Opinião: ‘Manuscrito encontrado em Accra’ de Paulo Coelho

Manuscrito encontrado em AccraEscondemo-nos, muitas vezes, atrás de ideias pré-concebidas, experiências menos simpáticas e conjunturas inadvertidas. Escondemo-nos porque negamos a possibilidade de voltar a tentar e aceitar que, num dado momento, há livros e autores que não ressoam, ou enraízam, na nossa mente.

Felizmente, (sim, felizmente, porque não acredito que devemos fechar-nos a algo só porque não agradou à primeira) voltei aos escritos de Paulo Coelho.

O que mais me desagradou, noutras histórias deste autor, foi o excesso de crença religiosa. No meu caso, católica não praticante, nascida por estas últimas décadas, o papel da Igreja e da Fé, e de Deus de um modo geral, tomou outros contornos, deixando-me com um amargo de boca no que à convicção desmesurada diz respeito. Assim, ler Paulo Coelho e ignorar a temática cristã era impossível, pelo que não li nada dele durante muitos anos.

Como tantas outras vezes em que afirmei que, um livro encontra o seu caminho para a minha vida (e, nos últimos tempos, tem sido uma sucessão destes…), decidi comprar o ‘Manuscrito encontrado em Accra’ munida dum cepticismo que considerei saudável. Engraçado é que decidi lê-lo agora… aquela coisa do caminho…

Descobri que, apesar de se ter usado um Apócrifo como base desta obra (mais implicação religiosa seria impossível), Paulo Coelho afasta-se do molde Deus/Fé/Religião, para nos falar de Senso-Comum. Sobre o Amor, a Amizade, a Vingança, a Lealdade, a Morte, a Ansiedade, os Inimigos, o Sexo, a Derrota, a Dor, e tantos outros temas, este é um livro com uma significância profunda.

Construído a partir de pequenos trechos de um sábio, atinge o seu expoente máximo quando descobrimos nas suas páginas tanto daquilo com que padecemos no dia-a-dia e que não conseguimos exteriorizar.

E, falando de valores, digo-vos que foi uma agradável surpresa perceber que o autor decidiu afastar-se da percepção religiosa que temos dos mesmos. Dando importância, acima de tudo, àquilo que nos move e orienta, aquilo que devemos ponderar sobre nós e os outros.

São páginas para aqueles a quem a vida tem pregado algumas rasteiras e que, mesmo assim, não desistem de reflectir e de procurar respostas. Ideias que poderiam ser senso-comum, caso não estivéssemos tão determinados em negar a sua importância. Sentimentos que preferimos ignorar, para que a mudança não nos assuste.

Não irei tão longe alegando uma espécie de busca do ‘Sentido da Vida’, mas não posso negar que me ajudou a colocar algumas coisas em perspectiva. E, não! Não estou a entrar numa grande revelação religiosa (esse barco nunca vai zarpar deste porto!). Afirmo, apenas, que muito do que Paulo Coelho escreveu fez sentido e ajudou a dar sentido.

É, sem dúvida, um livro a ler. Em especial, se se encontrarem em algum canto apertado. Não trará soluções, mas perspectiva e, com sorte, alguma calma.

Deixar-vos citações era muito bom, mas acabava a transcrever o livro quase todo. Aliás, estou a ter dificuldade em escolher apenas uma mas… aqui fica:

“E chega um dia em que um novo combate lhe bate à porta. O medo continua, mas eles têm de agir, ou permanecerão para sempre deitados no chão. Levantam-se e encaram o adversário, lembrando-se do sofrimento que vivem e que já não querem viver. (…) O pior não é cair, é ficar preso ao chão. Só é derrotado quem desiste. Todos os outros são vitoriosos.” Pág.27, ‘Manuscrito encontrado em Accra’, Paulo Coelho.

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