é engraçado, horrível, mau, tem mais vizualizações, com os adultos pregados nas suas versões do mesmo comportamento), é possível?

Sejamos inocentes nas nossas verdades. Sejamos ingénuos na busca pelos nossos temas de construção criativa. Mas, sejamos verdadeiros nas nossas intenções, e no nosso papel individual, e na contribuição para a sociedade de que fazemos parte.

Sejamos temerários na nossa recusa das ideias que não partilhamos, porque o silêncio beneficia sempre o agressor, nunca o agredido. E, os agressores não precisam de defesas.

Na política, e quanto à desculpa de “sempre foi assim“, pude ouvi-la, há mais de vinte anos atrás e, diria que, já não serve. Porque estas maquinações novas continuam a ser o que sempre foram, o “assim“… mas piores.

Querem mudar alguma coisa? Experimentem procurar a definição de valores morais. E, depois, experimentem vivê-los de verdade.

Queremos mesmo uma realidade em que a vida vale pouco menos do que um tostão? A visão económica é uma de inocência. Nunca nada cresce sempre. Nunca nada vive para sempre. Nunca se finda uma injustiça com outra. E, acima de tudo, nunca nenhum deles levou o dinheiro, o petróleo, ou qualquer outra cena dessas para a cova. Mas, muitos vão, precocemente, parar a covas para que haja mais um barril de uma trampa poluente qualquer.

No ensaio Defesa da Inteligência por Albert Camus, que retrata os sentimentos franceses após a luta com o Hitlerismo, há uma frase que me chamou a atenção, sobre a memória persistente das atrocidades, que não se dissipa, mas permanece com todos aqueles que foram forçados contra a sua natureza, e as feridas profundas que essas realidades deixaram.

Ele escreve:

Os nossos corações envenenados precisam ser curados. E, a mais difícil batalha, que deve ser ganha contra o inimigo no futuro, deve ser travada dentro de nós próprios, com um esforço excepcional capaz de transformar o nosso apetite por ódio num desejo por justiça. Não ceder ao ódio, não fazer concessões em favor da violência, não permitir a cegueira das nossas paixões — estas são as coisas que ainda podemos fazer pela amizade e contra o Hitlerismo.” — Camus

Não fazer concessões, quando falamos do poder do ódio, e das suas instrumentalizações. E, nós, Portugueses somos um povo que se formou de diferentes povos, consoante foram passando pela Península Ibérica, e de tradição exploradora e Imperialista, pelo que não me espanta que certos desejos, mais obscuros, precisem ser reavaliados pelos próprios indivíduos. E, quero acreditar que há capacidade para isso.

E, voltando a “Acabou o tempo dos artistas irresponsáveis”, de Albert Camus, em “Create Dangerously”, sobre o qual podem ler no artigo ‘Fim do tempo dos artistas irresponsáveis e o regresso ao passado para ajudar no presente‘, e mantenho o que escrevi nesse artigo: (…), porque não é tempo de nos retirarmos da luta, contra os que nos querem massivamente estúpidos, e cegamente concordantes com as suas invenções horrorizantes… para fazerem apenas mais um tostão à custa da vida humana.

Sejamos, temerários na busca pelo material que alimenta a nossa criatividade. Há temas que não devemos ignorar. E, se temos filhos, é ainda mais imperativo que o façamos. É preciso defender os que ainda não sabem do que este mundo se fez. E, defender a passagem desse conhecimento aos que vêm depois de nós. Conhecimentos em História, Política, Religião, Filosofia, entre outras, como nas Artes, e na arte de fazer alguma coisa, de construção real.

“Aprende algo. Aplica-o. Passa-o ao próximo para que esse conhecimento não seja esquecido.” — Ruth Asawa

Vamos passar conhecimentos, enquanto nos maravilhamos, com a facilidade com que as nossas crianças executam um qualquer acto criativo, sem o mínimo de bloqueio ou auto-censura. Eu sei que é algo que me anima cada vez que os vejo criar algo.

Podia ser feito de outra forma? Claro. Mas, a ingenuidade e a inocência que guiam uma qualquer idealização de uma construção criativa, são pura inspiração. E, temos tempo para ensinar as bases das coisas, um pouco de cada vez, desde que nós adultos as saibamos fazer.

“Uma criança pode aprender algo sobre cor, design, e sobre a observação de objectos na natureza. Se fizermos isso, crescemos em direcção a uma maior consciência daquilo que nos rodeia. A Arte faz as pessoas melhores, mais competentes no seu pensamento e melhorando qualquer que seja a actividade, ou ocupação, que escolha. Ela faz uma pessoa ser mais abrangente.” — Ruth Asawa

Acho que, o tipo de ingenuidade ou inocência que precisamos para sermos construtores criativos, prende-se com a necessidade de construirmos sem nos demorarmos muito em dúvidas ou auto-recriminações.

Com a necessidade absoluta de não passar julgamentos apressados, mas procurar os conhecimentos de base que necessitamos para cada projecto com que decidimos brincar.

E, a constante força para não nos determos sobre outros assuntos quando o que está em causa é a construção de algo. Porque o scroll infinito não cria nada… quer dizer, talvez crie tendinites.

Aceitar que é preciso ser-se ingénuo, ou inocente, na medida em que o cínico não toca em nada que não veja um ganho final, mas que é a função do construtor criativo evitar o cinismo.

Precisamos acreditar naquilo que estamos a construir ou, pelo menos, não o pôr em causa, por dúvidas externas a nós próprios como criadores. E, precisamos continuar a criar, sem pausas, e sem medo. Mas, acima de tudo, precisamos responsabilizar-nos por aquilo que colocamos no mundo.

Para opinarmos, dava jeito que fôssemos procurar mais conhecimento, mais abrangente e, se possível, de fontes primárias, ao invés do regurgitado, e/ou hiper-analisado, por uma fonte secundária qualquer.

Porque é (mesmo!) tempo de recuperar a nossa responsabilidade como criadores. Fundamentar a narrativa, identificar os nossos valores e defender, abertamente, um mundo melhor. Chamem-me ingénua… mas, prefiro isso, a cúmplice.

No livro “Citizen Printer” de Amos Paul Kennedy Jr. há um excerto interessante sobre o impacto que podemos ter nos actos criativos dos que nos sucedem:

“Algumas pessoas disseram-me que a minha história mudou as suas vidas. Que a minha decisão de abandonar uma existência de burocrata de negócios, a favor de uma como tipógrafo, lhes deu permissão para abandonar o caminho em que iam, e trocá-lo pelo caminho que realmente queriam percorrer. “Devo avançar”, diziam eles.

Sinto que é o meu dever continuar a fazer estas rachas na nossa sociedade desumana, para que outros tenham o espaço para viver as suas vidas. E, os espaços que eles criam, expandam as rachas para outros, assim como o espaço que eu crio expande as rachas deixadas pelos meus antepassados. Um dia, o nosso crescimento fará ruir as paredes que separam a nossa humanidade.

Eu tento tipografar a existência de um mundo, que seja acolhedor e sustentável, tal como o Universo é para mim. E, incito outros a agitar, agitar, agitar, por um mundo que seja acolhedor e sustentável para eles. Eu imprimo pela glória do meu povo.” — Amos Paul Kennedy Jr.

As pequenas rachas que fazemos na nossa realidade, as micro-fissuras que permitem o espaço para que outros continuem nos seus caminhos de construtores criativos, são feitas de ingenuidade. São a nossa interpretação deste mundo.

Ser-se ingénuo é o impacto total de milhões de micro-fissuras numa estrutura que não se quer podre. Sê ingénuo. Sê tolerante. Sê construtivo. Sê criativo.

E, se leram até aqui: Parabéns! Agora deixem-nos um “Olá” e uma opinião construtiva. Obrigada e…

Desejo-vos uma semana criativa.

Obrigada e Até Breve!

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