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O livro de hoje é “An Inventory of Losses” por Judith Schalansky.
Judith Schalansky, escritora, editora e designer alemã, que parece ser perita em fazer-nos viajar, com as suas histórias de género literário impreciso. Meio ficção, meio não-ficção, parte ensaio, parte biografia, parte relato histórico.
“An Inventory of Losses”, traduzido do alemão para Inglês por Jackie Smith, reúne um conjunto de ensaios em que, cada um, é potenciado por um facto ou objecto histórico de conhecimento, mesmo se comum, nunca banal.
Na descrição desta obra pode ler-se:
“«Como todos os livros, também este é impelido pelo desejo de deixar que algo sobreviva, de tornar presente o que está no passado, de conjurar o que foi esquecido, de dar voz ao que é mudo e de chorar o que se perdeu.»
A história do mundo está repleta de coisas que, desaparecidas, destruídas ou simplesmente esquecidas, se perderam para sempre. Animais, inteiras porções de terra, objetos e construções humanas que vivem agora uma espécie de não-existência, dependentes da imaginação ou da memória para serem resgatados de volta ao presente.
Cada uma das doze histórias que compõem este «inventário» apresenta uma realidade cujas fronteiras entre a presença e a ausência se tornaram ténues ao ponto de se confundirem entre si. Assim, partindo de poucos fragmentos e sempre entre a ficção, a biografia e o ensaio, um quadro perdido de Caspar David Friedrich, uma espécie de tigre há muito extinta, a escrita sagrada de uma antiga religião ou os pensamentos de uma Greta Garbo envelhecida que sonha com um último papel tornam-se janelas para um mundo perdido, uma forma de, com tanto de realista como de visionário, preencher o vazio.” — fonte: goodreads
A História está cheia de coisas que se perderam. É assim que se contam histórias mas, a maioria sobrevive ao contar as coisas que, quando em conflito, permaneceram para serem relembradas.
The caesura of death is the point where legacy and memory begin, and the lament the source of every culture by which we seek to fill the now gaping void, the sudden silence with chants, prayers and stories in which the absent one is brought back to life. — Preface
Um primeiro contacto:
Não me recordo onde me cruzei com a sugestão de leitura deste livro. Mas, não me esqueço da necessidade de o obter de imediato… algo que exigiu a minha acção imediata, o que raramente me acontece, pois tenho por princípio colocar os livros que me despertam curiosidade numa lista, que vou mantendo até acontecer uma das seguintes situações:
Encontrar o tomo físico, por acaso, a um preço simpático; Decidir lê-lo numa das plataformas de ebooks, mantendo a compra do livro físico opcional; Desistir de ler o/um livro por tempo indeterminado. Encontrar-me a fazer pesquisa sobre algo específico, e adicionar o tomo à lista de leituras, com um prazo.
“An Inventory of Losses” ou, em português, “Inventário de Algumas Perdas” (cujo título teria ficado melhor se fosse “Um Inventário de Perdas”, mas é a minha opinião), confirmou expectativas e superou-as, algo que agradeço, profundamente.
O tema das perdas é algo que me diz muito.
Being alive means experiencing loss. — Preface
Porque, como se pode ler no prefácio, “Estar vivo significa experienciar perda”… de pessoas, de oportunidades, de saúde, entre outras. Mas, também significa viver para além daquilo que se perde, e deixar que essas perdas modelem a nossa existência.
Ao ler “An Inventory of Losses”:
Não posso dizer que “An Inventory of Losses” seja uma leitura rápida ou pouco complexa. Se desejo saber, de facto, sobre o que se está a falar, precisei ir em busca das referências, avançadas em cada início factual, e nos próprios ensaios.
Porque, mesmo sabendo partes de algumas destas circunstâncias, que servem de mote aos doze ensaios, acho que foi muito útil ter uma noção actualizada, do que se estava a falar e imaginar, baseada dessas referências.
Esta espécie de pesquisa inicial, e a quantidade de curiosidades faz com que este seja um livro para ser lido com cuidado, devagar, e apreciando os mundos que se abrem perante nós, leitores, que desconhecem as perdas de que se falam, ou que precisam de tempo para enquadrar e empatizar com elas. Colocando em perspectiva o que é relembrado, e o que é esquecido, por nós humanos.
To forget everything is bad, certainly. Worse still is to forget nothing. After all, knowledge can only be gained by forgetting. If everything is stored indiscriminately, as it is in electronic data memories, it loses its meaning and becomes a disorderly mass of useless information. — Preface
Para alguém, como eu, que se debate com a recuperação constante de material de arquivo, e que continua a repensar os seus sistemas de registo de informação, esta ideia é digna de ser considerada com muito cuidado. Porque, por um lado, tudo aquilo que guardamos para não se perder, acaba relegado a um sítio ao qual não acedemos porque perde o seu significado e esquecemos o sítio onde está. Mas, por outro lado, não guardar a informação soa a perda imediata de algo que pode vir a ser preciso.
Não sei se o conhecimento só pode ser ganho com o esquecimento. Se adicionarmos a irrelevância de certo conhecimento, talvez. Mas, nem assim me parece que o seja, porque o que é inútil para uns é essencial para outros.
A perspectiva sobre a importância do conhecimento histórico, e a aceitação do que foi e é, nesta forma como os humanos vivem e se relacionam com as condições materiais, físicas e psicológicas, das suas vivências, é contemplada sem nos demorarmos com opiniões.
That which is denied the gods is something that despots through the ages all seem to aspire to anew: the destructive drive to make their mark is not satisfied by inscribing themselves in the present. Anyone who wants to control the future must obliterate the past. And anyone who appoints himself the founding father of a new dynasty, the source of all truth, must eradicate the memory of his predecessors and forbid all critical thinking… — Preface
O passado, como lente para observar o presente, enquanto contemplamos um, inatingível, futuro e, assim se coloca a ênfase na necessidade de conhecermos o que veio antes de nós, para podermos enquadrar o que é, neste nosso momento presente.
Alguns ensaios
Um atol desaparecido e a sua perda, por completo, notada em 1875. Atlas antigos que registam inúmeras ilhas fantasmas, que já não são visíveis fora de água salgada. A última viagem de James Cook que não se deparou com Tuanaki (o atol) por escassas milhas náuticas.
Em Março de 1777, a descoberta final, que levou alguns membros da tripulação a produzirem aguarelas do pedaço de terra, agora perdido perante o mar.

Uma das subespécies de tigres, de maior porte, que foram extintos devido à necessidade dos homens em matá-los por desporto, capturá-los para exposição pública ou eliminá-los dos terrenos aráveis. Mas, na Roma Antiga, eram caçados para as lutas, nos espectáculos públicos de violência do Coliseu. Tigres Cáspios foram avistados, por último, em 1964, entre o sopé das montanhas Talysh e as terras baixas perto do mar Cáspio.
Nenhum tigre Cáspio sobrevivia em cativeiro. Recusava-se a comer e acabava por perecer num estado de pele e osso. E, mesmo assim, eram apanhados e exibidos até ao momento em que a sua força vital cedia, perante um destino tão contra-natura. Neste ensaio, acompanhamos uma viagem de um tigre Cáspio, durante o poderio de Roma Antiga, até ao seu triste fim, fora da arena de espectáculo.

Reconstruir esqueletos de animais utilizando ossos aleatórios foi uma actividade que fez parte dos primórdios do naturalismo, e da formação dos gabinetes de curiosidades, os antecessores dos museus da actualidade.
Em 1672, Guericke recupera uma descoberta, datada de 1663, em que se havia encontrado um esqueleto de unic´ornio. O exemplar foi alvo de muito interesse, como seria de esperar, mesmo se mais tarde se provou a impossibilidade da descoberta. Destas noções, nasceu a ideia de um guia de monstros que, sem existirem de verdade, continuam a povoar a realidade humana e deram origem a alguns destes ensaios.

Vila Sacchetti, palco de ambições de grandeza, de interesses históricos, de vestígios antigos e dos efeitos da peste. Terras à beira de águas paradas, onde os mortos haviam sido enterrados, havia muitos séculos, onde os aromas bucólicos e infectados dos vapores das águas perversas e adoentadas foram motivo para o fim anunciado desta Villa, ou assim o ensaio nos faz crer. Um esplendor construído, almejando à manifestação física dum poder esperado, é abandonado à decadência da passagem do tempo sem qualquer consideração pelo desperdício gerado.
Villa Sacchetti at Castelfusano by Pietro da Cortona

Outros ensaios há…
No total, são doze curtas histórias que vivem numa dicotomia de presença e ausência e que me despertaram a imaginação. Um livro que merece ser lido com muita atenção, e que nos dá a sensação de magia escondida, na decadência da passagem do tempo.
Deixo-vos com uma última citação de “An Inventory of Losses” de Judith Schalansky:
Whoever wants to will understand. (…)That which shall become truth must be written down, says the angel. That which shall remain truth must be written down, thinks Mani. Only the written word will be proved right and will endure, will weight as heavy as the material on which it is captured, (…) . Years pass. Understanding forges a path for itself, a veil is lifted, content reaches for form, craftsmanship for art, the verbal for the written. — The Seven Books of Mani
Histórias que perduram no tempo e que contêm pormenores dignos de serem re-imaginados nos nossos escritos.
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