
Olá! Sê bem-vindo aos [recursos do construtor criativo]. E, preparem-se para uma viagem pela avenida da memória às mãos de “Crime, Disse Ela“.
Neste artigo, encontram: porque escolher regressar às origens pode ajudar-nos a sobreviver neste mundo moderno. Aprender com uma série antiga. Pormenores de como se escreviam histórias para televisão, há 4 décadas atrás, e o que permanece de valor.
Hoje, há distracções por todo o lado. Tantas que, a emissão televisiva tornou-se quase obsoleta… a par de ouvir música na rádio, ou ir ao cinema. E, como se explica isto?

Na conjuntura actual, em que temos todas as séries, filmes, documentários e outros, disponíveis ao sabor do nosso capricho de consumidores, o impacto dessas obras sente-se agora diluído.
Há tanta escolha que se torna desinteressante. Aquela regra, que diz que o excesso de disponibilidade de algo faz diminuir o seu valor será, também nisto, aplicável.
Mas, como construtora criativa que anda por cá há quase meio século, e que teve tempo para viver o crescimento e o decair destas artes, trago comigo a lembrança do que eram estes meios, antes da transformação sofrida.
Fui apreciadora de uma grande parte de séries de sucesso, nas décadas em que estas produções se encontravam em expansão. Como ainda era miúda, não me recordo, com exactidão, de muito sobre elas e, apenas algumas ficaram impressas em mim de uma forma, verdadeiramente, positiva.
De certas obras televisivas, resta apenas a sensação que, à época, tinham sido adoradas e aguardadas com excitação.
Uma destas séries foi “Crime, Disse Ela” com que, por acaso, me cruzei num canal de televisão que estreou por cá (Portugal), nas últimas semanas.
Apanhei uns episódios aleatórios e fiquei siderada. Como afirmei antes, não me recordo de muito sobre a série, mas tenho a certeza que gostava bastante dela. Por acaso, dei comigo a rever os episódios que davam na tv. E, entretanto, quis ter a experiência correcta: começar no primeiro episódio e, ver por ordem, até ao último.
Neste momento, já vi a primeira temporada, e estou a trabalhar na segunda. Claro que o universo temático da série ajuda…

Lembrava-me de pedaços, personagens, histórias que ficaram comigo. Mas, desta vez, estou atenta a outros factores, como a comparação com outras séries, a evolução através do tempo, e aquilo que determina a qualidade com que se conta uma história.
Gosto de histórias de mistério, de crime e de descobre o assassino. Não sou, particularmente, deslumbrada pelo ângulo “vê se és inteligente o suficiente para descobrires o assassino, antes que o episódio chegue ao fim“. Nunca fui. Não era isso que me cativava e ainda não é.
Sim, podem perguntar-se então, porque gosto eu deste tipo de histórias? Claramente, não é para digladiar espertezas saloias. Interesso-me pela arte de contar histórias deste género porque, para mim, a morte é a mais elevada aposta, para as personagens que têm tudo a perder.
E, em “Crime, Disse Ela” o objecto não é fugir da descoberta de ter cometido um crime, mas cometê-lo com o intuito de enganar, abertamente, as testemunhas e a polícia. Ou seja, há planeamento intencional por trás dos crimes e a descoberta depende, de facto, de pequenas pistas. Ajudada pela incipiente prática policial à época.

Ao cometer um crime, e procurar escondê-lo, ou nem sequer procurar escondê-lo porque as provas têm de existir, mesmo que saibamos quem o cometeu, é um ângulo que não é o foco nesta série.
Sempre me agradou ser uma boa espectadora. Eu gosto da ilusão. É parte do meu interesse pelas histórias que me são contadas, e que gosto de contar. E, permite-me imergir numa história e pausar, quase por completo, a Realidade. Permite-me apreciar a construção ficcional, vivendo-a… ou tão perto disso, quanto a passividade absorvente o torna possível.
No artigo ‘Sherlock Holmes e as histórias que nos formam‘ escrevi um pouco sobre estes temas, e outros relacionados. Leiam, se estiverem interessados nestes pontos.
Então, vamos a pormenores de “Crime, Disse Ela“…
Jessica Fletcher, a personagem principal, é uma senhora viúva, que começa a escrever histórias de crime e mistério, para preencher os seus dias.
Devido à passagem do tempo, — o aspecto de uma pessoa de 40 anos, há 40 anos atrás, é diferente do aspecto de uma pessoa da mesma idade, no ano de 2026, — é-me difícil precisar a idade que é suposto esta personagem ter. E, por ser viúva, chamam-na de velha… apesar de não lhe faltarem pretendentes.

Quando comparo com outras personagens da série, uma outra mulher que diz ter 47 anos, identifica-se como velha e acabada, quando o aspecto dela não poderia estar mais longe disso. Como, hoje, vivemos na época em que os 60 são os novos 30 (ou assim gostariam que fosse), fiquei etáriamente confusa.
Ainda sobre Jessica Fletcher, e a cantiga de ser uma mulher dita velha, suponho que seja suposto olharmos para ela como estando algures na década entre 60/70, para podermos perdoar-lhe a intromissão, e desculpas continuadas, para as suas indiscrições metediças mas, verdade seja dita, ela parece mais perto dos 50 anos do que dos 70.
E, apesar de usar aquelas saias à moda da época, de senhora mais velha, episódios há em que a personagem aparenta uma disposição física bem mais vigorosa.
No início da série, ela apresenta-se muito modesta, sem interesses de fama e fortuna, e muito dedicada às pessoas que com ela convivem, e à família fisicamente distante. Aliás, é um sobrinho que apresenta o primeiro livro dela à editora onde trabalha e que a convence a publicar. Vinda de Cabot Cove, uma pequena vila no Maine, no primeiro episódio ela é lançada para Nova Iorque, onde o sobrinho vive, trabalha e onde se mete em sarilhos.
Este universo de escritora de sucesso imediato, quase por acaso, que não perde os seus valores e que defende as pessoas, a sua família e amigos, e as suas raízes, é uma linha de argumento que percorre todos os episódios que vi até agora.

Esta personagem é perspicaz e inteligente, muito empática no seu tratamento aos outros. Tanto que, quando um episódio começa com ela vestida de forma muito distinta, e com uma troca de palavras áspera com um porteiro de hotel, acreditei logo que ela estava a representar um outro papel. Confirmado pelo resto da história, em que ela fingia ser uma milionária que vivia isolada da sociedade, só para tentar descobrir quem tinha assassinado uma das suas amigas mais antigas.
Jessica Fletcher mete conversa com todos, com quem se cruza, e é muito humana nessas interacções. E, muito cómica quando lida com as tolices de outros.
Rotinas. Jéssica Fletcher tem rotinas que, qualquer escritor de décadas reconhece, como imperativas ao desenvolvimento de uma carreira de escrita.
Ela corre de manhã, esteja onde estiver, ela tem prazos de escrita e revisão e apresentação de trabalho feito ao seu editor, ela senta-se na mesa de cozinha (esta mesa da cozinha não é imperativa) e escreve, numa máquina de escrever, apesar do processador de texto já existir, mas ela ainda não ter tido coragem para aprender a mexer nele. Ela faz pesquisa, e conhece imensas pessoas, e acaba por colocar-se nos sítios onde mais se pode expor às inspirações para a sua escrita. E, tenho a certeza que, ainda me irei cruzar com outros aspectos interessantes em episódios subsequentes.

Confesso que, nesta série, a passagem do tempo nota-se. Em especial, e para isto chamo a vossa especial atenção, para a quantidade de violência que existe. Numa série de mistério e crime, que é o que esta é, o que vemos não é inapropriado. Não somos invadidos pelos piores crimes expostos de forma explícita, no intuito de nos chocar, e dessensibilizar, para imagens que nos moldam e às quais não nos deveríamos ter acostumado.
Porquê? Porque, com subtileza e arte, conseguimos fazer tão melhor do que os excessos que se cometem agora.
E, erodir a nossa empatia para com os outros, não é o caminho por onde deveríamos estar a ir, como pessoas que habitam o planeta Terra… mas afasto-me do tema.
Outra curiosidade, que se nota bastante, é a troca dos actores por duplos nas cenas “mais” perigosas. Porque é que, em algumas cenas corriqueiras, como andar de carro numa estrada normal, sem qualquer perseguição a acontecer, é motivo para usarem duplos, é que eu não sei. Mas, suponho que possa atribuir este tipo de curiosidades a um universo televisivo ainda em desenvolvimento. Nem todo o progresso foi mau… apesar dos actores principais poderem discordar.
Afinal, um actor que faz as suas proezas, dispensa a contratação de duplos mas, também corre mais riscos de se magoar enquanto trabalha.
Cada episódio de “Crime, Disse Ela” tem um universo muito próprio, e cada um deles, é cativante, com as suas personagens novas e cenários diferentes. Apesar desta série ter um elenco que é, de certa forma, fixo, estas personagens aparecem, de uma forma muito lógica, nuns episódios, e estão ausentes por completo de outros.

Temos episódios em ilhas, em eventos, em universidades, nos clubes de campo, em terrenos em construção, em barcos, e em muitos outros ambientes. Uma pletora de cenários diferentes, e de construções cuidadas, em episódios que permitem uma imersão nas histórias… nada de coisinhas à pressa, de mais ou menos 20 minutos, e muito pouca exploração, para os que não possuem paciência para mais.
Claro que, simpatizar com Jessica Fletcher ajuda ao meu retorno a esta série. Ela é uma personagem que se apresenta muito equilibrada, estável de uma forma que, muitos de nós imaginámos que conseguiríamos ser… ou falo por mim?! Centrada, sem ilusões de grandeza, a viver para quem gosta, e em defesa do bem, e a fazer o que gosta, com bastante sucesso porque, simplesmente, nasceu para isso.
É uma ideia muito romântica… suponho que, isto, me cativa. Afinal, quem não queria poder fazer o que gosta, sem sacrifícios, aprendendo pelo caminho enquanto, aquilo que faz vai ajudando os outros, e a si, no seu processo criativo?
E, sempre respeitada, e acompanhada, por família e amigos. O sonho!
Uma personagem inteligente e corajosa, que não se coíbe de acreditar no melhor das pessoas, enquanto fica atenta aos traços que os podem levar a cometer os piores crimes. Até nisto, o excesso a que me acostumei, me faz achar estranho que Jessica confronte os assassinos, e que não procure proteger-se activamente. Noutra série qualquer, ela teria levado uns golpes mortais dessas pessoas que confronta.

Nesta viagem pela avenida da memória, através da presente obsessão com “Crime, Disse Ela“, reencontrei a parte de mim que aprecia histórias contadas de forma inteligente, e com uma simplicidade emocional que me permite o espaço para apreciá-las.
E, sem aquela irritante sensação de que me estão a tentar manipular, com rudeza declarada, porque isso é tudo aquilo que desejaram fazer, quando escreveram um episódio chocar-para-conquistar. Ou será, ferir para ter lucro?!
Cada género de histórias tem os seus inícios, assim como, cada ficção nasce de não-ficção. Analisarmos as histórias que nos formaram, como amantes da arte de as contar, ajuda-nos a reconhecer aquelas partes de nós que nos fazem desejar continuar a escrever, seja em que formato, ou género for.
Enquanto revisito as histórias que alimentaram a minha infância, — e a alegria que senti, ao apresentar o som do Kitt da série “Knight Rider” à minha filha, ouvindo um “Ah! Tá” como resposta à minha animação… suponho que, carros que andam sozinhos e que se tornam, mais ou menos, sencientes já não sejam novidade, — e redescubro o que alimentou, certos dos meus interesses mais internacionais, enquanto reaprendo a focar-me naquilo que me cativou na arte de contar histórias.
Vejo, um episódio por dia de “Crime, Disse Ela“, sem distrações. E, também, guardei as últimas três horas do dia para ler livros por divertimento, não em pesquisa ou aprendizagem. Estas têm sido as minhas formas correntes de combate às tentativas de controlo mental, que o oblívio do consumo de conteúdos provoca.
Não tenho ilusões, que este esforço é algo em que preciso trabalhar, para que fique.
Assim vos deixo, com este retorno a “Crime, Disse Ela” e, o meu mais sincero desejo, que possam redescobrir o prazer de encontrar coisas novas, que passaram despercebidas, naquilo que já tem uma certa idade. Porque há cenas que nunca se esgotam.
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