
Olá! Sê bem-vindo à [minha biblioteca].
Confesso! Fui enganada. Não que isto seja um evento raro… mas, andava em busca de livros não-ficção, em português, sobre temas que me interessassem, e deparei-me com “Montaigne ou a Vida Escrita” por Eduardo Lourenço. E, como no meu programa pessoal de estudos tinha Montaigne como referência a investigar, encomendei-o sem pensar muito no assunto.
Achei que, talvez ajudasse aceder à obra de Montaigne, através de olhos e opiniões de outros. Não serviu para isto, mas serviu para me apresentar à obra de Eduardo Lourenço. Algo que agradeço.
Algures, quase no fim da primeira leitura desta obra, e como opinião geral, escrevi:

OK. Transcrevo, em baixo, porque a minha caligrafia + abreviaturas não são fáceis de ler.
Como usar o nome de Montaigne para vender um livro? Assim… acho que é o ensaio “menos” conseguido deste conjunto. Apreciei muito mais os restantes ensaios, que acho relevantes para compreendermos uma parte do que se passa no mundo, neste momento.
E, obra concluída, mantenho o que escrevi… apesar de, na releitura, ter reparado noutros pormenores que me suscitaram um interesse renovado.
Este livro, que se faz dos seguintes ensaios:
- ‘Montaigne ou a vida escrita’ — um ensaio sobre Montaigne, que empresta o seu título a esta obra;
- ‘O nosso tempo e o tempo dos outros’ — a lição inaugural da sua Cátedra de Bolonha em 2007;
- ‘Da Europa como Cultura’ — um artigo na revista Finisterra de 1989;
- ‘Divagações de um europeu à procura da Europa’ — o prefácio da obra “A Europa Desencantada”;
- ‘A Europa em questão ou <<Como é possível ser persa?>>’ — um ensaio da obra “A Europa Desencantada”;
- ‘Uma epopeia singular’ — e o prefácio à edição de “Les Lusiades”.
Não me arrependo nada deste engano. Pelo contrário, conhecer estes excertos da obra de Eduardo Lourenço, filósofo, ensaísta e professor, nascido na Guarda e de experiência internacional no âmbito educacional e cultural, despertou-me interesse em conhecer um pouco mais da sua vasta produção literária.
Não vou afirmar ter algum tipo de ideia concisa sobre todos os temas que Eduardo Lourenço contemplou, no decorrer da sua vida, e produção da sua obra. Mas, quero partilhar um pouco do que esta curta colecção de ensaios suscitou. Também, não irei comentar todos os ensaios, apenas aqueles que me despertaram mais interesse.
No prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins cito:
“(…) podemos entender a obra de Eduardo Lourenço, ao longo da vida, fazendo da literatura, das artes e dos acontecimentos do mundo os temas das suas constantes interrogações. (…)”
“Os textos de Eduardo Lourenço que constituem este volume procuram revelar como o género ensaístico procura seguir a lição de Montaigne, no sentido de nos descobrirmos a nós mesmo, num mundo controverso e difícil.”
Sobre o ensaio ‘Montaigne ou a vida escrita’
Começo por apontar que, temos uma quantidade de referências dignas de pesquisa, para uma melhor compreensão dos temas que compõem este ensaio. Mas, tal pesquisa, apesar de poder entrar para a lista de ‘referências a procurar’, não é condição essencial para esta leitura.
Apesar de, olhando bem para o caso, este facto poder ser parte do motivo pelo qual a concretização deste ensaio não ressoou em mim. É verdade, que me faltam certas referências, afinal a minha educação formal foi em Sociologia e não Literatura, Filosofia ou História. Há muito que tenho noção que me faltam certas bases e, sendo algo que tenho procurado colmatar, também tenho noção que há coisas que só uma sala de aulas ensina de uma forma estruturada.
“Se Montaigne não sabia quem era, e se, para o saber, se pôs a escrever, sabia que era. (…) Não tendo encontrado nenhum outro, no seu caminho, senão a si mesmo, converteu em escrita o interminável espanto deste encontro.”
Contemplar o indivíduo, como um objecto difícil de compreender, é força motriz para a escrita. O que faz muito sentido e, para mim, significa que todos os esforços que possamos fazer para colocar essa análise no papel é um esforço digno nessa tentativa de compreensão.
“Poucos escritores podem gabar-se de ter inventado um género literário destinado a um tão grande sucesso. Mas a invenção do <<ensaio>> não é apenas um acontecimento de ordem literária (…) chegamos a um continente muito mais desconhecido, que é o de nós mesmos.”
E, esta foi a porta de entrada para a obra de Montaigne e, por acaso, de Eduardo Lourenço: compreender o contributo para a construção do ensaio como género literário.
“O milagre de Montaigne é que ele fala de si sem se tornar o centro do mundo (…) Os Ensaios, porém, não são <<memórias de um egoísta>>, porque não são memórias, mas uma imersão na clareza natural do presente, circunstância renovada das coisas, dos seres, ou dos acontecimentos que nos rodeiam (…)”
E, do contributo dos ensaios para o pensamento literário da época em questão e subsequentes.
“O campo de Montaigne é o da Humanidade (…) com os olhos já bem abertos para os mistérios da natureza, presa de sonhos de dominação e de poder cujo alvo já é a Terra, finalmente contornada. Mas esta humanidade está sempre sujeita aos mesmos desvios da mente, em guerra consigo mesma em nome de verdades que lhe escapam (…)”
Numa vivência completamente distinta da nossa, num tempo de mitos, crenças e lendas, encontramos as bases das realidades actuais: a humanidade como elemento destruidor, símbolo de poder e domínio, em constante guerra consigo mesma e com todos os seus membros.
“O que Montaigne entendeu é que nenhuma realidade é mais ficcional do que a nossa própria realidade, que o livro que tivesse um tal desígnio — como é o caso dos Ensaios — seria, em modo de antideliberada ficção, o mais ficcional dos livros.”
Como consideramos então os ensaios como género de pleno direito? Ficção? Não-ficção? Porque, de facto, podem ser ambos e, por vezes, sê-lo em simultâneo.
“(…) Montaigne, arrebatado pelo espectáculo da nossa fraqueza e da nossa ignorância, não quer nem pretende reivindicar qualquer estatuto divino para as suas palavras.”
Afinal, quando escrevemos sobre a humanidade, digladiamo-nos sempre com as contradições, dicotomias que nos povoam. É preciso ser-se lúcido nas contemplações e francos perante as nossas observações. Pois, é a imagem do outro um reflexo nosso, sobre o qual reflectimos… e onde reflectimos o melhor e o pior de nós.
“Quando se olha para a nossa vida sem medo, mas também sem ilusão, como fez Montaigne, pouco importa saber que estatuto sobressai do seu pensamento, como desconfiança perpétua para com a Sabedoria.”
Continuei entusiasmada para os “Ensaios” de Montaigne, e com muita pena de não ser capaz de ler, directamente, Francês. Preferia uma fonte primária mas, antes traduzida do que nenhuma.
‘O Nosso Tempo e o Tempo dos Outros’ — Lição Inaugural da Cátedra Eduardo Lourenço — Bolonha (2007)
Este é um ensaio sobre a visão cultural que a Europa tem sobre si própria. E, com uma localização histórica, colocada nos tempos de importância do Mediterrâneo, Eduardo Lourenço coloca a primeira ideia controversa em cima da mesa:
“Durante milhares de anos, o Mediterrâneo foi o teatro da ópera humana, que por comodidade, do ponto de vista europeu, designamos de história.”
Este centrismo egoísta de tudo o que se passa de importante no mundo, e na História, passa-se na Europa é por fim colocado em perspectiva.
“Pela primeira vez, os europeus, enquanto actores culturais, foram confrontados, não só do interior para o exterior, numa temporalidade própria, mas também, digamos, finita. Isso não será indiferente ao olhar da ligação que temos com a história como cultura, a nossa e a dos outros, agora percebida e vivida não só como diversa nas suas manifestações, mas como suficientemente outra para não nos permitir pensar que a cultura é um conceito unívoco e universal em que a pluralidade das culturas se compreende e se transcende a ela mesma.”
O conceito de Cultura é, por necessidade extrema, algo a ser compreendido de uma forma diferente daquele que tem sido até aqui. E, neste ponto, acho que ainda padecemos deste etno-centrismo cultural e que será muito difícil mudar de perspectivas… se os mais recentes acontecimentos políticos, nos países europeus, são um indicador fidedigno.
“Desde o momento em que tomaram consciência de si próprios, os europeus — tanto Heraclito como Hesíodo — viveram na convicção de que o seu tempo, o das suas obras, o dos seus deuses e dos seus dias, bem como o dos seus sonhos, era partilhado por toda a humanidade.”
E, seguimos este argumento, com ligações bem presentes às convicções de sermos donos do tempo, donos da história, donos do ritmo abstracto da mudança cósmica e donos do imaginário da humanidade inteira. De conquistadores a mediadores, a Europa tem aprendido com os sucessivos choques culturais.
“Na verdade, é só para nós, europeus da Europa, que o conceito de <<fim de século>> ou de <<fim de milénio>> tem esta ressonância única.Sentimos bem que estas fronteiras não têm o mesmo sentido para as grandes culturas não europeias — China, Japão, Índia, Islão — ou que elas não evocam ou enquadram os mesmos valores, os mesmos fantasmas, os mesmos sonhos, esperanças ou nostalgias.
Não vou aprofundar muito mais este texto, mas digo-vos que vale a pena lê-lo na íntegra. Quero só deixar mais esta citação:
“São culturas que por razões contrárias não podem <<pecar>> como a cultura europeia, cultura da falta e da culpabilidade. Não passa pela cabeça de nenhum japonês, nem de nenhum americano (apesar da herança cristã) imaginar que a sua cultura, apesar dos horrores em que os seus países se sentem culpados, deva ter em conta uma marca indelével como a que Auschwitz deixou na consciência europeia.”
Vivemos ainda muito do simbolismo dos nossos actos passados e, gostava imenso que, aqueles que se esqueceram do que se fez na Europa, fossem relembrados do que aconteceu e, aos outros, o que acontece quando não somos fortes para defender a liberdade.
“… Tal como na esfera política não nos encontramos mais no centro do mundo enquanto actores da história, imaginamos que enquanto cultura fomos postos para trás dessa mesma história. Mas fomos nós que nos pusemos para trás, fantasiando em excesso a sedução dos outros e alimentando enormemente a nossa imagem.”
‘O nosso tempo e o tempo dos outros‘ é um texto que faz sentido e que contextualiza muitas das correntes da actualidade. Suponho, que pudéssemos fazer melhor com a noção que somos nós que temos de assegurar a prevalência da nossa cultura. E, isto não significa regressos ao passado, mas apoios no presente para preservarmos o nosso futuro. Significa dignificar quem somos e os nossos valores.
Sonharam uma Europa unida e forte que, em conjunto, defende os valores próprios e impede o repetir de atrocidades. Esta deve ser a nossa cultura.
‘Da Europa como Cultura’ — artigo na revista Finisterra na Primavera de 1989
Neste texto, Eduardo Lourenço contempla a realização de uma consciência europeia e o que esta significa e do que devia significar.
“É provável que, dentro em pouco, a Europa constitua um supermercado florescente, o espaço dourado por excelência de uma sociedade hiperconsumista (…)
Se este argumento não é (ou foi) incendiário, não sei o que seria e, no entanto, agora que já se passaram uns anos desde que foi declarado, provou ser real.
“(…) a Europa será um invólucro vazio, uma realidade sem alma, nem memória. Uma Europa cortada da sua relação com os valores culturais que criou, indiferente à sua herança e à sua riqueza cultural (…)
As constatações sobre a existência de uma cultura europeia autónoma são, neste ensaio, dignas de muitas outras considerações. E, todas ela envolvem um conhecimento da nossa história, e daquilo que nos levou a perseguir um caminho de descobertas e imperialismos. Inventámos uma atitude cultural, e espalhámo-la pelo globo, defendendo-a com armas e com Pensamento.
“Todas as civilizações, todas as culturas conhecidas, (…) fizeram de si mesmas e do mundo uma história global, todas se julgaram numa relação fundadora, privilegiada com a Verdade — (…) e todas, (…) são culturas de sageza, de certeza e de paz interior. Todas, alvo a nossa. A cultura europeia, (…) criou um saber digno desse nome, o da Ciência, (…) é uma cultura de inquietação, uma cultura da angústia e da dúvida, quer dizer, uma cultura de desafio radical aos deuses, como figuras da certeza.”
Cada civilização é o centro do mundo. E, a civilização europeia contestou as bases religiosas desse mundo. (Será por isso que o primeiro ataque é sempre dirigido à Ciência?)
“(…) só os europeus entretêm com o que se chama Cultura uma relação dramática ou até, com mais exactidão, trágica. (…) porque só para eles a cultura se definiu como uma forma de comportamento intelectual e espiritual sem outro fundamento que o de diálogo do pensamento consigo mesmo, para lembrar a fórmula de Platão, um dos pais fundadores da cultura europeia. Esta tentativa de criar uma ordem autónoma de conhecimentos e de valores, (…) Filosofia, é a verdadeira origem e imagem de marca da Europa.
Por isso, me faz tanta espécie esta necessidade de eliminar a Filosofia, e não apenas a Ciência e a História. Mas sem este trio, sem a formação das pessoas nestas áreas, perdemos o nosso legado cultural. Mas, isto sou eu, a concluir coisas.
(…) a Democracia <<à europeia>> é precisamente o resultado de um longo conflito, já milenário, através do qual os homens europeus se foram subtraindo, (…) ao mundo da necessidade, da submissão, do privilégio do nascimento, da raça, do atraso que constitui (…) o estatuto natural dos homens. Enquanto liberdade, com sentido e conteúdo europeus, a Democracia que é a sua tradução na ordem da organização social e do Poder, não é um dado, um dom caído do Céu, mas uma conquista sempre inacabada, sempre ameaçada e a reformular em termos cada vez mais complexos e, em última análise, imprevisíveis. O seu cimento foi a audácia, o sacrifício, o sangue, mas acima de tudo, uma exigência de justeza nas ideias e de justiça nos actos.”
A Democracia foi uma evolução conquistada pela força. E, para manter esse espírito, é preciso compreender as suas raízes de luta por uma existência melhor. Este projecto político, ideológico e cultural de perfil democrático deve acautelar que a Democracia não é uma essência, é um modo de pensamento de vida que é preciso defender. A Democracia não é mais um <<bem de consumo>> e não podemos perder a nossa memória europeia para que isto não aconteça.
“Quer dizer, se nós esquecemos o laço essencial que religa Democracia e Cultura, se esta não representa a sua pulsão original europeia, de busca do sentido para a aventura humana, tal como o modelo, longamente vigente das heranças grega e cristã, o incarnaram. (…) essa memória vacila nos seus fundamentos. A nossa cultura europeia presente é bem menos a memória desse desafio grego que fundou a nossa civilização que uma espécie de esquecimento activo dessa herança.”
A necessidade de fundar uma realidade cultural europeia que se estenda, não apenas, à economia e à política é defendido como fulcral.
“Decerto é de uma importância extrema que a Europa — de cada uma das suas culturas nacionais ou regionais como a mais vasta cultura comum futura — não se prive dos meios de criar, divulgar, comunicar os produtos do seu pensamento, da sua imaginação, da sua actividade.”
Assegurar os meios para mantermos as culturas nacionais e regionais, é garantir uma cultura europeia, em oposição com sermos tomados, e manipulados, por outras culturas e os seus produtos e ideologias culturais.
“Porventura já nada podemos fazer para que a futura cultura europeia — em particular a televisiva — seja um subproduto da civilização do divertimento que é a nossa. (…) Assistimos a um despique entre os grandes empresários do audiovisual como se o nosso destino não apenas pessoal mas europeu não estivesse em jogo. Na aparência é o triunfo de qualquer coisa que poderia designar-se de democracia cultural (…)sob esta facilidade, sob esta abundância não se esconde a mais insidiosa desestruturação da nossa memória europeia e com ela a dissolução de uma Europa <<europeia>> antes mesmo que se possa estruturar como espaço económico e sobretudo político?”
A influência de outras culturas mundiais, nomeadamente, a norte-americana, na sua existência de cultura sem raízes, é força de pressão sobre nós. Era e é, a julgar pelos desenvolvimentos da actualidade.
“A lembrança dessas marcas é-nos indispensável para nos sentirmos vivos, elas são a nossa verdadeira pele. Não haverá Europa sem a lembrança deste longo passado de dilaceramento social e cultural. A felicidade pela cultura e ainda menos a <<felicidade cultural>> não foram nunca o objectivo supremo do homem europeu, nem a sua civilização se articulou em torno do ideal hedonista ou pseudo-hedonista que é hoje servido em papel de luxo a uma parte da humanidade voluntariamente alheia aos males da maioria dos homens e até dos seus próprios.”
Nós, europeus, que vivemos num espaço de sofrimentos passados, não podemos acreditar que nos será permitido viver iludidos nos confortos recentemente adquiridos.
“A Europa como cultura só merecerá esse nome se se converter no espaço de intercomunicação que reactiva em permanência o que houve e o que há de mais exigente, enigmático, inventivo e grandioso na cultura europeia concebida como cultura das diferenças ao longo da sua História e vivendo da busca do conhecimento de qualquer coisa que possa chamar-se <<sabedoria>>. Em suma, da invenção de um caminho e de uma saída que ninguém nos deu nem pode descobrir em vez de nós.”
Para mim, e para os curiosos sobre estes temas, este artigo de Eduardo Lourenço é um mundo de informação e de relacionamento de temas que, até podem parecer distintos, mas, não são. Fazem todos parte da mesma evolução histórica que nos formou como povo europeu.
Fico-me por aqui, no resumo com pózinhos de análise desta compilação de textos pela mão de Eduardo Lourenço. Mas, só porque este artigo já vai longo, porque os restantes ensaios são, igualmente, desafiantes.
Os restantes artigos, que compõem esta obra, são também muito importantes na minúcia e contextualização da nossa realidade portuguesa e europeia, pelo que, também os recomendo como leitura atenta.
Peço que deixem os vossos comentários, ideias, sugestões, nos comentários a este artigo. E, Obrigada! Agora, deixem-nos um “Olá” e/ou uma opinião construtiva.
Desejo-vos uma semana criativa.
Obrigada e Até Breve!
