Recursos do Escritor: As três dimensões da caracterização das personagens

Conhece tudo sobre a tua personagem e, depois, submete-a a tudo aquilo que represente um desafio.

As personagens são representações de pessoas normais que, no decorrer da história, se submetem a provações. São esses desafios que os impelem a crescer interiormente e, são as reacções a essas provações, que as definem como pessoas.

No mundo real somos definidos por aquilo que fazemos. Os outros apreendem a informação sobre quem somos, não só através aquilo que fazemos (intenção), como também por aquilo que não fazemos (omissão). Especialmente, quando algo está em causa como coragem, perdão ou criatividade.

Todos praticamos um diálogo interno. Todos temos demónios interiores que nos impelem ou retraem. Conhecer estes demónios é essencial para a caracterização profunda, afinal, é do conflito entre o diálogo interior e os nossos demónios que as boas histórias são feitas. E, tal como na vida real, são as acções das personagens que definem o seu carácter.

Como escritores esforçamo-nos por trazer as nossas personagens à vida, por colocá-los em situações complicadas e agir ou reagir. Para o fazermos bem precisamos de conhecer as dimensões de uma personagem.

Uma personagem caracteriza-se em três dimensões:

  1. A personagem que é introduzida momentaneamente numa história;

  2. A personagem que possui uma história mais profunda, da qual conhecemos o seu interior explicativo de escolhas e demónios;

  3. A personagem que age, independentemente da sua história pessoal profunda;

O objectivo do Enredo é dar às personagens algo que fazer, ao qual reagir e sobre o que decidir. Logo, o enredo é o catalisador da personagem. É ele que despoleta a acção e ajuda a caracterizar a personagem.

Mas, mesmo se o escritor criar todos os tipos de traços numa personagem, como definir os seus comportamentos, o seu aspecto e preferências; Esta informação pode ter um significado, ou então, ser apenas algo conveniente. Não é isto que define o Herói ou o seu Antagonista. Isto, estes traços, não chega para definir a personagem.

Até mostrarmos a Terceira Dimensão dos nossos protagonistas, como se comportam e reagem quando há problemas, não fizemos bem o nosso trabalho.

Porque a caracterização é uma ilustração, quando tudo se resume às escolhas que o personagem faz, quando há consequências a pender na balança. Estas escolhas podem não estar de acordo com as características da personagem, mas em última instância definem-na.

Exemplo: Não chega afirmar que o homem se preocupa com o seu semelhante. É preciso vê-lo sacrificar algo importante para o ajudar (agir em conformidade), mesmo se isso implicar sacrificar o seu ego. É essa acção que nos mostra quem a personagem é, sobretudo, se a personagem não gostar particularmente da pessoa em questão.

Não esquecer que o nosso personagem deve ser heróico, não importa que carro conduz, que tatuagens tem ou como se veste. Importa o que ele faz. O herói deve mostrar coragem, integridade, crescimento pessoal e pensamento rápido.

Esta caracterização ao nível da decisão (uma das 3 dimensões da personagem) é essencial, particularmente no fim da história, porque é onde ele mostra o seu carácter, o seu crescimento à medida que o seu herói interior emerge.

Cada personagem caracteriza-se nestas três dimensões e é a acção ou omissão que mostra o que ela é. Um antagonista pode afirmar-se cruel mas é a acção que ele executa, perante a possibilidade de ser cruel, que o confirma ou nega.

Assim, construir uma personagem está intimamente ligado à construção das cenas, dos desafios que lhes colocamos. Elas são as escolhas que fazem e, as suas (in)acções, a concretização da história.

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