[pausa de domingo] escrever é nunca parar de perguntar

um livro

Estava a ler “Poesia” de Manuel Alegre, subtítulo o “Livro do Português Errante”, e deparei-me com este poema…

Um livro escreve-se uma vez e outra vez.
Um livro se repete. O mesmo livro.
Sempre. Ou a mesma pergunta. Ou
talvez
o não haver resposta. (…) – excerto do poema ‘Um Livro’ de Manuel Alegre

O sentido que isto fez, para mim, foi fenomenal.

Costumo dizer que escrevo este, e aquele, género literário. Identifico as histórias que construo com o fantástico, a fantasia, e com o sobrenatural. O que não tinha reparado, ainda, era que há uma história que se revela a cada obra imaginada.

Há uma pergunta que vemos repetida em cada obra que escrevemos. Há uma resposta que nos ilude a cada tentativa de a transformar em ficção. E, no entanto, podemos identificar aquilo que se repete em cada livro que tentamos construir.

Nem se fosse por encomenda, este poema encontrou-me numa altura em que fez o maior sentido. Isto porque, nesta semana que passou, atrevi-me a elevar a fasquia no que diz respeito à responsabilização pelos meus projectos escritos.

Atrevi-me a colocar num papel as obras que tenho em andamento e aquelas que estou, de facto, a escrever/editar/rever.

Digo que é um elevar da fasquia porque costumo evitar esta actividade. É como se não me quisesse comprometer com receio de me desiludir. Assusta-me assumir coisas por escrito quando, tantas vezes, dei comigo a fugir dos planos.

Traumas, confesso. Daqueles que são um desafio constante em superar. (Reconheço todos os timbres das vozes cujas frases procuraram arrasar os meus sonhos.) Mas, ainda cá estou.

E, não me faltam projectos que atestem o longo compromisso que tenho para com a minha escrita.

Há quatro dias atrás, terminei um segundo rascunho com duzentas e nove páginas e 79340 palavras. Levo quinze anos a escrever neste blog.

Sobre o segundo rascunho, podem ler mais aqui…

E, seria de confiar que já tivesse arrumado melhor estes temas. Ainda não aconteceu. Fiquei feliz e, quase em simultâneo, fiquei assoberbada com as vozes que nunca me deixam respirar de alívio quando completo algo.

Adiante.

Notei que, ao apontar os projectos que tenho a decorrer, nas diferentes fases em que estes se encontram, havia um tema recorrente. Tal como o poema de Manuel Alegre que comecei por citar aqui, escrevemos o mesmo livro, uma e outra vez, ou repetimos a mesma pergunta, enquanto escrevemos histórias diferentes. À procura da resposta. Em busca das inexistentes absolutas respostas.

(…) Um livro. Esse buscar
coisa nenhuma.
Ou só o espaço
o grande interminável espaço em branco
por onde corre o sangue a escrita a vida. – excerto do poema ‘Um Livro’ de Manuel Alegre

Procuramos essa coisa nenhuma, num interminável espaço em branco, que é um livro. Encontramos? Desconfio que não.

Nas últimas semanas juntei uma inspiração muito específica que me ajudou a terminar este rascunho. Chamados os sprints de escrita, providenciaram a moldura essencial para que eu fosse capaz de terminar este projecto (PARAR DE PROCRASTINAR NESTE PROJECTO!)

Seguir outros nos seus sprints, inventar os meus, nos horários que disponho… porque todas as vidas são diferentes, e cada fase da vida tem os seus próprios desafios, há que considerar com franqueza o tempo que temos para dedicar a cada uma das coisas que compõem a nossa vida.

Saber que há outros como eu, que não esperam nada mais do que aquilo que investem nos seus projectos. Que, sem qualquer rede de segurança, persistem, muitas vezes, sem saber bem porquê.

Retirar uns momentos de inspiração dos esforços que os outros fazem, quando se alinham com o nosso objectivo, e com o que nos vai no coração, parece-me uma boa estratégia.

Neste momento, reconheço os meus padrões, as rotinas que melhor funcionam e o espaço que preciso libertar, para que cada projecto se revele para mim, na sua melhor forma de o concretizar.

Sei que há técnicas que, comigo, não funcionam. Sei que outras há que experimentei e resultaram num determinado período temporal. Acima de tudo, sei que estou investida em descobrir o que funciona, por quanto tempo, e aproveitá-lo ao máximo.

No nossos livros, e na nossa vida, podemos ir repetindo as perguntas, à medida que vamos criando as nossas histórias mas, é certo que, precisamos dessas respostas… ou não estaríamos aqui, a fazer estas coisas que fazemos.

Uma excelente pausa de Domingo!

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Referências:

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