Opinião: ‘Big Magic’ de Elizabeth Gilbert – parte I

Big Magic de Elizabeth Gilbert

Preparem-se porque este artigo vai ser gigante… do tamanho da relevância de ‘Big Magic’. Tão gigante que, após cuidada ponderação, decidi publicá-lo na íntegra, mas em dois artigos diferentes.

… Mas, só porque não quero levar ao limite o esforço do WordPress, e das suas birras das últimas semanas.

P: O que é criatividade?

R: A relação entre o ser humano e os mistérios da inspiração.

‘Big Magic’ andava na minha lista de livros a ler há algum tempo. Acho que desde 2015, quando foi publicado, e começou a aparecer por aí.

Recordam-se de mencionar, uma ou duas vezes… ou mais, aquele fenómeno em que os livros tendem a ir ao meu encontro quando mais preciso deles? Assim, como uma espécie de biblioterapia do Universo, descobrem o caminho para as minhas mãos quando são necessários. Claro que, nem todos o fazem no momento certo, mas gosto de pensar que os mais determinantes esmeram-se.

Em ‘Big Magic’ não descobri a pólvora, nem redescobri a roda, encontrei algo muito melhor: novas perspectivas sobre temas que me perseguem como escritora/criativa.

Sou uma viciada em procurar entender a criatividade, a motivação para perseguir as artes, e aquilo que nos define como criativos. E, no meio de todos os clichés que, ao longo do tempo, se formaram em torno da vida de escritor, do acto de criação, do sucesso e do falhanço, torna-se complicado refutar algumas realidades aceites socialmente.

Como aquela em que o artista é um sofredor angustiado e a sua obra é um produto dessa inspiração. Ou que os vícios humanos são aquilo que impulsionam o acto de criação. Ou a ideia de que temos de nos sustentar através da produção da nossa arte para a nossa obra ter qualquer mérito (Luís de Camões, entre tantos outros, ensinou-nos o contrário). Muitas destas “verdades” são mitos, ilusões que se propagaram pela História. Este livro toca em todos esses assuntos.

Gilbert desmistifica umas coisas e mistifica outras. A sua perspectiva sobre a Criatividade e a vida criativa é cativante e, em 6 partes, ela fala sobre os pontos fulcrais da vida de qualquer aspirante a escritor.

‘Big Magic’ começa, tal como as nossas paixões, com Coragem.

E, nesta primeira parte, a autora coloca-nos uma pergunta que, acredito sinceramente, devemos continuamente tentar responder:

Do you have the courage to bring forth the treasures that are hidden within you? (Tens a coragem de trazer ao mundo os tesouros que estão escondidos dentro de ti?)

Isto recorda-me uma história que andava a passear aí algures, sobre o sítio onde a Natureza (ou Deus? Se souberem ao que me refiro ajudem-me a procurar, por favor) escolhia o melhor esconderijo para aquela parte tão importante do Homem (a Alma, seria?) e, o último sítio onde ele iria procurar era dentro dele próprio. É mais ou menos isto… e, por favor, se tiverem a história à mão, partilhem comigo.

Gilbert acredita que a Grande Magia está na Coragem que temos para ir à procura desses tesouros que temos escondidos e agirmos sobre eles. Que, o que define uma vida criativa, é a Curiosidade como força motriz ao invés do Medo (esse assassino de todas as coisas em que toca). Que temos de abrir espaço para todos esses sentimentos e aceitar que vamos conviver com eles sempre.

Ilustrado com histórias pessoais, Gilbert guia-nos pela descoberta da identidade pessoal, pelo Medo e pela necessidade de Coragem.

“Creativity is a path for the brave, yes, but it is not a path for the fearless, and it’s important to recognize the distinction.”

O instinto existe e serve para nos proteger. Mas, não deve servir para nos privarmos da vida criativa. Como a vida criativa sempre terá um resultado incerto, o Medo considera-a um inimigo do seu bem-estar… o que justifica todos aqueles avisos que recebemos de outrém quando nos anunciamos como criadores/artistas. A corrente de “isso não dá dinheiro”, “isso não é uma carreira”, “então e advocacia não era melhor?” ou, a minha favorita, “Deus me livre, se eu deixava um filho meu ser … (insira aqui a vocação a que se refere).

Lidar com o Medo é um problema para todos nós. Sociopatas e crianças de dois anos excluídas, claro. E, Gilbert prossegue falando-nos da sua perspectiva pessoal sobre isto. Descomplica e assume a relação indissociável entre Medo e Criatividade, e como temos de aceitar que ele virá na viagem, mas que não o podemos deixar conduzir.

Gostei desta abordagem. Deu-me uma perspectiva engraçada sobre o tema e uma resolução (para algo que não tem) interessante.

“Dearest Fear: Creativity and I are about to go on a road trip together. I understand you’ll be joining us, because you always do. (…) There’s plenty of room in this vehicle for all of us, so make yourself at home, but understand this: Creativity and I are the only ones who will bemaking any decisions along the way. I recognize and respect that you are part of this family, and so I will never exclude you from our activities, (…) But above all else, my dear old familiar friend, you are absolutely fobidden to drive.”

E, no fim, todos nós queremos fazer coisas interessantes e expôr os nossos tesouros escondidos, pelo que temos de pensar em grande e não nos acobardarmos.

Encantamento, a segunda parte deste livro…

apresentou-me uma visão da inspiração que sinceramente nunca me tinha ocorrido.

“When he told me this story (…) chills ran up my arms. The hairs on the back of my neck stood up for an instant, and I felt a little sick, a little dizzy. (…) I’d experienced these symptoms before, so I knew immediately what was going on (…) I believe I can confidentjy call it by its name: inspiration.”

Quantas vezes fui fisicamente atingida por uma ideia? Ocorrem-me algumas. Com arrepios, deslumbre e um sentimento de concretização ao passar a ideia para o papel.

Esta perspectiva adensa-se e concretiza-se de uma forma bastante interessante. Ela deixa-nos seguros que as ideias estão lá, à nossa volta, só temos de encontrar as que melhor nos servem e trabalhá-las.

I believe that creativiy is a force of enchantment – not entirely human in its origins. (…) Therefore, ideas spend eternity swirling around us, searching for available and willing human partners.”

Com uma visão baseada em teorias nada científicas, Gilbert defende que o processo criativo é uma espécie de magia que faz com que estas entidades (ideias) se insinuem até o artista as tornar reais. Ideias como formas de vida energética que não possuem forma física e que interagem connosco, as pessoas, em busca daquele parceiro que as manifeste fisicamente.

Ideas are driven by a single impulse: to be made manifest.

Reconheci o processo de nascimento de “Percepção”. A ideia perseguiu-me durante uns quatro anos até eu a concretizar. Foi juntando pedaços, aparecendo aqui e ali, até eu me sentar a escrever a história.

Therefore, ideas spend eternity swirling around us, searching for available and willing human partners.

Confesso que, esta perspectiva é bem mais animadora do que a sacana da Musa sempre de mau humor, ou perseguir as ideias fugidias, ou qualquer outro cliché que adoptámos como nosso. Ver a Criatividade, as Ideias, como parceiro é animador e tão diferente do que tenho lido até aqui.

Aceitar ou recusar o convite de uma Ideia para trabalhar, depende de cada um de nós, e do que temos em mãos num dado momento. Muitas vezes dizemos Não. Mas outras vezes dizemos Sim. E, aí, o trabalho começa.

A different way is to cooperate fully, humbly, and joyfully with inspiration.

Outra ideia que me agradou foi: devemos considerar que, o que é mau para a pessoa, é mau para o trabalho. Por isso, o estigma do artista atormentado não deve ser a forma normal de trabalhar. Não é saudável.

You can measure your worth by your dedication to your path, not by your successes or failures.

Concordo. Sou mais criativa quando estou entusiasmada com o que estou a fazer. Pelo puro prazer do que estou a fazer. E, tenho sérias dificuldades em escrever ficção quando estou desinspirada, e a passar dificuldades noutras áreas da mina vida. Até porque, acho que os nossos demónios gostam pouco de trabalhar, preferem festas… mesmo sendo pity parties.

You can believe that you are neither a slave to inspiration nor its master, but something far more interesting – its partner – and that the two of you are working together toward something intriguing and worthwhile.

Sim, uma ideia também se cansa de esperar, e vai embora. E, isso, faz parte do contrato que temos com a Inspiração. Por negligência ou morte natural, uma ideia pode ir à procura de outro parceiro, e deixar-nos livres para a próxima ideia.

Esta dinâmica entre ideias e Criativos contempla muitas outras coisas, como o conceito de descoberta múltipla, numa abordagem muito positiva que me trouxe uma forma de ver algumas situações diferente da habitual.

Permissão, a terceira parte deste livro, fala-nos sobre como Gilbert se tornou numa escritora.

Vinda de raízes familiares não artísticas, ela aborda o tema de pedirmos permissão para sermos o que somos, porque é o que fazemos…

You do not need anybody’s permission to live a creative life.

Fazer coisas é um impulso natural do ser humano. É tão importante como alimentarmo-nos com regularidade e tão antigo como a pré-história pode comprovar. Gostamos de criar coisas grandes, pequenas, intangíveis ou físicas. Por isso, a inspiração é a nossa maior aliada, numa vida tão colorida quanto a nossa coragem a deixar ser.

Sentirmo-nos livres para criar significa cultivar em nós o sentimento que estamos autorizados a estar aqui. Que este direito de estar aqui autoriza-nos a ter uma voz e uma visão pessoal. E, que é este direito a existir e exprimir-nos que nos ajuda a combater o diálogo interno horrível que surge em cada impulso criativo.

… often what keeps you from creative living is your self-absorption (your self-doubt, your self-disgust, your self-judgement, your crushing sense of self-protection).

Definir o que somos (um escritor, um pintor, um artista…) é crucial para que nos possamos defender destes discursos internos maldosos. É preciso declarar as nossas intenções, para nós próprios, e para o Universo. E, manter-nos conscientes desta realidade e do nosso direito de sermos o que queremos ser, qualquer que seja o resultado final, ou as nossas ansiedades e inseguranças.

The fact that I am here at all is evidence that I have the right to be here. I have a right to my own voice and a right to my own vision. I have a right to collaborate with creativity, because I myself am a product and a consequence of Creation. I’m on a mission of artistic liberation, so let the girl go.

Originalidade e autenticidade, escrever para nós mesmos e não para salvar o mundo, a procura de validação através da instrução formal, estarmos dispostos a abdicar da segurança e ariscar na prossecção de uma existência criativa, ser cuidadoso connosco e com o nosso futuro, usar a experiência que os anos de vida nos dão, encontrar os nossos professores noutros sítios que não a escola, as rejeições, o trabalho que nos alimenta e paga as contas, a recompensa que a devoção à nossa arte deve ser (não Ter), alcançar o que queremos com o nosso esforço, parar de nos queixarmos da vida, apreciar o trabalho criativo que fazemos, apreciar a inspiração, mantermo-nos o mais leve possível para continuarmos criativos, ignorar a opinião alheia e as suas discussões sobre a nossa arte, colocar as coisas em perspectiva e não levar tudo tão a sério… este é um capítulo brutal.

Pure creativity is magnificent (…) it’s a gift.

Gilbert continua a elaborar sobre as consequências da nossa arte, a angústia de criar, o paradoxo da importância da Arte, manter a sanidade e o espaço que a arte ocupa na nossa cabeça. Advoga sobre a necessidade de colocar as coisas em perspectiva porque é isso que determina a manutenção da nossa vontade em continuar

…art is absolutly meaningless. It is, however, also deeply meaningful.

Como artistas sabemos isto mas, por vezes, deixamo-nos seduzir pelo estereótipo do artista perturbado cuja genialidade o afasta de uma vida sã e normal… Quem nunca pensou assim?!?

Big Magic fala-nos sobre uma outra forma de ver as coisas. Que os nossos esforços saudáveis são aquilo que a nossa arte precisa. Afinal, como manteríamos décadas de trabalho, invisível aos outros, se não fosse porque realmente gostamos do que fazemos? Qualquer outra perspectiva cria desistentes ou loucos.

Pela primeira vez, houve uma outra perspectiva, saudável e coerente, que foi sistematizada de uma forma que fez verdadeiro sentido para mim. Tão diferente da típica história de sacrifícios, e passar necessidades, que outros têm romantizado, e carregado as vivências artísticas, numa profusão de sentimentos lúgrubes e doentios que não ajudam o artista a dedicar-se à arte.

Aqui assume-se que, quem quer perseguir a arte da escrita de verdade, não se queixa dos sacrifícios que tem de fazer. Dedica-se e faz tudo o que está ao seu alcance para suportar financeiramente a sua arte.

Não o inverso. Não o vê como uma qualquer dívida que a arte tem para connosco, seu criador. Esta crença de que, quem não vive financeiramente da sua arte não deve perseguir esse sonho, tem morto mais espíritos criativos do que podemos imaginar.

I simply vowed to the universe that I would write forever, regardless of the result. I promised that I would try to be brave about it, and grateful, and as uncomplaining as I could possibly be. I also promised that I would never ask writing to take care os me financially, but that I would always take care of it – meaning that I would always support us both, by any means necessary.

A ideia de que a arte não nos deve nada e que, como indivíduos que querem persegui-la, devemos empenhar-nos em desenvolvê-la, parece-me uma abordagem muito mais racional.

A recompensa é a dedicação que lhe temos. Aparecer para trabalhar todos os dias. Praticar, mesmo sem termos qualquer sucesso para mostrar. Esta é a satisfação que devemos sentir e a recompensa em si mesma. Tudo o resto são desculpas usadas para desistir.

Assim como a idade com que se começa não ser sinónimo do esforço que se coloca na prossecução da arte. Manter-nos activos pela simples vontade de aprender e aperfeiçoar. GIlbert insiste nisto também porque, com a continuidade desse trabalho, começamos a ver o padrão. Como a nossa ansiedade funciona em cada fase do processo, e como sair do padrão.

Afinal, não há vidas fáceis. Todas as ocupações trazem a sua quantidade de problemas. Todas têm frustrações e desapontamentos. Coisas boas e coisas más. Resta saber quais as chatices que estamos dispostos a sofrer pelo nosso trabalho.

Because if you love and want something enough – whatever it is – then you don’t really mind eating the shit sandwich that comes with it.

Outro tema com o qual me identifiquei, porque é sempre um tema sensível para todos os criativos, foi o facto de Gilbert manter o seu trabalho oficial, mesmo após ser publicada algumas vezes.

I never wanted to burden my writing with the responsibility of paying for my life. I knew better tha to ask this of my writing, because over the years, I have watched so many other people murder their creativity by demanding that their art pay the bills.

Concordo que associar a ideia de Sucesso a viver financeiramente dependente da arte que se produz é uma receita para o desastre. Acontece tanto que perdemos a noção de qual era o Sonho. A maioria de nós desistiria na mesma, se não estivermos realmente empenhados em trabalhar na nossa arte.

There’s no dishonor in having a job. What is dishonorable is scaring away your creativity by demanding that it pay for your entire existence.

A maioria de nós cria a sua arte em bocados de tempo roubados a outros trabalhos diários. Foi assim que nasceu Percepção, e tantos outros textos, antes e depois desse livro. E, mesmo assim, ainda me esqueço disto.

Money helps, to be sure. But if money were the only thing people needed in order to live creative lives, then the mega-rich would be the most imaginative, generative, and original thinkers among us, and they simply are not.

Uma boa comparação de Gilbert, para explicar a forma como lidamos com a nossa arte, é um casamento desgastado e um romance escaldante. A ideia é começarmos a tratar a nossa criatividade como o segundo, algo escaldante e apaixonado, em que 15 minutos chegam para satisfazer parte da chama que nos consome.

I always try to remind myself that I a having an affair with my creativity, and I make an effort to present myself to inspiration like somebody you might actually want to have an affair with…

A quarta parte deste livro é a Persistência.

Que irá ficar para outro artigo, na próxima semana… Até lá! (e que podem ler aqui…)

 

OBRIGADA A TODOS! E, CONTINUEM A COMENTAR; GOSTAR; PARTILHAR; E, SE PUDEREM CONTRIBUIR EM BAIXO, ERA ESPECTACULAR.

Espero os vossos comentários com alegria e antecipação.

Donate! Help support this site!

2 comentários em “Opinião: ‘Big Magic’ de Elizabeth Gilbert – parte I”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.