Os horrores persistem, mas nós também — Esperança, Desinspiração e Realidade

os horrores persistem

Olá! Sê bem-vindo a este [palavras soltas]… e, não se deixem enganar pelo tom jovial deste ‘Olá!‘, porque este texto é sobre as consequências do estado do mundo sobre a Esperança, a pressão da Desinspiração, e os meus esforços para lidar com estas duas Realidades.

Mas, nós conseguimos superar isto.

Acho que nunca um artigo tinha visto tantas iterações como o presente. E, isto acontece, porque me sinto insegura quanto ao que posso/devo partilhar e, porque não me sinto bem a espalhar a minha desinspiração, quando sei que a esperança é um antídoto melhor.

No panorama geral, as coisas estão difíceis. Para os que estão a morrer, em guerras sem sentido, está infinitamente pior e estou horrorizada com a displicência com que se tratam estes assuntos, e de tudo o que a comunidade internacional permite.

E, (as coisas estão difíceis) para os que não têm escolha, ou não têm qualquer percepção de que têm poder, para mudar alguma coisa para melhor. Encaixo-me neste grupo.

Acho que muitos de nós se sentem assim, assoberbados pela quantidade desregrada de acções desumanas, que ganharam este poder totalitário, de se dispersarem sem qualquer controlo.

Ser-se estúpido, e ter o poder para prejudicar os outros, é um perigo (artigo interessante: Como detetar uma pessoa estúpida com a “lei dourada da estupidez” de Carlo Cipolla).

E, como pessoa desinspirada, que sente pressão acrescida quando, aquilo a que se propõe, é inspirar os outros, a pergunta que me persegue é:

Como inspiro outros, quando me sinto tão… em baixo? Quando não vejo grande esperança na mudança para melhor?

Porque não consigo fingir que não está a acontecer.

Não desejo desinspirar ninguém. Pelo contrário. Acredito que precisamos de nos manter conscientes e equilibrados — por mais que, por vezes, nos pareça impossível, — e que continuemos a criar com intenção e propósito.

Na minha busca pelo equilíbrio, contemplei (algumas, fui obrigada a contemplar) as seguintes circunstâncias:

  • Tempo

Deixar passar o tempo. Diz que, o tempo cura quase tudo. Quer dizer, o desgosto não se cura, mas é aliviado pela passagem do tempo, e a distância colocada entre o evento e o seu resultado emocional. De uma forma geral, deixar o tempo passar, enquanto nos distanciamos do evento que resultou no choque, é essencial para que a perspectiva sobre o assunto se altere.

Com isto, não aconselho a fazer a dessensibilização, a que o excesso de exposição a algo, nos provoca. Mas também, não é possível o tempo minorar o peso do que aconteceu, de forma a ser como se nunca tivesse acontecido. O que o tempo nos possibilita é a oportunidade de colocar as coisas sob uma outra perspectiva.

Por isso, dar-nos o tempo que necessitamos para compreender o que aconteceu, sem reagirmos de forma impulsiva… o que justifica as 3 versões deste artigo que não vão ver a luz do dia. Esta sou eu, a procurar a contenção que tantas vezes me escapa.

  • Foco

Manter o foco no que é importante. Eliminar o barulho que nos circunda em todos os momentos do dia e concentrar no importante.

Não permitir que as redes sociais, os canais de notícias, as opiniões de outrem, as invenções de IA ou de pessoas com interesses no caos, nos distraiam daquilo que realmente importa. Para mim: os direitos humanos, a moralidade, a justiça, a vida humana e a dignidade.

Focar no que é importante significa ignorar tudo o que não é.

Podem gritar obscenidades, aludir a ilegalidades, e imoralidades, mas se sabemos o que é certo, não são essas as coisas a que respondemos. A nossa resposta está em escolher os que nos representam melhor, e em manifestarmo-nos quando eles querem ceder, perante o peso dos outros, no sistema. Defender a Democracia, para que esta nos defenda.

  • Energia

Proteger a nossa energia. Tudo o que fazemos, ao longo do dia, gasta um pouco (ou muito) da nossa energia. Energia esta que é finita. E, toda a energia gasta a controlar, não é usada para criar, o que é algo que agrava a questão da desinspiração.

Sobre isto recomendo a leitura do artigo “The Role of Deliberate Practice in the Acquisition of Expert Performance” de K. Anders Ericsson, Ralf Th. Krampe, and Clemens Tesch-Romer.

Três horas de infinite scrolling é um veneno para a energia de que dispomos. Para além de usar o tempo (que não temos), o que vemos consome-nos de uma forma perniciosa, afectando a saúde… e não apenas a mental (quem é que já tem uma tendinite/derrame/músculos doridos nos dedos que seguram o pop socket?! ou no ombro que segura o peso do telemóvel?!)

A repetição de algo fixa o conceito a reter. Se nos ligamos a 3 horas de lixo, sobre qualquer que seja o tema, que o algoritmo identificou como o nosso pessoal, o que estamos a reter? Mesmo que não estejamos a seguir nenhum dos perfis que nos mostra o conteúdo, ele aparece para vermos. Somos manipulados para reter e agir sob essas perspectivas de outrem.

Proteger a nossa energia é eliminar ter de fazer (mais) essa escolha, de uma forma constante. É fácil? Não. Ou não fôssemos nós, seres humanos, peritos em entreter vícios, e resistentes em lutar contra eles.

  • Fontes

Não é fácil desligar das fontes habituais. Elas estão por todo o lado e são essenciais à vida! Ou serão?!

A qualidade das fontes é imperativa para perceber se estamos a ver realidades ou farsas. Assim como, se um tema nos interessa, devemos procurar outras fontes, preferencialmente, fontes primárias ao invés das opiniões e  sínteses regurgitadas por um profissional qualquer, de convicções duvidosas.

Ler outras fontes, livros, estudos e ensaios sobre os temas, procurar dados científicos e fidedignidade dos estudos feitos. E, procurar fontes que são, em si, fidedignas.

Porque a representatividade de uma amostra é essencial a um estudo científico. E, a recolha de informação, de forma cientificamente regrada, também é essencial. Assim como, a isenção dos que efectuam o estudo. Há regras, que afectam a fiabilidade dos dados, e das conclusões a que se chegam, com essa informação.

Neste momento, a quantidade de estudos e sondagens, que produzem dados para consumo público, que não respeitam as regras científicas é ofensiva.

[E, o horror do que se diz serem notícias, nos canais de tv?! Tudo soa a especulação, inexactidão e espectáculo de entretenimento. A regra: ‘O quê, Onde, Como, Porquê’ desapareceu. E, as fontes? As fontes, têm fontes… é um diz que disse estonteante, sem prova ou contenção. Tudo são opiniões. E, valem o que valem.]

  • Silêncio

Preservar o silêncio. Excessos, vícios e barulhos confundem os pensamentos. Escolher o silêncio sempre que for possível, porque é preciso. Não permitir que cada minuto seja ocupado com os outros, seja ao vivo, ou em ecrãs.

Há quem lhe chame ter tempo para estar aborrecido. Pergunto, porque é a própria companhia aborrecida? Ouvir os próprios pensamentos é aborrecido? Observar o céu é aborrecido? Ver o mar? Caminhar em silêncio é aborrecido? Ir ao wc sem o telemóvel é aborrecido? Ler um livro é aborrecido? Brincar com as crianças lá de casa é aborrecido? Sei que exige mais nossa força de vontade, mas aborrecido?

O Silêncio, não como eliminação de tudo o que faça barulho, mas como o restringir dos eventos externos que provocam barulho dentro de nós.

  • Responsabilidade

Temos a responsabilidade de fazer melhor. De continuar a criar, de proporcionar outras perspectivas sobre os assuntos, e de proporcionar esperança por dias melhores.

Há um ano escrevi ‘o dever de fazer melhor‘. Agora vejo que, este era já uma espécie de prelúdio para o que estava para vir. Tudo o que se agravou no espaço de um ano (como é possível?!?).

Nele reuni 5 ideias/orientações, que sentia que podia utilizar como combustível positivo para a criatividade, e concluí que não temos como evitar o que acontece, mas temos o dever de fazer melhor do que os que vieram antes de nós (ou contemporâneos).

E, como construtores criativos temos responsabilidades acrescidas, porque temos o poder de ilustrar, e combater, aquilo com que não concordamos, mesmo que seja apenas com a tinta da nossa caneta contra o mundo.

  • Propósito

Qual é o nosso propósito? Em que acreditamos? Pelo que lutamos?

Só quem tem algo a perder é que tem motivos para o defender. Ter algo por que lutar, para procurarmos a esperança de continuarmos a observar e a criar.

A defesa daquilo que nos é mais precioso (para mim, aqueles que amo), encoraja-nos a fazer melhor, independentemente, de manter ou não o status quo. Encontramos, assim, inspiração quando estamos a defender aquilo que nos é mais precioso. Encontramos força onde começámos a duvidar se existia esperança.

Porque a vida é curta. Cenas inesperadas acontecem e pessoas, bem mais novas e cheias de força, são levadas sem aviso — como fui relembrada pelo Universo há uns dias atrás.

Fez-me pensar nesta ilustração da heyheymomo:

little life

“Apenas a viver a minha pequena vida, por vezes cheia de maravilhas. Noutras, cheia de preocupações. É uma pequena e bela vida!”

Claro que é preciso lembrar-me disto e… acreditar.

Permitir-me o espaço, o tempo e o silêncio, para sentir o que preciso sentir e, como ouvi há uns dias (aqui…), é preciso caminhar com a lembrança, por um bocado, na plataforma de embarque e, depois, enfiá-la no combóio e dizer-lhe adeus, à medida que fico a vê-la afastar-se da minha estação.

Agora que passaram alguns dias, desde a primeira iteração deste artigo, mudou alguma coisa? Sim. 

Articular todos estes pontos, e permitir que eles fizessem o seu trabalho na minha vida diária, ajudou-me a colocar em perspectiva a Realidade e a Desinspiração derivada.

Ajudou-me a aceitar que é preciso perseverar, sobretudo através do desgosto, e manter esperança. Mais não seja porque, o que não tem solução, solucionado está. E, o papel do criador é encontrar formas de expressar a realidade, seja ela qual for.

Ensinou-me a continuar a criar, a reiterar este texto, quantas vezes fossem necessárias, até chegar a algo de positivo onde, eu própria, me possa inspirar a continuar.

***

Obrigada pela atenção e peço que deixes as tuas ideias e sugestões, nos comentários a este artigo. E, agradeço-te por isso. Também, todos os comentários são analisados antes de serem públicos e tendo a responder ao fim de uns dias.

Agora, deixa-nos um “Olá” e/ou uma opinião construtiva.

Desejo-te uma semana criativa.

Obrigada e Até Breve!

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