Opinião: “A room of one’s own” de Virginia Woolf

A room of one's own de Virginia Woolf

Quanto de credibilidade se perde quando se é mulher? Quantas dificuldades se encontram quando se escolhe ver as coisas por outro ponto de vista? Quanta legitimidade se destrói quando se escolhe tirar a própria vida?

O que se retém de Virginia Woolf como conhecida escritora clássica, a princípio, seria “Mrs. Dalloway” e, a seguir, o suicídio. Foi o que eu retive durante anos. Talvez tenha sido por isso, por puro desconhecimento e comichão que alguém possa tirar a própria vida, que levei tanto tempo a ler uma das obras mais relevantes de/para uma mulher que escreve.

Virginia Woolf consegue, neste seu discurso/ensaio, tocar em temas que, cerca de 100 anos depois, ainda são relevantes para a comunidade literária e a sociedade em geral.

Sem dramatização exacerbada, o que poderia produzir uma obra inflamada pela raiva, Woolf dá-nos vislumbres de época e de realidades, ajudando-nos a colocar em perspectiva o real avanço do papel da mulher na literatura mundial.

Aliás, ela é a primeira a reconhecer o efeito nefasto que trazer as nossas lutas pessoais para as páginas de uma obra pode ter.  Assim como, não isenta de responsabilidades o homem que faz o mesmo, de formas até ridículas, nas suas tentativas de compreender o outro elemento da espécie humana.

Francis Spalding, na introdução da obra, começa por destacar que muito mudou desde 1929, na posição que as mulheres ocupam na sociedade. Muito mudou, é verdade. 100 anos depois, e a mulher tem trabalho mais diversificado, menos dinheiro que a sua contra-parte por ocupação igual, continua menos respeitada, violentada sem punição adequada do infractor… e, falamos apenas dos países ditos desenvolvidos. Mas, dentro da mentalidade de não remexer o cesto das cobras com um pau demasiado curto, avancemos…

Spalding afirma que este texto é uma obra de arte. Concordo em absoluto. É um texto para quem procura uma leitura que dê muito em que pensar. Tem todas as características de um discurso emocionante, com argumentos inteligentes e exemplos perfeitos, que contribui com valor histórico para os debates da actualidade sobre os papéis da mulher na sociedade.

É um produto de intensa reflexão sobre a mulher, a sociedade da época, a literatura e as suas obras à data, assim como uma chamada de atenção sobre tudo o que é importante na vida.

Mas podem dizer: Nós pedimos para falar sobre a Mulher e a Ficção – o que é que isso tem a ver com Uma divisão da casa para si? – A room of one’s own

Claramente, nada que fossem relacionar, entender, ou aceitar depois… Mas, isto sou eu a ver as coisas na ótica do texto aqui opinado. A relação entre a Mulher e a Ficção é transposta neste texto no sentido da importância de uma mulher escritora ter o seu Espaço (físico, mental e económico) para poder desenvolver a sua arte.

(…) o primeiro dever de quem discursa, a entregar após uma hora de palestra, é um pedaço de verdade pura envolvido nas páginas dos teus apontamentos… Tudo o que eu podia era oferecer uma opinião sobre um pequeno ponto – uma mulher deve ter dinheiro, e uma divisão da casa para si, se pretende escrever ficção. – A room of one’s own

Woolf fundamenta um ponto de vista mas propõe que vejamos o que ela irá dizer como ficção. O que faz todo o sentido se contemplarmos a realidade da época… Não consigo começar a imaginar a forma como este discurso foi recebido pela plateia masculina.

(…) sobre a mulher e a ficção, a necessidade de chegar a uma conclusão sobre um tema que desperta todo o tipo de preconceitos e paixões, fez-me debruçar o meu rosto em direcção ao chão. – A room of one’s own

Numa vivência, mais ou menos, ficcionada acompanhamos uma mulher na sua vida diária, em Londres. Nas ruas, no campus universitário, na biblioteca, num café, contemplando todas aquelas coisas que ela pode fazer, e aquelas em que seria perseguida pelos guardiões do que seria impróprio para ela.

Acompanhamos as leituras que fez, os poemas que a moveram, os grandes clássicos que estavam na moda. Em simultâneo, são-nos mostradas as escolhasa room of one's own impossíveis das mulheres ao longo dos tempos. Para colocar em perspectiva, a mulher desfrutava do direito ao voto há apenas nove anos quando este texto foi escrito.

A personagem principal desta história, enquanto procurava o que escrever sobre a Mulher e a Ficção, deparou-se com os homens das guerras e da literatura, que apregoavam a inferioridade feminina, e enchiam prateleiras de textos de idoneidade e gosto duvidosos.

Deparou-se com a pobreza extrema e de como as mulheres não podiam ter qualquer dinheiro seu. E, no entanto, podiam parir todos os filhos que (não) lhes aprouvessem. Como restaria tempo para a ficção se os filhos consumiam todo o tempo? A pobreza e a insegurança eram a tradição feminina, não a literatura, a educação e o ócio.

Perguntando-se, que efeito tem a pobreza na ficção? E, pergunto eu, nas outras artes? Que condições seriam necessárias para a criação de obras de arte?

Mas, “A room of one’s own” é composto por muito humor. A mestria de Woolf passa por abordar temas pesados e entregá-los com verdadeira possibilidade de nos arrancar gargalhadas.

Porque diz Samuel Butler, ‘Homens sábios nunca dizem o que pensam das mulheres”? Aparentemente, homens sábios não dizem mais nada. – A room of one’s own

Porque havia tanta raiva, tanto ódio, tanto desdém para com as mulheres por parte desses professores e escritores publicados? Por parte dos homens no poder? A maioria dessas obras escritas sem qualquer valor científico, mas carregados de emoção ao invés de verdade.

O transitório visitante deste planeta que lesse este texto, pensei, não poderia deixar de perceber, mesmo por este testemunho desconexo, que Inglaterra está sobre o jugo do patriarcado. Ninguém, que esteja no seu juízo perfeito, podia não ver a dominância do professor. São dele o poder, o dinheiro e a influência. Ele é o proprietário do jornal, o seu editor e o sub-editor. (…) Com excepção do nevoeiro, ele parece controlar tudo. Contudo, ele está zangado. Eu sabia que ele estava zangado pelas suas manifestações. Quando leio o que ele escreveu sobre as mulheres, pensei no que dizia sobre ele mesmo. – A room of one’s own

Saber que todos estes livros existem é esmagador. Aqueles em que afirmam inferioridades e incapacidades várias. Saber que todos estes textos foram escritos e, são ainda defendidos por muitos, é uma ideia aterradora.

Aprendemos na escola que existem livros cujas perspectivas influenciaram massacres de proporções bíblicas. Ficção e invenção disfarçada de ciência, cheia de opiniões tendenciosas e má pesquisas orientados para distinguir aqueles que querem sentir-se superiores e só conseguem senti-lo à custa de inocentes.

Em “One room of one’s own” podemos seguir-lhes os passos, mas o alvo são apenas as mulheres.

A vida para ambos os sexos é (…) árdua, difícil, uma luta constante. Ela pede-nos coragem e força gigantes. Talvez, acima de tudo, como criaturas de ilusão que somos, a vida requer confiança em nós próprios. (…) e como podemos gerar esta qualidade rapidamente? Pensando que outras pessoas são inferiores a nós. Sentindo que temos uma qualquer superioridade inata. – A room of one’s own

Não era a capacidade que impedia as mulheres de escrevem extraordinária literatura, como parecia ser possível para a maioria dos homens. As condições de vida das mulheres não permitiam o conhecimento, a estabilidade e as condições necessárias para que estas fossem escritoras ou poetas.

A história da irmã de Shakespeare é uma representação exacta de tantas realidades da época e a resposta fácil para a pergunta: Porque não se dedicam as mulheres aos escritos de ficção?

Mas qual seria o estado de espírito mais propício ao acto de criação? (…) Qual seria o estado de espírito de Shakespeare, por exemplo, quando escreveu Lear (…)? Nada foi dito pelo artista sobre o estado de espírito até, talvez, o século dezoito. (…) no século dezanove a autoconsciência havia-se desenvolvido tanto que era hábito os homens de letras descreverem o que lhes ia na mente em confissões e autobiografias. – A room of one’s own

Quem escrevia não se debruçava sobre as dificuldades em escrever ou em ser pago pelo que escrevia. Shakespeare é dado como exemplo porque nunca escreveu em lado algum o que sentia ou pensava enquanto criava as suas grandes obras.

Woolf aborda esta questão, e o desinteresse do Mundo pelas queixas constantes dos homens que, querem escrever, mas que se lamentam consecutivamente pelo desinteresse com que são recebidos pelo mundo (qualquer semelhança com os dias de hoje é pura coincidência…). Quanto à parte económica:

(O Mundo) naturalmente, não irá pagar por aquilo que não quer. – A room of one’s own

E, mesmo neste ponto, a sociedade atribui duas posturas diferentes para homem e mulher que escolham escrever:

Poderosos poetas miseráveis nas suas mortes. (…) Mas, para as mulheres, (…) o mundo não lhes dizia, como dizia para os homens: Escreve se quiseres, não faz qualquer diferença para mim. O mundo dizia-lhes com uma gargalhada: Escrever? Para que serve o que tu escreves? – A room of one’s own

Intelectualmente, não se esperava nada das mulheres. Havia apenas o que ela não podia fazer e o que era incapaz de fazer. E, não apenas na escrita, mas noutras artes e na vivência do mundo em geral. Acho que todas nós, cem anos depois, já vivemos isto de várias formas e em diferentes contextos.

(…) é a natureza do artista preocupar-se demasiado com aquilo que é dito sobre ele. (…) qual estado de espírito é mais propício ao trabalho criativo, porque a mente de um artista, para atingir o esforço prodigioso de libertar por inteiro a obra que tem dentro de si, deve ser incandescente (…). Não deve existir obstáculo em si, nem assunto externo recalcado. – A room of one’s own

Este ponto pode ser alvo de debate. Devemos escrever sobre o que nos consome; só escrevemos a partir da experiência que temos; escrever ficção implica uma mente limpa de controvérsias, o que deixa muito espaço para queremos melhorar como pessoas e, não apenas, como escritores… Mais alimento para o pensamento.

Depois, Woolf entra no capítulo das pouca mulheres que escrevem, de como o fazem e em que condições. E, também, como os grandes nomes da literatura feminina lidaram com os preconceitos ao escreverem os seus textos.

O que acometeria Jane Austen e Charlotte Bronte ao escreverem as suas histórias numa sociedade tão regrada por influências masculinas? E, como isso afectou a produto final?

E, mais, o que sabiam os homens que escreviam a ficção de época sobre mulheres, que pouco sabiam sobre elas?

Woolf traz-nos, ainda, outras mulheres que conseguiram ultrapassar as barreiras de preconceito quanto à sua capacidade intelectual, autoras de obras de não ficção. Autoras em áreas tão masculinas que a presença de uma mulher era ofensa em si mesma. O que teria sido, para elas, saltar esses muros tão altos?

Assim como, outras obras mais (suas) contemporâneas, e as novidades que estas traziam e poderiam trazer. No seu afastamento do conhecimento, o que ficara por descobrir sobre as mulheres e as relações entre estas? O que não fora testado e explorado sobre as relações entre pessoas?

Como haviam empobrecido a literatura (e o mundo) com as portas fechadas às mulheres? E, que coragem seria precisa, para desvendar os mistérios guardados até ali?

Tudo o que tens para explorar, disse a Mary Carmichael, fá-lo segurando firme a tocha na tua mão. Acima de tudo, deves iluminar a tua própria alma com as suas profundidades e baixios, com as suas vaidades e generosidades, e dizer o que a tua beleza significa para ti, ou a tua simplicidade (…) deves aprender a rir-te, sem amargura, das vaidades, ou peculiaridades (…) do outro sexo. Pois, existe um alvo do tamanho de um xelim, na parte de trás da cabeça, que nenhum de nós consegue ver por si próprio. – A room of one’s own

Bom conselho para si própria e para quem escreve. E, para os outros, também…

Tanto mais havia para escrever sobre os temas, e argumentos, deste ensaio. Aconselho a sua leitura em especial aos que gostam de textos que vos deixem a pensar sobre questões morais, o papel da mulher, a vida em sociedade, e a sua evolução, e aquilo que desconhecemos da História.

“A room of one’s own” é uma excelente leitura para escritores porque vemos a mestria do texto e esta incita-nos a pensar melhor, a escrever melhor.

O seu pedacinho de verdade pura, que ponderei não incluir para não fazer spoiler (mas isto não é ‘A Guerra dos Tronos’ ou ‘As palavras que nunca te direi‘):

(…) ela (obra) virá se trabalharmos para ela e, esse trabalho, mesmo em pobreza e na obscuridade, vale a pena. – A room of one’s own

Uma leitura que vale a pena. Aconselho…

(excertos traduzidos por Sara Farinha)

Já leram? Um xelim pelos vossos pensamentos construtivos…

 

 

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