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Para construir um bom título é preciso saber colocar as coisas em perspectiva.
Enquanto estava a trabalhar num artigo, que foi publicado este Domingo, surgiu a ideia de aprofundar, um pouco, como funciona a escolha de um título para uma história.
Neste, Alterar o Título?!? Porquê? Não! Arghhh…, despoletado pela experiência de quase-publicação inicial do conto Tudo se vai no Outono’, achei que poderia ser interessante partilhar convosco algumas ideias sobre como escrever um bom título.
Ressalvo que, não há fórmulas mágicas para criar um título espectacular e, que as orientações para títulos de não ficção, artigos e, mesmo poesia, devem acautelar para as suas diferenças de géneros e convenções das respectivas áreas.
O título é a ‘porta de entrada’ do teu texto ficcional. Um bom título abre a porta ao leitor e convida-o a entrar. Um mau título, encosta essa porta ou, mesmo, fecha-a.
Quantas vezes é o título que nos faz querer saber mais sobre um livro? Muitas, no meu caso e, ocorre-me “An Inventory of Losses” por Judith Schalansky como um dos meus exemplos mais recentes.
A economia de atenção implica que o título, como a etiqueta que representa o conteúdo, tem de ser capaz de responder às regras económicas, do recurso mais valioso: a atenção dos leitores para o teu texto.
Maus títulos afastam leitores, mesmo no processo de submissão. Um editor experiente retira muito da primeira impressão de um título.
No decorrer do trabalho com um editor, se um título não for aceitável, e não souberes como escrever um melhor, alguém vai oferecer-te um outro qualquer que, provavelmente, não vai corresponder ao que tinhas imaginado para a tua obra. Já lá estive, mais do que uma vez… e, não é bonito.
Assim, decidi apontar aquilo que sei sobre os aspectos a considerar quando escrevemos um título para uma obra de ficção, com alguns cruzamentos que podem ser aproveitados para outros tipos de textos.
9 aspectos a considerar:
1. Lê e Compara
Lê publicações semelhantes à tua e compara os títulos existentes. Observa como esses títulos se compõem, quais as características que têm; o que suscitam quando os lemos, uma e outra vez; o tamanho que têm; o que pensamos deles, após lermos o texto que eles nomeiam; se têm um subtítulo.
Cada género literário, e cada formato de texto, tem uma apresentação típica de títulos. Familiariza-te com os títulos das publicações semelhantes à tua.
2. O que vês?
Reflecte sobre os títulos. O que captou a tua atenção? Incentivou-te a comprar o livro? A lê-lo? Que palavras são usadas? Fez-te rir? Ofereceu-te a solução para um problema? É uma lista de afazeres com utilidade? É poético? É simples? É complexo? É obtuso? Pode ter um duplo significado? Usa recursos estilísticos? O que significa o título para ti, antes de leres o texto? E, depois de leres o texto? Tem uma carga emocional? De que maneira te afecta? Como te relacionas com o estilo apresentado? E, o que queres emular, ou evitar, no teu próprio título?
Estas reflexões oferecem-te pistas sobre o melhor processo para construíres os teus títulos.
3. Surpresa!
Antevê algo importante no contexto da história. Um título é, ou pode ser, uma alusão a um significado mais profundo, presente na história. Um bom título é representativo desse elemento mais importante, sem ser demasiado revelador.
Que mensagens parecem ser importantes, quando lês um texto com um título que te interessou? Ao longo da leitura, conseguiste articular onde a história forneceu o título ao escritor/editor? Essa relação, entre texto e título, é directa ou indirecta?
Ocorre-me “Never Let Me Go” de Kazuo Ishiguro.
4. Já me viste?
Procurar expressões no texto que sejam títulos em si mesmos. Na poesia, é costume criar poemas sem títulos. Quando precisamos nomear um poema, para publicação ou identificação, utilizamos o primeiro verso como título, repetindo-o no título.
Em ficção, podemos ir à procura de uma frase curta, uma expressão significativa no texto (não um cliché), que represente a obra de uma forma curiosa. Podemos encontrar um conjunto de palavras que funcione, que seja significante e de impacto imediato. Mas, é importante manter presente que, é aconselhável que haja esse cruzamento entre conteúdo do texto e título. O título deve sempre ficar associado à história de forma simbólica.
5. Inverte a ordem dos procedimentos
Às vezes, um título surge primeiro. Quando já sabemos sobre o que vamos escrever. Quando já fizemos pesquisa e construção de trama suficientes. Ou, mesmo, quando a intuição nos diz que ‘é isto, e ponto final‘.
Noutras vezes, o título só surge após um primeiro rascunho completo. Por isso, aprendi a não forçar o evento. O título vai acabar por aparecer, vou construí-lo à medida que construo a história, ouvindo o que a minha intuição me diz. Não aparece por magia mas, às vezes, parece que sim.
Ao longo do tempo, em que estou a pensar na história, o título surge e vou reiterando até uma versão que considere adequada. Mas, se sentires que a ideia inicial já vem acompanhada de um título, não o descartes por ser o impulso inicial. Aponta-o e repensas, no final, se é adequado.
6. Faz listas
Escreve várias iterações de um título. Aponta as ideias dispersas que vão surgindo. Não posso dizer para ‘apontar tudo!’ porque isto, nem sempre, é a melhor opção… dispensamos mais fricção por excesso. Já nos sentimos indecisos, com as três versões do título, não precisamos de dezenas!
Mas, sentindo que precisas de uma sessão de brainstorming, ou duas… aponta as tuas ideias sobre o que daria um título decente, ou palavras relacionadas com a tua história, ou iterações de outros títulos e o que aprecias ou não gostas. Ter um conjunto de onde possas escolher.
7. Investiga
Tens um título em vista, ou tens uma lista curta de opções… abre uma janela de um motor de busca na www e escreve esse título. Pesquisa as tuas ideias para títulos, e deixa que a internet te dê as informações mais básicas: se há algum título igual, ou semelhante, quando foi utilizado para uma obra, por quem, em que tema ou género literário…
Por vezes, surgem publicações com títulos muito semelhantes e, também isto pode ser uma estratégia para potenciar vendas. MAS… e, este é um grande MAS, é algo arriscado porque para o leitor, é apenas confuso e, inducente de decepção, e frustração das suas expectativas.
E, projecta uma imagem menos própria, com uma certa duplicidade de intenções que, pessoalmente, não aprecio.
Não esquecer de investigar, também, os significados das palavras utilizadas, para confirmar que o significado que têm é adequado ao que desejas como título. Há certas palavras, que têm segundos sentidos, ou que são culturalmente carregadas de outros significados. É preciso fazer o despiste dessas possibilidades e garantir que as palavras que usamos são intencionais.
8. Colocar distância entre o texto e a nossa necessidade de escarafunchar um tema.
(a graça de um subtítulo destes, num artigo sobre Títulos, não passa incólume!)
Não é incomum, escrever um texto inteiro, e continuar confusa sobre que título utilizar. Acontece-me com frequência, em especial, nestes artigos do blog. Distanciar-nos do texto, ajuda. Terminar o que estamos a escrever, salvar, e ir dar um passeio, fazer outra coisa qualquer, interromper com uma actividade de movimento físico, entregando o processamento do tema para a nossa inconsciência.
A mente continua a tentar resolver ou, pelo menos, processar o desafio que lhe impusemos antes e, não é raro aparecer uma solução quando estamos a tomar banho, a fazer um recado ou a fazer outra coisa qualquer, que não seja o processo directo de ‘pensar sobre o assunto‘. Essencial é registar essas ideias, para mais tarde utilizar.
9. Nem, nem, nem
Não deve ser nem muito genérico, nem muito específico. Um título que seja genérico, apenas em suficiência, para não se tornar num mistério obscuro e incompreensível. Nem um título, que seja tão específico que comunica tudo, e retira qualquer curiosidade sobre o que o texto contém.
Também não é bonito utilizar um cliché. Aquelas tiradas que frustram o leitor logo à primeira impressão, pela sua banalidade… mesmo que seja mesmo apropriado para a história em si. Um cliché traduz-se em confiar que o leitor conhece o sentido popular de algo, quando a maioria das raízes desses termos estão enterradas no tempo ou, francamente, desactualizadas.
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Qualquer título deve ser bem investigado antes de ser submetido a possível publicação, ou auto-publicado. E, mesmo assim, há sempre o risco de não ser possível utilizá-lo. Também nisto, é preciso que sejamos moderados nos nossos desejos e possibilidades.
É melhor ter um título publicado, mesmo que não seja o que sonhámos, do que um confronto, com o qual pode ser impossível lidar, e sair vencedor. É preciso colocar em perspectiva… tal como, o que se pede de um Título: colocar o que vamos ler em perspectiva.
Após leitura, confirma-se ou refuta-se, a perspectiva que o título nos deu.
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Obrigada pela atenção e peço que deixes as tuas ideias e sugestões, nos comentários a este artigo. E, agradeço-te por isso. Também, todos os comentários são analisados, antes de serem tornados públicos, e tendo a responder ao fim de uns dias.
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Desejo-te uma semana criativa.
Obrigada e Até Breve!
