Praticar, Orçamento Temporal, Criar, Não Desistir

praticar

Escrever. Todos os dias. Sem excepção. Porquê?

Porque é essencial trabalhar a nossa arte (seja ela qual for) todos os dias. Melhoramos o produto de *seja lá o que for* quando praticamos com frequência. Quando reservamos uns momentos, de duração apropriada para a vida que temos no momento, para dedicar à nossa arte.

PRATICAR. TODOS OS DIAS. SEM MISERICÓRDIA.

Isto, esta prática diária, exige tempo e determinação.

Pode ser difícil. Pode ser chato. Pode ser assoberbante. Mas, queremos fazer aquilo que dizemos que queremos fazer? Queremos mesmo? Todos os dias?

Porque, por vezes, desejávamos que também a prática da nossa arte nos fosse tão intrínseca como respirar… ou que não exigisse uma junção de tantas necessidades diferentes.

Mas, aquilo que queríamos fazer não traz dinheiro! – repetimos, uma e outra vez.

Acho que ninguém deseja viver como Van Gogh. Na miséria, a passar fome, doente… a fama que detém hoje, veio de forma póstuma, por mãos de um familiar directo, que criou a parte negocial que o artista, por razões inerentes à sua forma de viver, nunca soube gerar.

A maioria de nós não tem estofo para abandonar tudo e perseguir a criação de arte, sem qualquer comedimento. Temos adultices (= responsabilidades de adulto) com que nos preocupar.

E, no entanto, sacrificamos outras coisas. Não dedicamos tempo à nossa escrita mas podemos ver quatro horas de televisão por dia… ou de redes sociais.

Sacrificamos momentos, pessoas, outras actividades… em muitos dias, abdicamos da saída, da tarefa ou de companhia, para podermos ficar a fazer o que fazemos sempre: ir e vir do trabalho.

Escolhas… Escolhas…

Mas, podemos escolher usar esse tempo para criar algo para a nossa arte (seja ela escrever ou outra). É uma escolha.

No Livro Dois – Feridas autoinflingidas – do livro “Turning Pro” de Steven Pressfield, encontramos a controvérsia na escolha de carreira.

carreira-sombra

Estamos dispostos a fazer tudo o que nos incomoda a alma, até ao ponto de aceitarmos todo o assédio que o ambiente laboral proporciona (há muito, de vários níveis de toxicidade, com características específicas e sem qualquer regra que modere a sua existência ou minimize o seu impacto), mas não estamos dispostos a fazer o que a nossa verdadeira vocação exige. Irónico, não é?!

O que é preciso para manter uma prática criativa regular?

O Capítulo 5 do livro “Writing Fiction for Dummies” de Randy Ingermanson e Peter Economy, começa assim:

recursos de escritor

O nosso tempo aqui é finito. Desconhecemos quanto. Tão curto quanto a durabilidade do nosso invólucro de pele nos permita. Contado até ao ínfimo momento de cada dia que passa.

Precisamos de recursos para praticar a nossa arte. Tempo que bloqueamos no calendário, Espaço que escolhemos ocupar com os objectos necessários à execução e Dinheiro que orçamentamos, para alocar à aquisição dos objectos e aprendizagens, necessários à produção da nossa arte. Com mais, ou menos, abundância tudo isto é possível quando é uma prioridade.

Time Budget ou Orçamento Temporal

Gerir o tempo de que dispomos é essencial e, no outro dia, cruzei-me com um conceito muito interessante de “time budget” ou “orçamento temporal”, explorado numa das meditações de Jay Shetty.

Introduzo aqui este exercício porque pode servir-vos bem:

orçamento temporal

As formas como lidamos com as coisas que entram no nosso orçamento temporal podem ser ajustadas com estratégias de gestão de tempo, através do uso de ferramentas novas (como aplicações de gestão de tempo), ou verdadeiras barreiras e proibições.

tempo gasto

É a vontade que sentimos, a disciplina, o alinhar de práticas com objectivos e desejos, a entrega pessoal às nossas artes, que determinam se o tempo gasto foi naquilo que afirmamos querer.

Quanto mais tempo dedicamos a uma arte (seja a praticar, aprender, investigar, testar o que pode funcionar…) maiores as hipóteses de melhorar e, por sua vez, mais oportunidades temos de criar um produto final melhor e, por consequência, mais hipóteses de atingirmos os nossos objectivos (ter sucesso).

Quanto mais tempo dedicamos a pensar em como construir (e a fazê-lo de facto) a nossa arte, de forma útil e construtiva, mais nos dedicamos à sua prática, e não apenas às ilusões sonhadas que temos dela.

Encaixar as nossas práticas criativas, ou artísticas, pelo meio das outras responsabilidades é algo que acontece sempre. O que podemos ter é um orçamento temporal distribuído de formas diferentes, em que a prática criativa ocupa mais tempo.

O que nunca teremos é a completa devoção a uma só parte da actividade criativa. Ninguém passa o dia todo, todos os dias, a escrever um livro de ficção. Durávamos dois dias e, depois, o cérebro desligava.

Assim, o tempo que atribuímos à criação (escrita ou outra), à gestão da nossa vida como um todo, ao equilíbrio dos nossos recursos, permite-nos atribuir um maior, ou um menor, espaço na nossa vida, consoante a fase que estamos a viver.

Mas, seja manter um horário semanal, ou um bloco de tempo a cada dia, é fulcral usá-lo para praticar a arte que desejamos fazer melhor.

controla o teu tempo

O Compromisso com a nossa Arte

A parte III do livro “Big Magic” começa assim:

votos

Eu não compreendi assim tão cedo o que gostaria de fazer, todos os dias da minha vida e, muito menos, o que isso implica a cada dia. Sinceramente, ainda tenho dificuldade em gerir o que isto implica a cada dia.

Nunca fiz votos de uma maneira assim tão formal. Acho que a coisa mais parecida com isto, foi seguir o curso do “The Artist’s Way”, incluindo todos os compromissos para comigo própria e com a minha escrita, mas já tinha trintas e muitos anos.

O meu compromisso para com a minha escrita firma-se todos os dias, com cada momento dedicado a aprender sobre as práticas que servem estes actos criativos, com a constante busca pelo entendimento da inspiração que preciso para escrever, a regrar os meus passos, a permitir que esta vida seja feita de pequenos incrementos a cada dia, a escrever o que quer que seja…

Sinto-me longe de poder dizer que atingi o ponto em que a rotina de escrita criativa é a ideal para mim. E, há dias em que me pergunto se defini alguma rotina de todo…

Mas, estipulando tempos diários para dedicar aos diferentes projectos que tenho a decorrer, procuro asseverar-me de que tenho uma prática criativa definida, um propósito, que trabalho para os objectivos e que uso os meios de que disponho da forma mais equilibrada que me é possível.

Como a escrita se faz de muitos projectos complementares, gosto de pensar que cada foto partilhada no Insta, por exemplo, faz parte da prossecução deste meu sonho de escrever todos os dias, em vários géneros e formatos que gosto.

Gosto de acarinhar a ideia de que cada vídeo que faço (VLook), por mais inexperiente que seja, ajuda a proporcionar um tom a este sonho que é feito de histórias, de livros, de letras e de criatividade.

Motivação para trabalhar

No Livro V de “Meditações” de Marcus Aurelius, ele diz:

natureza humana

Este é um excerto de um ponto que muito mais tem para dizer sobre o papel do descanso, sobre os limites a impor, sobre amor-próprio, sobre o trabalho do artista e o valor do trabalho em benefício da sociedade… entre outras considerações.

Isolei algo com que me identifico: muitos dias houveram em que não tinha vontade de me levantar da cama. Lembro-me dessa sensação com tanta clareza que me assusta.

Quando se dedica muito tempo a actividades que não estão alinhadas com os nossos objectivos, e sonhos, é costume acordar com esta falta de vontade de nos levantarmos. Já estivemos todos lá, certo?!

Acho que o importante a reter (de todo o ponto 1, que não é possível transcrever para aqui na totalidade, mas que aconselho a leitura) é:

O nosso trabalho criativo serve a vida em sociedade. Só temos de descobrir como o pôr a funcionar.

É parte da nossa natureza humana fazer o trabalho para que nascemos. Isto inclui todo o trabalho para o qual sentimos que fomos feitos… e todo aquele que, por vezes, nos leva a duvidar se fomos feitos para ele, mas que continuamos a fazer… o meu exemplo pessoal disto é este blogue. Quinze anos a escrever para este sítio online.

A nossa carreira-sombra atinge o píncaro quando nos desmotiva de perseguir seja o que for da nossa verdadeira vocação.

Trabalhar nos nossos sonhos, nas nossas artes, é necessário para este mundo, para a vida em sociedade. Tem de haver diversidade, temos de nos apresentar para os desafios de cada dia, com a motivação de quem persegue o aperfeiçoamento. A coragem de aparecer para a carreira de sonho e não apenas para a carreira-sombra.

Todos conhecemos alguém que faz o que gostaríamos de estar a fazer. O que ele faz é útil para a sociedade. Porque não conseguimos ver o mesmo em nós?

Importante é não desistir. Não desistir das nossas actividades criativas, não desistir de servir a sociedade como podemos e sabemos. Não desistir… todos os dias. Um minúsculo incremento em cada dia.

Obrigada e Até Breve!

***

Referências:

  • Livro “Turning Pro” de Steven Pressfield (ISBN 9781936891030)
  • Revista Super Interessante Arte – Van Gogh – A Febre de Criar
  • Artigo ‘As cartas de Van Gogh
  • Livro “Writing Fiction for Dummies” (ISBN 9780470530702)
  • Jay Shetty Meditations na app Calm
  • Livro “Big Magic” (ISBN 9781408881682)
  • Livro “The Artist’s Way” (ISBN 9781509829477
  • Livro “Meditações” de Marcus Aurelius (ISBN 9780486298238)

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