Passatempo, Trabalho ou Criação: Organizar pensamentos sobre o acto de criação artística

passatempo, trabalho, arte

Olá a todos! Sejam bem-vindos a este [Recursos do Escritor].

Há umas semanas tive um conversa que me deixou a pensar sobre as variadas perspectivas no argumento: é a arte um passatempo ou um trabalho?

Vá, tirem lá isso do sistema! Digam lá: só os artistas a sério, os que fazem dinheiro, é que vivem da arte. Ou, é preciso ter-se uma grande faceta de gestor de negócios para se poder viver da arte. Ou, ainda, achar que se pode viver da arte é um pensamento infantil.

É. E, não é.

Costumam dizer que temos de deixar a nossa criança interior brincar à vontade para criarmos arte…

Só podemos considerar algo como “trabalho” quando não o vemos como um passatempo. Neste sentido, sim. Se é um passatempo, e não lhe dedicamos todas as horas do dia, então não pode ser trabalho.

Curioso é que partilho estas ideias, normalmente na newsletter semanal do blog, quando estou a contemplar os temas da semana, e faço-o através dos escritos de outros autores. E, costumam ser estas citações que mais me movem. Como:

“The thing of which I have most fear is fear.” — Montaigne

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O que é trabalho essencial?

Cruzei-me com um vídeo do guitarrista Kiko Loureiro, que dizia que a pergunta que lhe faziam com mais frequência, e que ele não gostava de responder, era: Quantas horas tenho de praticar tocar guitarra?

À qual ele responde desta forma (não cito palavra por palavra, apenas o sentido geral): se estão a pensar em quantas horas têm de estar a tocar, ao invés de estarem a pensar em quantas horas faltam para poderem voltar a tocar, é porque não nasceram para tocar.

Não deve ser uma tarefa a cumprir, mas uma parte da existência da pessoa, de quem a pessoa é.

Acho que, para a grande maioria de nós, nunca saberemos o que é isto. Ou, se há algo que façamos desta forma, não o consideramos como aquilo que devíamos estar a fazer, mas como uma espécie de passatempo. Ou, então sofremos de alguma condição cognitiva especial, que nos absorve numa determinada actividade, mas que nunca achamos ser digno de profissionalização.

O que é um passatempo?

Se consideramos a actividade como “faço quando quero“, ou “gosto de fazer isto, mas se começo a fazê-lo todos os dias, deixo de gostar” então, meus amigos, é um passatempo.

Mas, quero ressalvar que, mesmo como passatempo, não é um entretém inútil. As pessoas precisam de descansar do trabalho, das responsabilidades diárias, e dos problemas. Essas actividades servem este propósito máximo.

Quando não o fazemos, quando não nos permitimos distrair e descansar, queimamos o fusível (ou entramos em burnout, como é mais conhecido).

Consigo concordar com a perspectiva de que, se o fazemos como um passatempo, não é, e não o deveremos tentar transformar, num trabalho. Porque, é óbvio que, devemos guardar actividades que gostamos de fazer para os tempos-livres. E, se o transformamos em trabalho, deixamos de o apreciar, e de ter algo com que descansar a mente.

Agora, no inverso: se vemos a actividade como trabalho, não é possível gostarmos dela?

Se é um trabalho não é agradável? ou uma parte importante de nós? transformando-se uma obrigação, numa escravatura?

Não escolhemos o que gostamos de fazer porque, a verdade é, quando o fazemos como trabalho deixamos de gostar? Não podemos continuar a gostar após sermos obrigados a fazê-lo?

E depois?

O que iria distrair-nos do trabalho? O que nos aliviaria o espírito se o passatempo passasse a ser o trabalho? A obrigação?

Distinguir Passatempo de Trabalho

Diz Stephen King, no seu livro “On Writing”, que lê 70 livros por ano, e que se considera um leitor lento. (Tive um momento com esta frase! Relaciono-me com tudo isto, como tenho dito aqui e ali, e sinto-me um pouco mais justificada.)

Mas, ler é um passatempo. Um valioso passatempo para quem gosta de escrever histórias. E, para os outros também. Afinal, aprende-se imenso com livros, sejam eles quais forem.

Se passasse a ler como trabalho, passaria a odiá-lo… ou, a gostar muito menos. Disto tenho a certeza.

… Porque não há nada que finde o amor como a rotina. Quer dizer, a violência e a traição também fazem um bom trabalho a findar amores, mas acho que já não estou a falar da mesma coisa…

Felizmente, há muitas poucas possibilidades desta (ler) ser uma profissão remunerada, e a tempo inteiro, para alguém, pelo que não há perigo de deixar de amar ler.

Pressão de grupo

Curioso, também, é a necessidade de negarmos aos outros aquilo que sentimos que não podemos ter.

Assim que se ouve/diz a alguém que: faço esta coisa impossível de fazer dinheiro com, as antenas (e os sobrolhos) levantam-se, com ar de surpresa e desdém. E, há sempre alguém que diz “Ah, isso era maravilhoso, mas…” e continuam com temos contas para pagar e afins.

Quer dizer, ter onde viver e o que comer, é importante. É sobrevivência no seu mais básico.

O arrasar das pessoas que ousam afirmar que estão a lutar pelo sonho de serem isto ou aquilo, de fazerem isto ou aquilo. O paternalismo, a dissuasão e, mesmo a condenação… quando, na verdade, o que lhes acontece é que ou, não gostam de nada em suficiência para o perseguirem, ou foi-lhes negada a possibilidade de fazerem aquilo que achavam que desejavam fazer (a frase “cuidado com o que desejam” banalizou-se porque acontece), ou não compreendem a necessidade de viver a vida nos moldes individuais, à parte daquilo que é suposto ser a nossa existência…

Quando não há nada que nos faça querer viver entre as pessoas que nos rodeiam, quando é apenas um perpétuo sofrimento ter de acompanhar exigências que o corpo (na sua totalidade) já não acompanha, quando é tudo DEMASIADO, o que escolher?

Diz o Conde de Monte Cristo (Alexandre Dumas) “O homem é um animal ingrato e egoísta.” É um jacaré, pronto a matar o próximo.

Não posso deixar de ver a exactidão do argumento.

Espalhamos misérias, reforçamo-las porque somos miseráveis, e não podemos permitir que os outros vivam sem o peso do nosso constante sofrimento. É isto? É o que nos acontece?

Mas como estou a entrar no caminho do ensaio desanimado, mudo a direcção…

A nossa escolha pessoal

Há alguma resposta fácil para isto?

Acho que há sim. E, relembro esta referência:

“não há arte verdadeira, artistas de verdade, ou um ideal dourado ao qual devemos aspirar. O que há somos nós (indivíduos), várias décadas de frustração e loucura acumuladas e uma forma de arte através da qual podemos colocar tudo isto cá fora (no mundo).” — Catastrotivity Ep.1

Há umas semanas escrevi o artigo A leveza da arte e o peso do significado, onde encontrei a minha resposta a esta pergunta. Nele escrevi, e aqui repito:arte e profissionalização

O mundo precisa que façamos arte. Precisa que insistamos em fazer as actividades positivas de que gostamos. O mundo precisa que os artistas os ajudem a vislumbrar os erros que cometem. O mundo precisa das obras que permitam às pessoas refúgio e descanso. O mundo precisa da educação que as artes exigem.

Acho que não precisamos de mais máquinas de fazer dinheiro, guerra, interesses, poder, controlo e conluios. Temos que chegue para assegurar a miséria humana em larga escala. Obrigada!

Uh! Última referência. É importante para o argumento, prometo…

Estive a ver, finalmente, o filme Oppenheimer, 2023, de Christopher Nolan. Estava a falar de perspectivas confusas sobre as opções que se têm, e o que se escolhe fazer, e este filme é um bom exemplo disso tudo.

Confesso que ainda estou a tentar organizar os meus pensamentos para escrever algo sobre este filme. Mas, por falar em umbigos do mundo, e em mudar a realidade como a conhecemos num qualquer barracão no meio do deserto, assim como o veneno de um vendedor de sapatos rasca, ou a moralidade do “devemos incendiar o mundo?”… há de tudo, para quase todos.

Mas, mais sobre isto na newsletter desta semana.

Obrigada e Até Breve!

Está quase a terminar o acesso ao download gratuito do Compêndio Criativo 2024, cujo objectivo é ajudar-te a colocar no papel o que é mais importante para ti, e que te será útil para este novo ano. Se estão interessados, não percam a oportunidade de o descarregarem.

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