
Olá! Sê bem-vindo a este [recursos do escritor].
Se já viveste umas décadas e acumulaste tarefas, trabalhos e, quiçá, funções (estas últimas são as piores acumulações), conheces a realidade da necessidade, de encaixar tudo o que há para fazer, num curto espaço de tempo.
Vinte e quatro horas por dia, para o nível requerido, é um curto espaço de tempo.
Como encaixamos, então, tudo o que há para fazer?
Não sei. Para ser sincera, o burnout foi o meu destino mais fiel, tal como outras maleitas da vida moderna. No entanto, estou certa de uma pequena realidade da vida: há futuro após o burnout.
Assim, como há vida após qualquer circunstância menos boa… pode não ser uma boa vida, ou pode não ser aquilo que esperávamos e, definitivamente, não é tudo aquilo que nos fizeram crer que seria. Afinal, é suposto vermos alguma justiça poética nas agruras da vida. Mas, confesso que já preciso de óculos.
Neste momento, não ponho em causa a existência destes tipos de maleitas dos tempos modernos: burnout, ansiedade, depressão, bloqueios vários, entre outras etiquetas medicinais que fazem parte das nossas vidas.
Porém, temos exemplos construtivos. Temos modelos que podemos conhecer e, quem sabe, adoptar. Temos a experiência de outros, que sobreviveram a eventos dramáticos, e nos delegaram o conhecimento das suas vivências.
No momento, passo-vos a referência: Ruth Asawa. Artista, esposa, mãe, activista e cidadã do universo, com estudos na corrente de design Bauhaus. Podem ler mais aqui…
O que me chamou a atenção em Ruth Asawa? A gestão do seu tempo.
Ruth Asawa era mãe de 6 crianças e, em toda a sua vida adulta, o que ela sempre fez foi criar. Ser alguém que constrói: objectos, relações, família, numa existência arrancada a uma realidade à qual não podia fugir. Se pensarmos na falta de tempo, e na acumulação de actividades, Asawa tem algo de notável.
Japonesa a viver nos E.U.A., viveu em campos de concentração, versão americana, no decorrer do final da 2ª Guerra Mundial. Fonte: https://ruthasawa.com/life/incarceration/
Sobre a vida e obra de Asawa podem ver o website: https://ruthasawa.com/
Uma artista, cuja prática criativa era de constante dedicação, com os materiais que tinha disponíveis e com todo o tempo que lhes conseguia dedicar. A prática criativa não requeria tempo afastada da realidade, era feita na mesa da cozinha, ou rodeada pelas suas crianças, a quem ensinou a viver através dessa perspectiva própria de vida.
E, num mundo em que se desvalorizou a criação artística, esta forma de vida é uma perspectiva animadora. Não precisamos de um estúdio, escritório ou espaço confinado para as nossas construções criativas (não quer dizer que não o tenhamos). Precisamos descobrir o espaço mental, e não apenas o físico, que possibilite essas criações.
Porque a maioria dos problemas de bloqueios criativos são problemas de métodos utilizados e de processos
No vídeo ‘A maioria dos problemas de escrita são problemas nos processos‘ no canal de YouTube ‘Writing with Andrew‘, encontrei uma perspectiva clara e elucidativa, sobre algo que me tem perseguido há muito tempo. E, apesar de já haver uns anos, em que constatei que cada projecto precisava de um método construtivo próprio, o tema tem permanecido comigo, porque cada projecto é único e precisa do seu processo criativo.
Qual é o melhor processo para escrever um artigo? um conto? um livro? Que recursos preciso? Que caminhos trilho? que ideias alimento?
Tudo depende de mim, e das estratégias (processos) que descubro e utilizo.
“O nosso trabalho é tentar uma variedade de coisas para: a) encontrar o que funciona para ti; b) expandir o teu arsenal de estratégias de escrita; c) perceber quais as diferentes técnicas e como podem ajudar-te em situações distintas.” — Andrew (Fonte: Most Writing Problems are Process Problems)
Uma estratégia que me parece interessante:
Estou com dificuldades em escrever (claramente, a mesa de cozinha de Asawa é chamada à questão) por isso, pergunto-me ‘Porquê?’ Porque estou com dificuldades em esculpir? ou pintar? ou escrever? ou ter ideias novas? (…)
- É um problema prático? Prende-se com as condições físicas? Com a disponibilidade horária? Com a carga de trabalho? É uma questão prática?
- É um problema pessoal? Há algum assunto pessoal que está a criar pressão nos pensamentos e acções? Há um, ou vários, problemas com alguma das áreas da minha vida? É algo que afecta os meus pensamentos e as minhas emoções?
- São excessos de distrações? A minha atenção está a ser puxada noutras direcções? Os momentos, que utilizaria para criar, são ocupados por outras necessidades constantes e distractivas?
Coloquei estas perguntas à frente do meu nariz, para ir respondendo, sempre que a necessidade (ou dificuldade) surja.
Aceitar que é assim, e ir em busca de diferentes técnicas, de processos de criação diferentes dos nossos, pode aliviar nas dificuldades criativas.
Experimentar Métodos Diferentes
Experimentar novas abordagens, de aproximação a um projecto de construção criativa, serve dois propósitos: aprendemos mais sobre as técnicas de uma respectiva arte; e desbloqueamos o fluxo criador.
Numa destas aprendizagens, sobre diferentes métodos de construção criativa, deparei-me com um projecto do ilustrador Adam Ming: Manter um diário em 2026 (fonte: The best thing you can do for yourself in 2026 is to keep a daily diary).
Claro que, assim que descobri este artigo, empolguei-me logo com a ideia de criar o meu diário visual. Mas, como mantenho um diário há vários anos, cheio de palavras, e de fotografias sempre que são possíveis, optei por experimentar uma versão ilustrada dos momentos que considero “mais importantes” a cada dia.

Neste formato, não relaciono temas com acontecimentos diários através de palavras, como Ming faz. Isto, porque já o faço noutro diário. Aqui quis procurar recordar momentos importantes, expectativas e acontecimentos diários, porque me esqueço deles com facilidade, e porque esta pode ser mais uma peça do meu processo pessoal de construção criativa.
Estou orgulhosa do meu esforço, confesso. Porque, sendo uma curiosa de muitas actividades artísticas, e perseguindo variadas ao longo dos tempos, o desenho é aquela que é sempre, particularmente, decepcionante para mim (nunca fica como imaginei e sei sempre que podia fazer melhor, apesar de não saber como).
E, sim, aceitei que os olhos são círculos, as faces são quadradas e que a minha versão de desenho é pior que infantil. E, no entanto, estou satisfeita com o meu esforço.
“A Vida não pára para que tu te transformes num Artista. Ao invés, ser um Artista é algo que tu fazes em resposta à Vida.” — Adam Ming
Suponho que, ser uma amálgama de actividades criativas, é a minha prática habitual. E, na necessidade de relembrar pequenos momentos diários, como o dia estava escuro como breu e chuvoso como nas monções, permito-me um pequeno acto criativo em torno disso. Parece chuva? Nah. E, no entanto, é um momento capturado.
Voltando a citar Ming:
“Um Diário é um banco de ideias esperançosas.”
Se podemos alimentar a criação de ideias e a busca por, mais e melhor, criatividade, qualquer projecto pode ajudar nessa demanda. E, não faltam artigos sobre a importância de manter um diário, ou um registo escrito do que fazemos e vemos.
As relações entre duas actividades, entre momentos de busca e de dúvida, entre actos humanos e considerações, trazem-nos possibilidades de construção criativa.
E, podia usar uma fotografia, uma imagem ou, até mesmo, uma gerada por um programa qualquer? Claro que sim. Mas, não era minha. E, fotos e imagens já uso nos outros diários e calendários. Quanto às geradas por IA, fujo delas com vigor.
Nestas exposições de outras artes, e na constante busca por processos diferentes dos que estou a usar, ou usei, incrementa a quantidade de meios que posso adoptar nos projectos do presente.
Por exemplo, comecei a planear um conto. Decidi usar um caderno de rascunho, cheio de imagens relacionadas, com rabiscos de ideias possíveis, símbolos e relações que quero incluir. Incluo o tema, ou os temas, relacionados. Vou brincar com as possibilidades, enquanto faço pesquisa que me permita dar forma a esta história. Escrevo à mão, no caderno mais barato que consigo encontrar, com a caneta que uso para quase tudo. Volto a ele, cada vez que penso em algo que pode servir o propósito deste conto. E, acima de tudo, dou-lhe tempo para marinar. Porque, tal como na culinária, desejo um conto com sabor.
Como servimos a sociedade com a construção criativa?
Regressando às contemplações sobre o papel dos construtores criativos na sociedade, que tem sido um tema neste Janeiro de 2026, e à nossa responsabilidade em defender uma existência mais rica em conteúdo, protectora dos que não se sabem proteger, focada na sabedoria e no constante melhoramento pessoal, empática e observadora, dedicada a um trabalho positivo, e cuja voz não se deixe calar perante os crimes cometidos, deixo-vos um excerto do discurso de Albert Camus, na cerimónia de entrega do Nobel da Literatura (1957).
“Cada geração se sente, sem dúvida, condenada a reformar o mundo. No entanto, a minha sabe que não o reformará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrupta onde se mesclam revoluções decaídas, tecnologias enlouquecidas, deuses mortos e ideologias esgotadas, onde poderes medíocres podem hoje a tudo destruir, mas não sabem mais convencer, onde a inteligência se rebaixou para servir ao ódio e à opressão, esta geração tem o débito, com ela mesma e com as gerações próximas, de restabelecer, a partir de suas próprias negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer. Perante um mundo ameaçado pela desintegração, onde nossos grandes inquisidores tentam estabelecer definitivamente o reinado da morte, ela sabe que deve, numa espécie de corrida maluca contra o relógio, restaurar entre as nações uma paz (que não é aquela da servidão), conciliar novamente o trabalho e a cultura, e recriar entre todos os homens uma Arca da Aliança. Não há garantias de que ela possa cumprir essa tarefa imensa, mas é certo de que, em qualquer lugar do mundo, ela já tem o desafio duplo da verdade e da liberdade, e, ocasionalmente, sabe morrer por ele sem ódio.” — Albert Camus, discurso do Nobel da Literatura em 1957.
Fonte: Albert Camus – Banquet speech
Como construtores criativos, aceitar que há muito que outros, antes de nós, viveram e descobriram. E, que fazemos bem em ir em busca desse conhecimento, tão relevante para enquadrar as vivências da actualidade e para nos ajudar a impedir que o mundo se desfaça.
Por isso, usemos a mesa de cozinha para criar, talvez seja o método que funciona naquele projecto encravado. Vamos em busca das respostas aos nossos impedimentos pessoais. Aceitemos uma actividade criativa, mesmo que a façamos menos do que perfeita ou, francamente, mal. E, aceitemos a nossa responsabilidade social, para com o acto de criação, e o conhecimento histórico.
Talvez, assim, possamos deixar algo de valor para os que vêm depois de nós… e, com esperança, para os que me lêem.
E, se leram até aqui: Obrigada! Agora deixem-nos um “Olá” e/ou uma opinião construtiva.
Desejo-vos uma semana criativa.
Obrigada e Até Breve!

