
Olá! Sê bem-vindo à [minha — cáustica — biblioteca].
Hoje, trago-vos uma opinião pessoal sobre o livro “Hábitos Atómicos” de James Clear. E, é só opinião, com quase nada de citações ou resumo de temas. Ou seja, é uma partilha sentida da minha parte.
Eu acho que nem sabia o quanto este livro me irritou, até começar a tentar escrever uma opinião, e só me saíam pérolas complexas, de quem tem demasiado a dizer sobre as injustiças desta sociedade.
E, este livro propõe-se a algo grande: mudar de vida com o combinado de centenas de pequenas acções nesse sentido.
Assim…
Procrastinar.

Procrastinar, foi o que eu fiz, desde que ouvi alguém falar sobre este livro, 1ª edição datada de 2019. Que conta agora, quer dizer, em Outubro de 2025, a 30.ª edição (a sério?! 30ª?). Eu deixei para depois.
Como já passou de moda, espero não irritar muita gente com esta opinião. Assim, procrastinei durante muito tempo… anos.
E, porquê? Bom, estava confiante que havia muito pouco que pudesse acrescentar, ao que já tinha lido dentro deste tema, e outros temas do género.
Não me enganei.
E, não. Não fui, finalmente, ler porque tinha vontade de confirmar uma opinião abrasiva sobre este livro. Foi-me recomendado e, por acaso, encontrei-o a um preço interessante. Sem esquecer que, sempre serei uma interessada em livros que se propõem a ensinar-nos algo sobre como viver melhor.
Correlacionando o que li noutros livros com este, não posso dizer que haja muita novidade. Felizmente, James Clear também percebe que tem de fundamentar a sua experiência pessoal nas obras de cientistas, que vieram antes dele, e em teorias mais do que provadas.
Assim como, fundamentá-la em histórias ilustrativas em diferentes contextos profissionais e pessoais e, em senso-comum: se gastas mais do que ganhas, nunca vais poupar nada.
Não sei, parece-me senso-comum. Mas eu sou portuguesa, o que sei eu sobre isso?!
Quando começamos a ler este livro, temos a lista das referências para cada tema, e a forma como certos comportamentos são melhores para a nossa existência diária, até formarmos um sistema operacional para lidar com mudanças e propor-nos ao melhoramento constante… ou será?
Esta obra fala sobre o método de formar pequenos hábitos (atómicos), encadeados uns nos outros, com estratégias para alimentar os bons, e eliminar os maus, até atingirmos um movimento de melhoria constante.
Mas, e este é um grande ‘mas’, para quem tem pensado, cada vez mais, na forma como o equilíbrio é tão difícil de encontrar e manter, quando se fala da quantidade de afazeres, e na complexidade crescente, que cada parte desta nossa vida moderna nos tem apresentado… este livro soa muito a uma trela bem apertadinha na coleira que usamos ao pescoço.
[Alimentar uma ideia de existência focada em melhorar, de forma constante, sem qualquer atenção às particularidades de cada um, e sem comedimento sobre o que se exige (tens de ser assim, e assado, para seres o maior) é escravizar o indivíduo.]
E, sejamos sinceros (pessoas diferentes = papéis sociais diferentes), para quem faz uma centena de coisas em função de mais do que uma pessoa, todos os dias, de dia e de noite, encadear actividades habituais é a forma de operar que sempre fez mais sentido.
Não deixar meias sujas espalhadas por aí, e recolocar o objecto de volta ao lugar onde ele pertence após usar, são procedimentos diários normais, não é engenharia aeroespacial. E, ainda ensino outros a fazerem isto, todos os dias. Há material sobre os anos 50, com hábitos que, ainda hoje, fazem sentido e que trouxeram conhecimento relevante, sobre métodos diferentes, com bons resultados. Encontrei neles muito valor prático.
Ou seja, para quem não cuida de uma casa, de si própria, de uma família, com membros com quem se partilha o espaço, e com outros com quem se partilha as responsabilidades virtuais/tecnológicas, muitas vezes, em simultâneo com vida profissional, não é possível que alguma destas ideias soe a monumentalmente novo.
No entanto, até a parte dos genes, e do talento, me fez comichão. “…escolher o campo de competição certo…”. Sim, nunca gostei de basquetebol. Sempre fui (muito) baixa e era atropelada em todos os jogos. Nunca me passou pela cabeça ser jogadora desse desporto. Mas, acho que não precisamos ter os 2,10m do Shaquille O’Neal para jogar. Competição?! Prefiro Criação.
No entanto, volto a reafirmar a ideia que, eu não sou o público-alvo deste livro, e que compreendo como a organização destes temas, desta forma específica, seja útil para jovens que nunca tiveram de lidar com certas coisas.
A apresentação da informação faz sentido, é útil, e pode ser até inspiradora para os menos experientes. É um método que pode ajudar, e não sou contra a leitura deste livro. Acho que é uma introdução interessante a alguns temas.
Mas, e ainda na partes das comichões, acho que, colocar Vícios no mesmo espectro dos Hábitos, parece-me esticar um pouco aquela trela, acima mencionada… e adicionar-lhe uma chicotada.
Hábitos, como actividades que se fazem porque nos acostumámos a fazê-las, mas das quais não sentimos a falta, quando retiradas da realidade diária, é um certo tipo de bicho.
Vícios nos quais centramos alívio, conforto ou necessidade de auto-destruição, é um monstro completamente diferente. Não devem ser conduzidos no mesmo carrinho e rezar para que eles não se virem contra o condutor.
E, se não houver uma completa mudança de vida, um verdadeiro esforço em abraçar uma existência diferente daquela que potenciou a dor, que leva a determinado vício, “tornar um hábito desinteressante” não vai ter qualquer impacto… excepto na nossa auto-estima. Falhar é um veneno maravilhoso para um hábito viciante.
Mas, sim. Sei que os conteúdos são direccionados a um público mais alargado, interessados, talvez mais, em fingir que lidam com maus hábitos, ou que desejam ser a perfeição dos bons hábitos materializada em pessoa, ou até que, a sua existência tem o acumular desregrado, e francamente abusador, do excesso de tarefas assumidas por um ser humano.
Aos que lhe encontram excessivo valor, aconselho outros livros, mas escritos por outras pessoas e noutros tempos. A prateleira de auto-ajuda tem uma selecção bastante abrangente, e com várias décadas, na construção de conhecimento. É só pesquisar outros materiais. Garanto que, se forem ao separador [a minha biblioteca] aqui no blog, encontram algo por onde começar.
Ou, consultar um médico especializado em saúde mental… isso tem mais hipóteses de funcionar. Nós, pessoas, ou a maioria de nós, temos assuntos por resolver, daqueles que, por vezes, nem nos apercebemos que ficaram dos anos da nossa vivência inicial. Aconselhar mudanças profundas, quando somos apanhados numa doença crónica e incurável, através de pequenos hábitos cumulativos pode parecer perspicaz, mas é só falta de noção sobre como funciona o sofrimento humano.
O motivo pelo qual somos preguiçosos, trapalhões, mal orientados para as tarefas presentes, e do futuro e, um pouco menos do que sapientes, sobre aquilo que a vida adulta exige, de facto, é um reflexo da vida actual, não é um defeito de carácter.
E, não faz mal. Somos todos pó das estrelas (ou assim diz Alan Watts, com um pouco mais de charme de estudioso do Universo). Ou, também podemos ir pelo caminho da integração da Sombra (e, agradecer os estudos de Carl Jung).
A verdade é que, não sei bem — para além das 36 páginas de referências em “Hábitos Atómicos” — o que posso adicionar às minhas notas. E, não é que não recomende o livro, porque consigo ver o que o autor pretende e acho que pode ser útil para um certo público.
Até o classifiquei bem assim, umas 3,7 estrelas, mas considero-me uma mãos-largas na classificações.
Contudo, acredito que, há temas que devem ser tratados noutros sítios e que, neste livro, são desvalorizados com tanta simplificação que até assusta.
Fazer alguém sentir-se mal porque não consegue manter um certo hábito, qualquer que seja, sem ir em busca do motivo, ou motivos, pelos quais esse hábito não se instaura, é abrasivo. A melhor forma de resolver não é compreender porque acontece?
Ou, identificar dificuldades em formar hábitos, quando não temos métodos para fazer esse trabalho, e nunca aprendemos a forma correcta de o fazer…
Ou, atribuir um valor à manutenção de um hábito, que se liga à forma como nos vemos, apenas para percebermos que nunca vamos ser capazes de o manter, porque há um motivo para essa relutância…
Ou, assumir que cada pessoa tem um tipo de existência em que, só não se instauram bons hábitos porque não se quer, ou não se eliminam maus hábitos, porque não se quer… situações há em que não temos escolha.
Ou, assumir que o significado de sucesso pessoal é igual para todos é, simplesmente, delirante.
Faz lembrar aquela ‘cultura Bro‘ em que estabelece ideais estúpidos, e impossíveis, para os jovens que não tiveram apoio, orientação e educação familiar. Há décadas, também ouvi Les Brown e encontrei nas suas palavras alguma medida de incentivo. E, refiro apenas para terem noção da quantidade de coisas destes materiais que já me passaram pelos ouvidos/olhos.
E, se lermos outros estudos e autores, compreendemos que toda a energia dispensada para auto-controle esgota-se, e voltamos a ficar dependentes da concretização de algo, de forma artificial, mas que já não temos energia para perseguir.
Devemos desistir da ideia de controlar as nossas imperfeições? Ou da ideia de fazermos mais e melhor? Ou de aparecermos de uma forma mais real, mais autêntica?
Não. Acho que nunca devemos desistir de tentar fazer melhor. Mas isto não significa auto-flagelar-nos. É preferível escolher melhor as fontes de onde se retiram os conhecimentos que necessitamos.
Por isso, é juntar o que serve, esquecer o que não serve, e tomar tudo com um grão de sal. Ressalvando que, senão o fizermos, podemos magoar-nos mais ao procurarmos uma perfeição impossível.
E, ainda pretendo recolher algumas notas de “Hábitos Atómicos”. Se consigo ou não, é outro tipo de luta, agora que tenho de considerar o que estes temas significam para mim.
Noto o loop “tenho sucesso a explicar como podem ter sucesso”. Mas, é o que temos, em certos circuitos, hoje em dia. E, os sucessos feitos nas redes sociais são a epítome disto.
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