O mercado e a produção artística – uma entrada no meu diário

mercado e produção artística

Olá! Sê bem-vindo a esta entrada do meu Diário.

Literalmente, do meu diário.

Porque partilho aqui? Porque, quando terminei de escrever, achei que os seus temas podiam ser um convite à reflexão.

… . setembro . 2026

Ontem, foi um dia de leitura a sério. Tenho a sensação que passei o dia a ler… e a cozinhar. Não esquecer as refeições… e a sopa. Acabei o livro sobre René Magritte.

Uma coisa que aprendi, de uma forma que, não sendo um conceito desconhecido, é para mim importante considerar (já que continuo a pensar na formulação do meu método), integrar e reintegrar foi: a arte precisa ser pensada.

Ou seja, a arte (e eu concordo com isto) deve ser fruto de introspecção, de conhecimento e de articulação sobre o mundo que nos rodeia. A arte que confere significado à realidade, abrindo caminhos que ainda não haviam sido sonhados e que, pela sua natureza abstracta, apresentam a vida com novos horizontes.

Estou a olhar para um vídeo, em que uma senhora está a fazer colagens em pequenos cartões, no caso, para colocar num ‘rolodex’ antigo. Antes, ela usou o formato cartas de jogar, e afirmou que havia uma espécie de mercado de trocas para estas, chamadas ATC (Artists Trading Cards). Algo que era feito e coleccionado, sem qualquer valor monetário, por diferentes pessoas/criadores.

Neste ponto, ocorreu-me que o tarot também é feito de arte em cartas, e cada uma delas tem significados, e uma ilustração dedicada à sua construção e utilização, através de uma prática divinatória. E, por mais motivos do que um, estas cartas, e suas reiterações mais recentes, continuam a existir na nossa sociedade, e a terem mais do que um propósito, o que atesta a sua criação com um significado e com a capacidade de “nos” fazer sonhar, enquanto vivemos. Afinal, quem é que não quer saber o futuro?

Mas, e voltando ao tema da arte ter valor porque tem um significado, e um propósito para o próximo, que é feito de abrir-lhe as portas aos sonhos que ele próprio não teve… ou algo do género.

Em simultâneo, comecei a ler a revista Electra (a magazine of thought and contemporary culture) e seu o editorial ‘Psychocracy‘ de José Manuel dos Santos e António Soares, que colocou o “problema” de termos uma actualidade invadida pelos clichés da psicologia, e das doenças mentais banalizadas, usadas como etiquetas e, como isso parece isentar as pessoas das suas responsabilidades. Este é um artigo (editorial) com uma perspectiva de vários aspectos interessantes sobre a actualidade.

Mas, (em Electra) o que se colou ao que estava a ler sobre os temas de Magritte foi a entrevista de Afonso Dias Ramos a Benjamin H.D. Buchloh. Este crítico de arte, professor reformado, escritor, deixou-me a considerar certos aspectos da criação artística, que vou tentar ressalvar aqui.

  • O trabalho do crítico de arte, que servia para reunir informação, construindo ensaios sobre obras e autores, relacionando com o contexto em que havia sido produzida, e em comparação com o que os outros criaram em simultâneo (contemporâneos), acabou. Deixou de ser válido e necessário.
  • A mercantilização, do que se cria como obra de arte, invalidou o propósito artístico. Tudo é, agora, um produto e feito para vender.
  • Como tudo tem um objectivo consumista, e para ser consumido, nada precisa ter um significado profundo. Não é necessário pensar demais sobre os assuntos e criar algo relevante para a Arte e que, por isso, permaneça no tempo. É preciso criar para sobreviver, trocando o que se criou por dinheiro, status, publicidade, poder sobre os outros…
  • O mercado transformou-se num sítio de contestação social e crítica ideológica, o que alterou os princípios das práticas artísticas.
  • Se o que se cria é irrelevante, a crítica ao que se criou transforma-se em irrelevante… porque, que crítico é qualificado para criticar stocks? (nenhum)

“Uma produção cultural limitada ou deficiente, que é o mesmo que dizer que o verdadeiro falhanço de práticas artísticas relevantes, parece determinar o falhanço ou a deficiente prática de um artista na sua forma histórica e crítica.”

  • Os críticos já não servem para questionar como as práticas estéticas devem ser, e que funções têm, na corrente situação histórica. Crítica e produção artística estão, cada vez, mais afectadas.
  • A crescente influência da esfera da percepção pública. Os modelos teóricos utilizados, que definiam valor e qualidade, já não se aplicam. É preciso descobrir novos modelos.
  • Aqueles que vendem arte são agora os veículos entre o mercado e as instituições coleccionadoras. Estes transformaram-se nos mediadores profissionais (se vende, tem qualidade? Ou só valor monetário?)
  • O ensino como a seguinte melhor actividade, a seguir a criar arte, porque permite a liberdade de comunicar entre iguais, e a liberdade para pesquisar, e investigar e reinterpretar a história, dentro de um espaço crítico colectivo e de pensamento progressivo.
  • Buchloh tem pensado sobre o que significa manter uma prática crítica num mundo que é, em simultâneo, completamente indiferente a essa prática e, infinitamente, mais complexa do que essa prática (a crítica) pode permitir.
  • Estes artistas (da actualidade) não talharam o seu espaço de autonomia, ou resistência, se estão integrados no aparato comercial do sistema de distribuição de alta cultura. Por isso, como julgar (criticar) se têm credibilidade para intervir no espectro cultural e ideológico da actualidade.

E, voltando ao início… no mesmo vídeo, cruzei-me com José Naranja, espanhol, que junta ilustrar, colagem e notebooks. E, sim, cria para vender. Mas, tem espaço para criar algo com significado, com sentido, com a capacidade para ser relevante, numa área criativa de pouca relevância. Suponho que chamar-lhes lixo (junk journal) não ajudou.

Há não muito tempo, cruzei-me com o livro “Luz nos Livros” por António Campos Real. Nele constam 30 fotografias estenopeicas.

Fotografia estenopeica é captada quando se regressa às origens da fotografia, usando a passagem da luz por um simples furo, para dentro de uma caixa escurecida. Esses raios luminosos incidem sobre um sistema plano que é sensível à recolha da imagem formada.

O que me trouxe este livro de extra? O conhecimento (tardio, eu sei!) que existe um acervo chamado Arquivo/Biblioteca Ephemera, reunido sob a vontade de José Pacheco Pereira, e o esforço e contribuições de doadores e voluntários, que reúne e preserva livros, periódicos, documentos e objectos ligados à memória da história contemporânea portuguesa.

Podemos vislumbrar o que está no Arquivo Ephemera, pelo menos, o que está digitalizado e fotografado, no site… e, é um mundo de informação e preservação, (através dos mesmos fragmentos de impressões de textos, fotos, cartazes, e uma miscelânea diversa, do tipo de materiais de que o junk journal é feito, menos a profundidade e significância destes), da caracterização da sociedade portuguesa do último século.

Colocar as nossas ideias, o processamento mental que é, unicamente, pessoal, num processo que domina a técnica em questão, e ser esse o nosso trabalho criativo.

Não é reclamar do que está mal no mundo, e acrescer ao barulho. Também, não é criar e publicar, ou tornar público tudo o que se cria. É criar e dar-nos espaço para contemplar quanto do que pensamos, das nossas dúvidas e experiência, vão parar a essa obra “melhor“. É saber executar, e usar os meios dessa execução como veículo para comunicar melhor essa ideia/contemplação.

E, quantos de nós se convenceram que não faz mal criar aquilo que nada acrescenta ao género, ao campo criativo em questão? Quantos de nós fazem isto: a necessidade de fazer dinheiro para sobreviver + a indulgência de criar algo que não precisa ser o melhor trabalho possível + ceder à pressão do consumo (fornecer e em ser fornecido).

Se não estudamos o que criamos, se não é um trabalho que possa favorecer uma área de conhecimento, se não olhamos para o que criamos, de forma crítica e construtiva, ou se não comparamos o que é criado em contemporaneidade, o que sobra para os que nos sucedem? Conhecimento desorganizado, irrelevante, superficial, sem qualquer mensagem profunda ou apreciação.

E, de tudo o que tem sido criado, impresso, pintado, escrito, utilizado, há alguma obra que fique como cultura alta?

Não me proponho a responder a esta última pergunta. Mas, consigo ver os pontos que funcionam a nosso desfavor.

E, quando penso na evolução cultural, e no ponto em que estamos, neste momento, adensar intelectualismos, quando não é este o rumo que a maioria das pessoas está a seguir, é um problema. Ao mesmo tempo, simplificar tudo até as criações não terem significância ou sentido, é duvidar do ser humano e da sua capacidade de evoluir e adaptar-se a condições desafiantes.

Mas, são estas dualidades que nos permitem ser contemplativos, e escolher o que desejamos para nós, para as nossas criações, e para os nossos processos criativos.

[E, deixar uma super tecnologia perita em apropriar-se, e reconstruir, sem intervenção humana no output, não é cultura alta.]

Peço imensas desculpas pela versão, pouco editada, desta entrada de diário. Estava a escrever para mim, e não quis fazer grandes alterações, e perder o espírito inicial deste apontamento.

***

Obrigada pela atenção e peço que deixes as tuas ideias e sugestões, nos comentários a este artigo. E, agradeço-te por isso. Também, todos os comentários são analisados, antes de serem tornados públicos, e tendo a responder ao fim de uns dias.

Agora, deixa-nos um “Olá” e/ou uma opinião construtiva.

Desejo-te uma semana criativa.

Obrigada e Até Breve!

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