Recursos do Escritor: Mostrar e Contar

A distinção entre os dois é um dos problemas recorrentes de qualquer autor. Descobri que, mesmo após sabermos a diferença, e porque devemos usar este ou o outro em cada situação, podemos sempre incorrer no erro de cálculo e usar aquele que não ajuda o texto a cumprir o seu potencial.

Numa história existem situações/cenas que devemos Contar, mas sempre que possível devemos fazer uso do Mostrar. Isto garante que não aborrecemos o leitor, não o tratamos como inepto, não prejudicamos a construção de um texto fluído, inteligente e vivo.

Mostrar não é o mesmo que descrever. Usar meia dúzia de adjectivos que caracterizem o nascer do sol no horizonte não equivale a Mostrar. O autor deseja que o leitor consiga sentir o calor do sol sobre a pele e o ar frio que envolve a manhã. Deseja que o leitor seja transportado para o momento, que consiga imaginar-se a vivê-lo e não apenas a ser comunicado sobre os vários aspectos que o caracterizam.

Mostrar: Significa inferir coisas, dar dicas, ao invés de fazer uma afirmação.

Contar: Quando o escritor apresenta uma conclusão ao invés de permitir que o leitor tire as suas próprias conclusões.

Uma das melhores definições que li sobre esta dualidade foi:  “A boa escrita deve provocar no leitor não a sensação de que está a chover, mas a sensação de estar molhado” E. L. Doctorow

Alguns exemplos:

Contar: Ana era desastrada.

Mostrar: O sapato de Ana ficou preso no tapete, pela terceira vez naquela semana.

Contar: Maria tinha medo de estar sozinha em casa.

Mostrar: Maria levou a chávena de café para o sofá e preparou-se para a maratona de filmes, que alinhara para aquela noite. Três comédias de acção, barulhentas e eficazes.

Quando o autor opta por Mostrar ao invés de Contar, permite ao leitor desempenhar um papel activo na história. Ele projecta-se na leitura e nas personagens, experiencia as suas emoções e relaciona-se com a leitura.

Mostrar é indissociável do conceito de Cenas, as pequenas fotografias que captam os momentos mais importantes duma história (Artigo: De que são feitas as histórias). Ao escrevermos “O João e o Paulo lutaram pela posse da arma.”, não estamos a apresentar uma fotografia da cena mas a colocar uma etiqueta na situação.

O leitor sabe o que aconteceu, mas não vê o desenrolar da situação, não sofre com os murros desferidos, não tem medo de ser morto a tiro, não se enerva com a possibilidade de perder a luta.

Se construirmos a cena envolvendo as acções e reacções das personagens, a cabeça que é atirada para trás ao ser esmurrada, os grunhidos que acompanham um murro no estômago, o sangue que escorre pelo canto da boca, o leitor irá sentir algo com o desenrolar da acção. Ao ligarmos os elementos visuais à cena, o som, o cheiro, a visão, a emoção que a cena envolve é transmitida para o leitor. Mostrar é escrever usando os cinco sentidos e fazê-lo através de linguagem vívida.

Se optarmos por afirmar “O João e o Paulo lutaram pela posse da arma.” em vez de mostrarmos a luta, a conexão do leitor com os eventos é inexistente e a cena torna-se desinteressante e plana.

Mas Contar tem também um papel muito importante na parte expositiva do texto. Frases declarativas servem vários objectivos e são indispensáveis quando usadas apropriadamente.

Por exemplo, no início de uma cena, onde tentamos estabelecer a passagem do tempo ou um novo cenário. “Estávamos de regresso ao parque quando encontrámos o barco.” (‘O Diabo do Rio’ de Patricia Briggs)

A exposição fornece-nos uma imagem quase instantânea, orientando o leitor para um novo cenário ou ponto de vista diferente e fazendo-o com poucas palavras. “O Amieiro ouviu com uma atitude de aceitação fatalista a notícia de que ia regressar a Roke.” (‘Num vento diferente’ de Ursula K. Le Guin)

Contar serve, também, para assegurar algumas pausas entre cenas. Uma história constrói-se de altos e baixos, de acção e pausa, de mostrar e contar. Demasiada acção e/ou diálogo torna o leitor insensível, pelo que, os momentos de exposição são percebidos e bem-vindos.

“Uma das razões pelas quais detesto tomar anti-histamínicos tem a ver com os sonhos. Nunca fazem sentido, mas são desgastantes e sinto dificuldade em libertar-me deles no dia seguinte.” (‘O Diabo do Rio’ de Patricia Briggs)

Podemos Contar quando pretendemos induzir um choque no leitor, destacar uma frase ou parar uma cena subitamente.

“Ninguém sabia que eles haviam levado algo que lhe pertencia.

Pelo menos, ninguém que estivesse vivo.” (‘Tangle of Need’ de Nalini Singh)

Ou Contar quando queremos mudar de tom ou revelar carácter. “No caminho para casa, pude ver o nascer do sol. Odeio o nascer do sol. Significa que marquei demasiadas coisas e trabalhei a porcaria da noite toda.” (‘Guilty Pleasures’ de Laurell K. Hamilton)

Contar tem bastantes desvantagens, pelo que devemos ter atenção e dividir esses blocos em partes mais pequenas, introduzindo diálogos pelo meio, variando no tamanho das frases e, sobretudo, apenas quando for indispensável para a história.

Mostrar e Contar… Ambos são necessários à história, mas é preciso saber usá-los e fazê-lo bem.

ΦΦ

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12 pensamentos em “Recursos do Escritor: Mostrar e Contar”

  1. Eu sou da “equipa” mostrar 🙂
    Sempre que possível eu coloco os meus personagens a fazer o “trabalho”… dá dinamismo à escrita e simultaneamente pode ser usado como parte da caracterização de personagens.
    No meu tipo de escrita acho que o “contar” torna as coisas “mornas”. 😀

    Gostei do post 😉

  2. Bom tema, boas justificações e alguns bons exemplos.
    Concordo que devemos usar ambos; o “contar” e o “mostrar”, tudo depende da situação. Mas por norma uso muito mais o “mostrar” e gosto muito mais de obras que mostram mais do que contam, chegando mesmo a aborrecer-me com aqueles que contam demais.
    É tudo uma questão de equilíbrio e bom senso. O leitor apostará mais na obra se sentir com ela.

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