Opinião: ‘Big Magic’ de Elizabeth Gilbert – parte II

Big Magic de Elizabeth Gilbert

Esta é a segunda parte do artigo gigante sobre o livro “Big Magic” de Elizabeth Gilbert. Esta é uma opinião sincera, que me colocou numa posição em que pude observar a minha vida criativa com um espírito aberto e mais leve.

Podem ler a primeira parte aqui…

(…) A quarta parte deste livro é a Persistência.

Outro daqueles temas que nos são tão queridos: a Persistência é inimiga da Perfeição. E, é preferível ser-se disciplinado a perfeccionista. Concordo.

O disciplinado aparece todos os dias para trabalhar. O perfeccionista nem se dá ao trabalho de começar porque nunca, nada, em tempo algum, será tão bom como o que ele imaginou… e é incapaz de o passar para o papel.

Outra ideia que me marcou: o perfeccionismo disfarça-se de virtude. Não é. É medo. É uma angústia existencial que afirma continuamente “não sou bom o suficiente”.

Confesso, nunca tinha visto as coisas por este prisma. E, contra mim falo, padeço disto. Mas, gosto da forma como Gilbert descomplica. Para mim era uma virtude, ou assim eu acreditava. Vendo bem, concordo que não é.

Outro aspecto abordado, sobre a vida criativa, tem sido algo que aprendi no decorrer dos últimos anos. Se por qualquer motivo não estamos a criar na nossa arte, é bom arranjarmos qualquer outra coisa para entreter a nossa mente. Ou ela vai arranjar algo para se entreter… construtivo ou destrutivo. (Mas sobre isto, podem ler mais aqui…).

Perhaps creativity’s greatest mercy is this: By completely absorbing our attention for a short and magical spell, it can relieve us temporarily from the dreadful burden of being who we are.

A Arte ajuda a tratar algumas coisas, e a esquecer outras, nem que seja por alguns minutos de cada vez. Quando a nossa arte é escrever, por vezes, parece que passamos muito tempo a vasculhar entre aquelas mesmas coisas que queríamos esquecer. Praticar outras arte ajuda. Depois, voltamos com mais vontade e sanidade.

Not expressing creativity turns people crazy. (“If you bring forth what is within you, what you bring forth will save you. If you don’t bring forth what is within you, what you don’t bring forth will destroy you,” Gospel of Thomas)

Algumas ideias neste capítulo… Ninguém quer saber de ti. Cada um de nós está, por hábito, imerso em si mesmo. Por isso, não interessa o que os outros vão pensar. Persistir quer dizer que “feito é melhor do que perfeito e inacabado”. E, bom o suficiente significa que está acabado, com uma razoabilidade credível e aconselhável. Apenas a tua definição de sucesso interessa. Nunca, nada, está garantido. Apenas a forma como tratas o assunto pode influenciar o resultado. E, persistir e trabalhar com disciplina, ainda são as melhores estratégias.

Confiança, a parte 5, começa de forma intrigante.

A maioria de nós, pessoas, não acredita que haja reciprocidade na nossa relação com a Natureza. Ou que o Mundo goste de nos ter cá. Ou que a nossa arte possa ter uma relação de reciprocidade connosco, o seu criador.

Acreditamos que a Arte nos odeia e nos destrói, que nos ignora e que é má para nós, enquanto seus criadores. Que é um tormento em todas as fases do processo criativo. Alguém (ou muitos alguéns) nos vendeu a noção de que arte é sinónimo de sofrimento. E, de lá para cá, tornámo-nos viciados nisso.

Chegamos mesmo a acreditar que, se a arte não nos traz angústia, é porque não estamos a ser tão profundos como podemos ser… e, não estamos a fazer alguma coisa bem.

Heaven forbid anyone should enjoy their chosen vocation.

Olhando para os variados artistas, que me acompanharam toda a minha vida, sim. Concordo que a maioria deles viviam com vícios e sofrimento e, em muitos casos, essa angústia levou à última punição final. E, olhando para os professores da minha vida, eram expeditos em criticar ou, na melhor das hipóteses, ignorar. Avaliar, ajudar ou orientar, estava para além de muitos deles.

Addiction does not make the artist. (…) I believe that our creativity grows like sidewalk weeds out of the cracks between our pathologies – not from the pathologies themselves.

As pessoas atribuem autenticidade ao sofrimento e fetichizam o processo. Mas, ser-se grandioso apesar do problema também me parece mais concreto do que ser-se grandioso porque se tem um problema.

Também nisto, concordo com Gilbert. É quase impossível criar quando estou infeliz. Desaparece o espaço mental que tenho para a minha arte e, só com muito esforço, produzo alguma coisa. Esses sentimentos sufocam tudo o que poderia estar a criar se me sentisse bem.

Emotional pain makes me the opposite of a deep person; it renders my life narrow and thin and isolated.

E, porque não acreditar que a nossa arte nos ama de volta? Acreditamos em coisas piores.

Why would your creativity not love you? It came to you, didn’t it? It drew itself near. It worked itself into you, asking for your attention and your devotion. It filled you with the desire to make and do interesting things.

Porque não acreditamos que podemos trabalhar com alegria ou contentamento? Porque não somos teimosos nisso? Em confiar que a inspiração está sempre por perto e, que só temos de compreender o que ela quer, e dedicar-nos ao trabalho?

Mais uma vez, tudo é uma questão de perspectiva, e se acreditamos que o acto de criação vem do sofrimento, porque não podemos acreditar que essa força é positiva e que quer trabalhar connosco?

The work wants to be made, and it wants to be made through you.

Gilbert compara as forças criativas às figuras de um Mártir e um Vigarista. Pergunta-nos porque não escolher a força que nos ajuda a inventar a arte, tal como ela deve ser, um entretenimento, ao invés de um mártir que se aprisiona até provocar a própria morte, com tanto esforço pouco produtivo.

Cada projecto não é imutável, nem deve ser. A criatividade deve ser livre e vir livre. Devemos ter cuidado com as regras que impomos ao nosso trabalho ou às alterações que temos de lhe fazer.

Devemos ser apaixonados pelo trabalho e obssessivos na comparência. Mas, quando não nos sentimos assim, devemos ir procurar outra coisa para fazer. Seguir a nossa curiosidade e o que nos parece interessante.

Curiosity is what keeps you working steadily, while hotter emotions may come and go.

E, falhar faz parte. E, o sofrimento que daí advém é o nosso ego ofendido. Como curiosa que sou pela visão de Eckhart Tolle (podem ler mais aqui…), a perspectiva de Ego entra numa espécie de conflito com o tenho estudado do outro lado.

Your ego, simply put, is what makes you who you are. Without one, you’re nothing but an amorphous blol. (…) Your ego is a wonderful servant, but it’s a terrible master (…)

Mas, vou ponderar no assunto para outro lado…

A resposta de Gilbert a este sofrimento é procurar o que a Alma quer: o maravilhoso. E, o caminho para o maravilhoso é a criatividade, pelo que é a única escolha possível para ela.

Abandonar o falhanço e a vergonha é possível se nos perdoarmos pelo que fizemos e deixarmos isso ir. Esquecer o último projecto e irmos à procura do próximo de coração aberto. E, mantermo-nos ocupados.

Find something to do – anything, even a different sort of creative work altogether – just to take your mind off your anxiety and pressure.

Se não conseguimos criar na nossa arte, irmos fazer qualquer outra coisa. Se a intenção é a correcta, não é procrastinar, é mantermo-nos em movimento para que a inspiração nos encontre a trabalhar. Sim, também acredito que a acção é inimiga da depressão (algo que podem ler mais aqui…). Quando não escrevo, pinto. Quando não pinto, rabisco. Quando não rabisco, leio. Quando não leio, arrumo qualquer coisa… Descomplicar as acções para que a cabeça nos acompanhe e a inspiração não fique bloqueada algures do lado de fora do crânio.

“failure has a function. It asks you whether you really want to go on making things.”

Qualquer acção criativa tem o poder de curar as nossas feridas. Aquelas infligidas noutras lutas. São essas outras acções criativas que nos devolvem a confiança e que nos farão voltar a mostrar o nosso trabalho ao mundo.

Se não temos qualquer garantia de sucesso, e o resultado não interessa, temos coragem para apresentar o nosso trabalho criativo?

Mas, a pergunta mais importante de todas: O que é que amamos tanto fazer que as palavras Falhanço ou Sucesso se tornam irelevantes?

Porque, mesmo quando falhamos, estivemos felizes a criar qualquer coisa. Não devemos ter vergonha porque fizemos o melhor que sabíamos, com o que tínhamos no momento. E, qualquer que seja o resultado, era aquele que tinha de ser. O que não podemos fazer é desistir do que amamos.

Divindade, a 6ª parte, fala-nos sobre a distinção entre Arte divina e profana.

Ilustrada por uma história passada em Bali (esse sítio de onde saíu parte do sucesso de vendas “Comer, Orar e Amar”), coloca o leitor numa contemplação sobre a partilha de tradições culturais e os seus resultados. Faz-nos pôr em perspectiva o real valor das “boas intenções” e traz-nos de volta a um dos grandes temas dos artistas: a relatividade da criatividade em si e do produto concebido pela nossa arte.

Quando olhamos para os paradoxos que servem a nossa realidade criativa afinal, uma obra de arte não serve para nada mas é um grande serviço para todos, podemos e devemos encará-los com ligeireza, para que o fruto do nosso trabalho possa ser sério.

What we make matters enormously, and it doesn’t matter at all. (…) Only when we are at our most playful can divinity finally get serious with us.

Concordo.

Se a extensa análise desta obra não vos deixou antecipar a minha opinião, aqui fica o manifesto resultado: ‘Big Magic’ é uma espécie de manual de instruções sobre a Criatividade e a Vida de um Artista. Um livro que aconselho a ler e a reler sempre que a Vida vos atirar para fora do vosso caminho criativo.

Eu sei que o farei muitas vezes. Há aqui muitos preconceitos sobre a vida criativa que preciso limpar para poder prosseguir o meu caminho com a intenção e acção que quero.

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2 comentários em “Opinião: ‘Big Magic’ de Elizabeth Gilbert – parte II”

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